A velha casa, de Paulo Narley

Dei um abraço e um beijo de despedida nele. Uma despedida temporária, mas que não deixou de me apertar o coração. Subi no velho ônibus e sentei-me numa das poltronas. O motorista deu a partida e me despedi mais uma vez com os olhos. E, juntamente com a paisagem, meus pensamentos voaram e me levaram ao mundo dos sonhos, adormeci ali, naquela posição nada confortável.
Acordei logo depois com uma senhorinha a me perguntar em que cidade estávamos, e eu, com o raciocínio ainda enevoado pelo sono, respondi meio áspero, talvez até áspero demais, que não sabia onde estávamos. Ela me respondeu um “obrigado” tímido e voltei a me virar.
Olhei para fora através da janela do ônibus e a vista daquele céu tão imensamente azul encheu meus olhos. Entre o sobe e desce de pessoas, entre cada parada, meu coração acelerava pela ansiedade de estar voltando para a casa de meus pais. Aquela velha casa que tanto me fez feliz. Ali, onde todas as memórias da infância ficaram guardadas. Fazia muito tempo que não voltava.
O que será que me esperava? As coisas ainda estariam todas no mesmo lugar? E logo ri por essas indagações bobas, afinal, o que poderia mudar tanto em alguns anos? Talvez a pintura das paredes, talvez a posição de alguns móveis, mas de certo que cada canto ainda guardaria em si aquelas lembranças, as cantigas de roda, as conversas secretas da adolescência, os planos para roubar comida da geladeira sem ser visto, os amigos, os almoços de domingo. O voltar é sempre assim, saudosista.
A cada cidade que eu deixava para trás, aumentava em mim a vontade de chegar e rever amigos e família. Adormeci mais um pouco, o tempo teimava em passar devagar, enquanto a ansiedade se fazia grande!
Por fim, avistei a cidadezinha pequena do alto da ladeira em formato de S. A placa de “Bem-vindos” a me receber tão alegremente, é só uma placa, eu sei, mas sinto-me feliz cada vez que a vejo. As ruazinhas de calçamento, a praça do centro da cidade. A cidade onde tanto brinquei na infância em nada havia mudado, exceto por uma construção nova aqui e outra ali, tudo efeito da modernização que insiste em modificar as paisagens. Mas nada que não permitisse reconhecer as ruelas por onde cresci.
Pedi parada ao motorista, o momento havia chegado. A fachada da velha casa continuava a mesma. Desci do ônibus. Senti a porta se fechar atrás de mim. O vento úmido e gelado da cidade percorreu meu corpo. Encarei a fachada da casa agora em um tom verde. Um frio na barriga me possuiu. Já fazia algum tempo que eu não visitava mais a antiga cidade onde vivi quando menino. Era estranho voltar depois de tanto tempo. Meu pai e minha mãe sentados na calçada a me esperar. E logo abriram o sorriso e os braços ao me verem descer da condução. É tão bom estar em casa. Abracei-os, pedi a benção e eles me abençoaram com abraços fortes e calorosos e me convidaram a entrar.
Entrei em casa e o cheiro do café logo invadiu meu olfato. Ao chegar no primeiro cômodo, todos aqueles cheiros da infância me invadiram, trazendo consigo as lembranças, o cheiro do bolo de milho, da comida caseira. Foi como viajar no tempo, quando eu acordava no finzinho da tarde e sentia o cheiro vindo da cozinha, enquanto todos conversavam. Diversas vozes me atravessaram. Podia ouvir meu pai a contar como tinha sido a feira daquele dia. Minha mãe a reclamar, por ele ter esquecido o alface. Meus irmãos brigando. Me vi nostálgico. Aquilo me fazia falta. Na sala, a antiga poltrona ainda estava no canto. A TV, como sempre, ligada no jornal do fim da tarde. A árvore de Natal tão bem enfeitada, no velho canto da sala, com suas luzinhas a piscar.
De repente, tomei um susto ao ver meus irmãos pequenos correndo em minha direção. Não pararam, como se não tivessem me visto, mas saíram porta a fora. Eu quis gritá-los, porém, nenhum som saiu de mim. Fui até o meu antigo quarto. Abrigo para tudo o que me fazia mal. Ali, onde eu passava a maior parte do meu tempo na infância, fui tomado por uma saudade. Eu estava ali mesmo? Ou era apenas um devaneio? Ali, tudo também estava como eu havia deixado… os pôsteres das bandas, os poemas pendurados, os livros empilhados na estante… era como voltar no tempo e ser de novo menino. A cama rangeu com o peso de meu corpo e eu logo reconheci aquele barulho, ainda era a mesma cama, tudo permanecia igual e, então, eu ri sozinho, invadido por todas aquelas lembranças guardadas ali. Respirei fundo. Todos os medos da infância me invadiram novamente. Toda a insegurança. A ansiedade. Tudo. Deitei na cama e encarei o teto. Era bom e, ao mesmo tempo, estranho estar ali.
Fui até a cozinha. O cheiro do café ficou mais forte e me aqueceu o coração. Vi meus pais sentados à mesa, conversando algo que eu não pude distinguir o que era. Me olharam, mas não me viram. Eu estava mesmo ali? Eles estavam mesmo ali? Não foram eles que me abençoaram ao descer do ônibus?
As dores de outrora voltaram. As imagens começaram a embaçar. Os sons foram diminuindo e o silêncio começou a tomar conta do ambiente. Os cheiros se dissiparam. O cheiro quente do café deu lugar a um odor úmido e escuro. Escuro. A casa tinha sido tomada por uma escuridão. De repente, a escuridão tomou conta de mim também. Senti como se meu corpo estivesse em queda livre.
Os olhos se negavam a abrir. Senti o calor tomar meu corpo sonolento. Abri os olhos e tudo o que vi foi o teto branco em cima de mim. Virei-me e tudo o que vi foi a cor amarela da parede. Então, entendi onde estava. No meu quarto, não o antigo, mas o do apartamento velho onde habito, localizado na Avenida Frei Serafim. O barulho bom das conversas dos meus pais foi tomado pelas buzinas frenéticas da rua. Olhei o relógio, eram 6:30 da manhã. Levantei da cama ainda com dificuldade. Senti algumas lágrimas correrem meu rosto. Uma solidão tomou meu corpo. E eu entendi. Não tinha viajado, eu não tinha ido até minha casa…

Por: Paulo Narley

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