Minha voz marginal, por Alisson Carvalho

Nasci… Cortado das veias escandalosas da terra.
O barro enlameado, sanguíneo, exalava odores dos vapores vindos das fendas d’outras eras. Cortadas correntes, plantadas sementes, suor embebecendo cada hectare da selva.
Eu não pedi para ser um dos filhos soturnos das crateras.
Ali, cuspido do ventre arregaçado do tempo, gritei enquanto a lâmina enferrujada raspava bruscamente o cordão umbilical. Gritei, tentando me apegar às últimas sobras do passado. Gritei tentando, em vão, gritar! Eu era um feto jogado na vala do tempo, aprendendo a chorar.
Nasci sem nem mesmo saber o que era respirar!
Apregoaram, milimetricamente, pigmentos de uma dor. Cada parafuso entortado penetrando violentamente meus dedos parcos, enquanto multidões riam extasiadas, do sofrimento indolor. Sangrei, ainda infante, tentando engatinhar na brasa fulgurante, aprendendo com o ardor da camada que revestia cada pedaço do meu pensar. Tentei chorar!
Incomodaram-se com meus gemidos, incomodaram-se com os gritos, incomodaram-se com os ruídos. Costuraram meus lábios. Fio imerso no iodo, agulha artesanal, calaram minha voz de maneira surreal.
Rasgados os lábios, agora desforrados, rompi o silêncio impostado. Bebendo a saliva amarga. Garganta seca, puxando das entranhas da goela miligramas de umidade. Inspiro revolta, o corpo se dobra, músculos retorcidos. Percebo, na rubra lama, respingos tintos e descubro entre os espinhos o que é sangrar.
Fluídos deletérios corroendo o céu amarelo e envenenado o solo e os galhos retorcidos enquanto um corpo ermo vaga no lamaçal. Senti arder olhos, braços, ombros, mãos e pés. A força implacável da tempestade ácida me fez ruir e, mesmo queimando, me ergui já danificado.
Avistei, no horizonte, os primeiros raios solares, aprendi o que é o dia. Percebi um corpo, entendi que eu não era <apenas> um substrato de sensações, tinha uma forma, um limite, um invólucro coberto por uma camada chamada epiderme.
Meus olhos desacostumados ao dia, ofuscados pela luminosidade, lacrimejaram. Senti a luz refratada. Eu me via, mas não via nada. Estava sozinho. Diante de mim comecei a notar corpos, estranhos, tudo bem, mas corpos observando-me e julgando-me. Temi, mas eles sussurravam quase em silêncio.
Olhos arregalados, de repente, gritavam “culpado”. Escutei o primeiro som. “Culpado”, repetiram em brados sincronizados. Percebi a diferença, camadas de tintas de barro na pele nos apartavam. Rosnavam sons guturais. Eu vi correntes nas mentes, nos olhos ferozes, nas bocas atrozes. Somos sequelas do nosso tempo, um tempo ornamentado pelo passado repulsivo e ensanguentado. Deixei os fios crespos livres e conheci a expressão de nojo, deixei os fios se encresparem, fechei o corpo para o embate.
Quantos ancestrais eu libertei? Quantas almas nobres eu enfrentei? Quanta luta armada eu me joguei?
Aqui, nesta terra sem lei, uns têm na pele o brasão de um rei; outros, como eu, nasceram na lama, sem fama, totalmente órfãos e sem laços de privilégios. Submerso nesta sopa putrefata, percebo de fora da corte o excesso de pompas, a polidez na fala, uma performance blasé, atitude simulada. Treinados para a oratória, discursam exatamente o que manda o manual. O refluxo me faz libertar um xingamento qualquer, banal. Mais uma voz invisível, insignificante, informal e marginal. Perco-me na lama, eu sou lodo, sombra insana, vulto, algo que nem dá pra ver, fragmentos de vontade com alguma liberdade, um ser espectral.

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Jonathan Dourado

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Rascunhos Líquidos

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1 comment
  1. O começo do conto lembra a tragédia de Brumadinho,local em que o eu lírico poderia ter nascido,inclusive sabendo que seguiria pela vida como escória,como alguém sem vez nem voz,apenas um número de mais uma estatística,a resignação que se espera,é dilacerada pelo brado daquele ser,que mesmo não sendo ouvido,quer causar muito barulho

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