Não Te Deixam Enlouquecer – por Diego Santos

Despedaçado, por Tom Fedro – Fidostudio

É doido, é paradoxal por essência o movimento de ajustamento social, porque ao ritmo em que a gente tá equalizado com os compassos da vida coletiva, estamos também descompassados. Porém, minha intenção aqui não é fazer/refazer os cansativos trampos de compreender e explicar o porquê de sermos esse monstro gregário engolidor de sonhos individuais, devorador de maneiras ímpares de existir, onívoro das maluquices ultra pessoais etc.

Destoar é o que fazemos por subversão, quando o usual já não corresponde às nossas necessidades (quem tá na base da pirâmide social vai sakar bem o que isto quer dizer) e por diversão também, tipo quando o convencional entedia, pode crê? Fazemos arte, filosofamos, fazemos ciências, fazemos política, mudamos o mundo, começamos e finalizamos relacionamentos promissores, gravamos IGTV, stories, tudo em nome da fuga de alguma norma, sejam as motivações altruístas ou mesquinhas (o que não vai dá pra diferenciar sempre, né não?).

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (2009) diria que a imoralidade é a nossa natureza e que a moralidade é a verdadeira amoralidade (bugou?). Pois é, tá cheio de “porra loka” querendo virar a lógica de todas ou de algumas coisas de cabeça pra baixo, algumas/alguns conseguindo relativamente. O que faz a gente, às vezes, buscar grandes personalidades e grandes marcos para enfim transgredirmos as normas. Mas é justamente sobre isto que Nietzsche ficava “p” da vida… Ele diria mais ou menos assim: vamo parar de buscar salvadoras/salvadores, diferentões/diferentonas que reordenem esse auê “organizado” que tá aí e vamo, cada um, se virar pra ser “super-humano” por conta e risco (mais risco que conta)?

Nietzsche (2017), o filósofo do martelo, ainda em sua juventude, ensaiou análises sobre a tragédia grega, mostrando como os personagens Dioniso e Apolo, o que “mete o loko” e o que “segura a onda”, de modo respectivo, dizem muito sobre nossas oscilações entre o transe e a lucidez, entre o coletivo e o individual. O que seria Dioniso, deus grego do vinho, do sexo, da multidão, dos exageros, das músicas percussivas, senão a gente quando quer fugir do nosso Apolo, deus da solidão, retidão, introspecção, austeridade, das músicas harmônicas, da contensão, e vice-versa?

Mas borá lá, o texto não é sobre o bigodudo alemão contraditório, revolucionário e reacionário ao mesmo tempo, e nem necessariamente sobre mitologia grega. E acredito que a gente nem precise importar sempre as ideias lá da Europa pra se compreender, né não? Por exemplo, um Dois Irmãos, literatura manauara, representaria melhor as tendências dionisíacas e apolíneas através de Omar e Yaqube, gêmeos que, nos dias e noites quentes do Norte brasileiro, melhor ilustrariam, necessariamente nesta ordem, o extravagante e o contido em nós, mas de maneiras profundamente latinizadas.

Estigma social: uma forte desaprovação de características ou crenças pessoais, que vão contra normas culturais. Estigmas sociais frequentemente levam à marginalização. Para a Sociologia, num sentido contemporâneo, o estigma também pode ser conceituado como uma marca objetiva que recebe uma valoração social negativa (Wikipédia na maior aí!).

Este rolê conceitual todo pra entender que independentemente da gente “pegar a contramão de uma via”, vai acontecer, conjecturalmente, de duas coisas, uma: a) vão te tacar uma multa por tu tá atrapalhando o trânsito; ou b) vão criar uma via de mão dupla pra tu não ser mais o/a/e excepcional que contorna as regras.

Tá, Diego, mas e a moral da história? Então, resultado de algumas introspecções em alguns dos meus ócios quase produtivos, de algumas das minhas raras saídas nas noites quase movimentadas de Teresina, das visitas a amigues e considerando umas coisinhas que andei lendo, cheguei a algumas percepções inconclusivas (porque só presta se for interminável) de que, por mais peculiar e/ou transgressora que pareça alguma conduta pessoal, os grupos – até os mais progressistas e revolucionários – irão te enquadrar de algum modo nos padrões deles. Tipo as noites nos bares alternativos da cidade, que exigem de ti, principalmente se tu não tiver muito habituado àqueles cenários, certo comportamento em comum com os que “destoam” no cotidiano “normal”, mas que ali, nos lugares dos distintos, monopolizam os espaços e são a NORMALIDADE.

Mas calma! Não tô aqui pra bancar o reacionário, tampouco o mais cabuloso refratário. Ponho-me mesmo é como “a vara que cutuca a onça”. Nada da rebeldia sem causa adolescente – tipo aquela que fazia a gente querer ter franja sobre os olhos entre os anos de 2008 e 2013 -. É um papo de crianças crescidas mesmo. Uma carta escancarada a adultos(as/es) ainda deslocadas(os/es) e preocupadas(os/es) em como vai ser daqui pra frente. Em como irão se pondo nesse – ou se opondo a esse – mundo que se apresenta diante de nós.

Se liga:

Não é provavelmente um mero acidente histórico que a palavra “pessoa”, em sua acepção primeira, queira dizer máscara. Mas, antes, o reconhecimento do fato de que todo homem está sempre e em todo lugar, mais ou menos conscientemente, representando um papel […] É nesses papéis que nos conhecemos a nós mesmos.

Em certo sentido, e na medida em que esta máscara representa a concepção que formamos de nós mesmos – o papel que nos esforçamos por chegar a viver -, esta máscara é o nosso mais verdadeiro eu, aquilo que gostaríamos de ser […] (PARK apud GOFFMAN, 2014, p.31).

Quem pontuou isso aí foi um sociólogo massa lá da terra dos ianques, Erving Goffman, sugerindo que a sociedade é uma espécie de teatro, ora estamos no palco, ora estamos na plateia: observadores e observados; reguladores e regulados. Então, no mais, pra gente poder tomar um fôlego diante desse naufrágio intrapessoal aqui, no qual enfiei a gente, e diante da vigilância que os grupos – até os da galera que é fechamento, bota fé? – exercem sobre nós, espero que possamos internalizar cada vez mais que dá pra mover estruturas – ou só dar uma “diferenciada”, se for o caso – mesmo a vida cobrando da gente uma uniformidade praticamente impossível. Dá pra ser original mesmo sendo pirataria quase sempre, tá lgd?

Referência Bibliográfica

GOFFMAN, Erving. A Representação do Eu na Vida Cotidiana; tradução de Maria Célia Santos Raposo. 20. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

HATOUM, Milton. Dois Irmãos. – São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1988.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm, 1844-1900. Além do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do futuro; tradução e notas de Renato Zwick; apresentação e cronologia de Marcelo Backes. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

NETO, João Evangelista Tude de Melo. – 10 lições sobre Nietzsche. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. – (Coleção 10 Lições).

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