GASTRONOMICAMENTE, UMA METAFÓRICA RAIVA, por VALÉRIA LIMA

Arte: Danilo Grilo Cunha

Aprendi com a minha professora de Yoga e Autoconhecimento, Juliana Fiúza, piauiense, discípula do mestre de vedanta Jonas Masetti, entre outras bases dessa vereda por outros países, que a nossa RAIVA verdadeira deve ser externada. E faz todo o sentido. O indivíduo, por vezes, por não saber lidar com isso dentro de si, termina reprimindo-a, todavia, torna-se “libertador” colocar para fora tudo o que sentimos, pois todas as emoções seriam idealmente reverberadas para algo bom e positivo. Não abordo, porém, a raiva repercutida sem real motivo, e na verdade sempre há uma motivação, mas que seja posta claramente, deixando-lhe confortável ulteriormente, em segurança sobre o que sente (e na realidade sabemos de nossas emoções, pois elas estão em nós. Não vamos aqui, no entanto, filosofar sobre onde está o , e nem tenho essa autoridade).

Em vista disso, acredite você que quero chegar em uma receita. Sim, em uma preparação culinária. E segue o que pode ser chamado do que quiser. Eu a chamarei de “sobremesa da raiva”, mas perceba, é maravilhosa e deleitável. Portanto esteja a postos um bolo caseiro simples do seu sabor preferido, uma significativa quantidade de sorvete, “extras” (chocolates, brigadeiro, doce de leite pastoso, frutas secas, geleia, castanhas, etcetera) e a tal RAIVA. Respira! Entenda aqui a necessidade de não exagerar nessa raiva com coisas muito doces – ou brigadeiro ou doce de leite; os dois se souber dosá-los – ou melhor, exagere sim, desde que não se arrependa depois. Dado isso, até a raiva possui limites, pois não deve repercutir na integridade física (no caso do bolo seria, metaforicamente integridade psicológica, por incrível que pareça). Então, usamos sempre o bom senso e o tino.

A “ludoterapia culinária”, no entanto, inicia-se, destroçando o bolo. Inspire forte pelas narizas e expire devagar pela boca (não deixe esse ar exalar diretamente na comida, por favor – “bichinhos” pretenciosos invisíveis). Destroça, mas não esfarela. Destroça deixando ainda parte da decência da pessoa, digo, pedaços medianos que nos permite sentir a textura, tanto a tátil (língua) quanto a visual (olhos/visão). Atenção, por favor, não estou falando no chamado “bolo no/de pote”, para não ir logo a julgamentos. Não, não! Este tem uma outra propedêutica gustativa. Voltemos. Fracione com as mãos o bolo em partes medianas (não vou mencionar aqui pesagens, mas fique à vontade). Para muitos são bons pedaços. Grandes, ademais.

Então você “destrói” o bolo (com aspas ou sem aspas) e com essa sua ajuda de reverberar essa raiva, efetivamente você ajuda o bolo a refletir, a pensar… pode demorar um tempo médio, mas refletirá certamente, e assim você auxilia este bolo a se recompor. Remonte o acepipe “acimentando-o” com um delicioso sorvete pastoso e consistente (sabor que você quiser – precisa ser bom), dentro de uma fôrma. Note, esse utensílio é sua mente, sua reflexão. E então dentro de uma fôrma limpa de anel (furo no centro) ou de bolo inglês, você tenta unir todas as partes daquele todo com sorvete, guloseimas e extras. Após, o prazo reflexivo no freezer ou congelador (gastronomicamente três horas, vai) para reafirmar o gelado – um consolidador frio e quentinho  ao mesmo tempo  – e estabelecer uma união, até que ele se redime por meio de uma inefável sobremesa, feita de maneira muito prática, porém carecendo um conhecimento. Isso mesmo. Minha mestra disse, em uma oportunidade, na aula de Filosofia da Yoga, sobre as qualidades dos problemas, e a endosso complementando que estamos de frente a um problema legítimo e um ilegítimo, sincronicamente. Aquele por ser uma prática, uma ação que gerará na solução, e o segundo por requerer um conhecimento. Este conhecimento está dentro de você. Certamente ouviu falar em Autoconhecimento (com A maiúsculo mesmo, licença). Bem mais que isso você se beneficiará com melhor explicação imergindo nas aulas da mestra, com o melhor que ela tem a oferecer, e eu ratifico com muita satisfação por ser aluna de @jufiuzas (permita-se a conexão). Estrategicamente, não tive intenção de merchandising, mas simplesmente fluiu ao redigir o presente texto, para algo útil às pessoas, pelo amor às pessoas, seja presenteando com este IG (você entenderá), seja oferecendo uma receita que pode ser interessante. Tenho a convicção de que a metáfora se torna oportuna até pelo momento o qual estamos vivendo, de forma que o texto foi escrito em poucos minutos com essa inspiração: o amor pela Gastronomia e o amor que estou sentindo por fazer parte da Yoga tradicional. Namastê!

Ah, tire uns dez minutos antes para respirar, digo, para desprender melhor da fôrma sobre um prato, assim como deixar na textura ideal para consumo (várias texturas contra a monotonicidade) e, por fim, deixá-la esteticamente convidativa com mais sorvete por cima, frutas secas, geleia total ou o que você tiver a oferecer (o que você tem a oferecer?). Não reprima suas emoções. Faça a sobremesa e me conta se gostou.

Valéria Lima | 13.05.2020

@valerialimacoz

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2 comentários
  1. Depois desse texto incrível e nescessário, certamente o modo de de se fazer comida não será a mesma.
    Comida tbm é paz e paz é comida.

    1. Bom ler seu comentário. Não recebo notificação, e somente agora vi. Que bom que gostou do texto. Fazer comida é ser quem você é.😊

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