Prisão, de Alisson Carvalho

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Foto: Irineu Santiago 

Ele não tinha nome, não tinha identidade, não tinha direitos, não tinha voz, não tinha qualquer filiação. Era um corpo qualquer, vagando pelo vazio, sem nenhuma perspectiva, sozinho, acostumado com o nada, talvez sem ter a verdadeira noção do espaço ao seu redor. Não aprendeu nada, foi levando e sendo guiado conforme o fluxo do tempo. Se teve alguma sorte foi a de sobreviver. E na sobrevida, apercebeu-se da sua subsistência apenas quando o gasto de permanecer vivo foi maior e mais laborioso que a morte.

Pela primeira vez percebeu. Sentiu-se furtado de algo que era seu e que não possuía mais, ou melhor, que possuía menos. Aquela foi a sua primeira vontade, a posse. Ter o que lhe era carente, ter o que deixou de existir. Foi então, no intervalo entre esses insights, que entendeu a variação da temperatura, sentiu pela primeira vez frio. Tremeu e sofreu com a ausência do calor, descobriu a função do tato e sua audição despertou.

Eram ruídos, estranhos sons indecifráveis, alguns tão exóticos que assustavam. Deixou nascer o medo e o pavor. O susto fez seus músculos despertarem, sem querer aprendeu a abrir os olhos e descobriu que toda a sua existência fora uma interpretação malfeita dos estímulos, estava tudo muito perto, tudo muito claro, finalmente descobriu a verdade.

O universo de sensações perdeu a imensidão da sua imaginação, mesmo sem compreender aquela nova verdade o personagem julgou que seria mais benéfico permanecer na ignorância, pois teria uma liberdade que a nova realidade não possuía. O órgão recém descoberto notou as gradações da luz, tentou entender o seu mundo e viu que estava tudo cada vez menos espaçoso.

Recordou-se com carinho dos dias que nadava tranquilo no seu universo de devaneios, sem preocupações e foi durante uma dessas ocasiões que sentiu seu próprio corpo. Por que o seu universo se tornava menor à medida que ele compreendia mais os segredos daquela existência?

Amaldiçoou o seu fim iminente e desejou que aquilo que comprimia o seu ser perdesse o vigor e se destruísse. Que camada impenetrável era aquela que produzia sons, emitia luzes, sombras, frio e calor? Olhou com mais cuidado e na porosidade do material viu que algumas sombras se moviam em liberdade.

Era verdade ou uma miragem provocada pelo desespero? Sentiu pela primeira vez a esperança e passou a lutar diariamente contra aquela barreira. Não conseguia acreditar na vaga ideia de absolvição, pois quando se vive preso e enterrado por muito tempo qualquer noção de liberdade esvai-se.

Mesmo preso entendeu que só quando se mergulha nessa prisão subterrânea, conhecendo as sutilezas das trevas e sorvendo toda a dor ignorada, é que podemos dizer que nos conhecemos. Foi nesse momento que ele perdeu todas as forças e, na exaustão do esforço empreendido, algo inominável o induziu a revolução.

Aquele lugar deixou de ser confortável. Era fisicamente impossível fazer do invólucro um lar, pois as limitações daquele mundo diminuto não mais cabiam nas suas angustias, já não supria seus sonhos, não protegia mais de nada. A rígida película passou a ser a contagem para a degradação, tornou-se um cronómetro para a morte.

Escutou um grito ensurdecedor, deveria ser ali o germe dos pesadelos, dos infortúnios. Cogitou como seria o mundo além daquele micro espaço, como seria se não existisse nada, como agiria o vácuo em contato com a epiderme. Ele seria consumido pelo desejo do nada em equilibrar os meios, fazendo seu corpo se desintegrar no vazio até que nada de si restasse? E aqueles gritos seriam outros revoltosos tentando antecipar o próprio fim?

Eis que lhe ocorreu um pensamento furtivo, um daqueles pensamentos partidários das decisões perigosas. Se suas suspeitas estivessem certas haveria um ser primeiro fora do invólucro que tenha dado forma ao seu pequeno e limitado universo. E se ali mesmo tivesse existido outro inquilino qual seria o paradeiro dele? Qual o sentido de existir sozinho sem nada, exatamente nada, que indicasse um caminho qualquer?

Os questionamentos escorreram pelo corpo, cada músculo concordou com o todo, as partes queriam a rebelião daquele estado de dependência. Um lampejo quis repelir a expansão dos músculos e membros. Era medo? Não. Era um calafrio que parecia gostar do recuo e rejeitar a possibilidade da liberdade. Aquele era o tal momento crucial cujo instinto de sobrevivência agia, fazendo a vontade de correr rumo ao perigo mortal ser gradualmente dissuadida pela lucidez.

A pressão sobre o corpo e do copo contra o espaço aumentava, pela primeira vez desejou a morte, sentiu-se expulso do próprio lar, um lugar que abrigava e agora repelia o seu corpo enquanto o outro lado também negava a sua hospedagem. Um ruído exótico saiu dos pulmões e corporificou-se na cavidade do seu rosto que por algum motivo ele apelidou de boca. Escutou a sua própria voz. Falou.

Usou a extensão rígida da boca para empurrar a barreira, sentiu coragem e continuou o empreendimento, até ver a prisão romper-se. Os ruídos ultrapassaram a rachadura da casca, ele supôs que se tratavam dos seus fantasmas internos, seus pensamentos e tentou imitar aqueles sons, foi prontamente respondido com outros barulhos desconexos e complexos, algum tipo de linguagem desconhecida, mas que acalmava. Eram olhos homólogos que assistiam ao nascimento do novo ser sem nenhum entusiasmo. Comunicou-se. Sentiu o frescor da brisa, as sombras turvas se condensaram formando imagens multicoloridas. Novas verdades ficaram nítidas. Estava livre. Abriu finalmente as asas, entendeu que a vida era simples, respirou fundo e correu pelo terreiro do frigorífico, o seu novo lar.

Autor: Alisson Carvalho

livro: Rascunhos Líquidos  ( https://www.amazon.com.br/Rascunhos-Líquidos-Alisson-Matheus-Carvalho-ebook/dp/B079Q32P7L/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1518721638&sr=8-1&keywords=rascunhos+liquidos )

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