Exposição virtual em homenagem ao artista piauiense Júlio Romão organizada pela Casa Barro

O artista completaria 103 anos este ano; exposição de artes visuais contou com participação de 17 artistas conterrâneos.

Se ainda estivesse vivo, o multi artista Júlio Romão estaria completando 103 anos no último 22 de maio. Desde então, o espaço cultural Casa Barro, que desde 2018 funciona no mesmo lugar onde Júlio já morou, tem contado através do seu perfil no Instagram (@casabarroo) sobre a história do piauiense. A homenagem ganhou uma exposição virtual coletiva de artes visuais que foi até o dia 02 de junho. Foram apresentados, ao todo, o trabalho de 17 artistas piauienses que toparam o desafio de representar, dentro das mais diversas técnicas e particularidades, suas releituras sobre a figura, vida e legado do artista.

O nome de Júlio é um dos nomes dos tantos artistas que deixaram Teresina na juventude em busca de melhores oportunidades de formação. Negro e de origem humilde, em um período ainda mais hostil para o acesso à educação, sai em retirada em busca de conhecimento e experiências. Em todos os lugares por onde passou e em todas as áreas dos saberes nas quais se dedicou, Júlio contribuiu com engajamento político sensível.

Poeta, escritor, jornalista, crítico literário, etnógrafo e teatrólogo, suas obras e peças alcançaram reconhecimento a nível de Brasil e de mundo. Docente, contribuiu cientificamente e recebeu títulos, homenagens e prêmios por suas pesquisas. Ativista de organizações em defesa da cidadania do negro, foi um dos pioneiros na luta pela igualdade racial no Brasil e um dos ideólogos do chamado Movimento da Negritude Brasileira. Sua produção intelectual extensa foi substanciada por sua consciência política. Além do engajamento nas questões relacionadas ao seu grupo, Júlio também trouxe grande contribuição para a valorização dos povos originários através de suas pesquisas linguísticas. Apesar da brilhante trajetória em Teresina, sua cidade natal, após a sua morte, em 2013, timidamente se ouve falar de Júlio Romão.

A exposição é gerada com a principal motivação de fortalecer a memória do nome, figura e legado de Júlio. Mas, além da homenagem ao artista, a proposta também veio como tentativa de dissolver distâncias entre as pessoas, fomentar encontros possíveis e ajudar a nutrir seus dias com arte, numa perspectiva que articula desde a equipe que trabalha junto, aos artistas que participam e o público.

A Curadoria da Exposição é composta por um grupo de artistas que criou um coletivo temporário para assumir a frente do trabalho de expografia, tornando o processo diversificado e partilhado entre essas pessoas.

“Nossa cultura teresinense/piauiense é riquíssima de bons artistas, que tem dado muitos frutos, tanto em conteúdo artístico quanto em pesquisas conceituais sobre o próprio fazer artístico. Portanto, criar um coletivo que discuta e pratique curadoria em momentos de isolamento social é desenvolver potencialidades outras além da criação estética, é fortalecer o discurso sobre arte contemporânea e também discutir como lidaremos com esse mundo que se apresenta tão dinâmico, cotidianamente em mutação e em grande salto histórico atual, que tem causado transformações em todas camadas sociais, nos fazendo repensar a sociedade e seus sistemas. Arte também é comunicação, e através da Exposição, a Curadoria deseja discutir não somente arte, mas também sociedade em tempos de crises de saúde, social e econômica.”, afirma Narciso Rosário, articulador da curadoria, artista participante da exposição e tatuador da Casa.

Nesse sentido, a ação atua como compromisso artístico e político, e também dialoga em abrangência macro com o cenário cultural que tem se fortalecido através da conexão virtual que vigora nesse momento pandêmico, como explica Renata Fortes, produtora da exposição e coordenadora de comunicação da Casa Barro:

“O contexto de crise humana e social tem proporcionado maior percepção e compreensão a respeito do papel da cultura dentro da vida das pessoas. Enquanto o tempo, os ritmos de vida, os comportamentos, as crenças sobre as estruturas e tantas outras antigas certezas caem por terra, é a arte que resiste e se destaca. O acesso às suas infinitas possibilidades tem aberto refúgios para esses dias difíceis. Torna-se cada vez mais evidente que cultura está associada ao bem-estar, e que é um lugar de coesão social, pois situa o indivíduo no mundo, gera pertencimento, aproxima do coletivo. A meu ver, o momento parece representar um grande marco para o reposicionamento da cultura na sociedade. O setor tem alcançado outros níveis de articulação, as fragilidades que o envolvem também estão sendo mais expostas e discutidas”.


Outro fator relevante que também trouxe urgência para a realização da exposição foi a compreensão de que a classe artística é uma das mais afetadas com a pandemia, então a iniciativa é também uma tentativa de viabilizar alternativa de renda para os participantes, já que as obras da galeria virtual estarão disponíveis para a venda e a exposição gera visibilidade.

A exposição virtual Júlio Romão está disponível nos destaques do perfil da Casa Barro no Instagram: @casabarroo.

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