CID D50

Eu não sei o que significa essa sigla de merda. Só fui ao médico de atrevimento. Queria desafiar o Antônio Francisco. Depois de me chamar de doida e dizer que eu precisava me tratar, eu tinha que esfregar na cara dele que eu não era nem uma coisa nem outra.

Onde já se viu? Achar que pode me controlar desse jeito? Dizer como devo me comportar, o que eu posso falar, como me vestir? Desci o sarrafo nele. Desci mesmo. Porque na minha vida quem manda sou eu. Posso não ter muito estudo, mas sei quando um macho se acha melhor do que eu, conheço bem quando um deles acha que pode mandar em mim. O mundo está cheio deles. Ficam por aí só esperando a oportunidade de escanchar na gente. Se escanchar mesmo, de todo jeito que eles conseguirem.

Fui lá na casa dele. Não estava. Fui ao trabalho. Ficou com raiva. Aí eu disse assim:

Quer dizer, bonito, que tu pode me atrapalhar no meu serviço, me deixar zonza do juízo, né? Dizer por onde eu posso e onde eu não posso andar, criando ideia ruim na minha cabeça, fazendo eu ter medo de todo mundo que passar por mim? Tu pode escolher as roupas que eu visto e, pior, ainda me fazer acreditar que é para o meu bem? Tu pode escolher com quem eu ando e ainda se acha sabido o suficiente para fazer eu entender que essas pessoas não são boas para mim? Rum, agora eu vi mesmo.

É gente que está comigo para mais de ano e tu vem me falar que elas não prestam.

Elas não prestam… Quem não presta é tu, coisa ruim. Fazendo eu perder minha vida, deixando de andar com minhas colegas por causa das besteiras que tu fala. Eu não sou tapete para tu pisar em cima, Antônio Francisco. Tu achava o quê? Que ia me segurar na rédea curta, feito bicho brabo? Eu não sou bicho Antônio Francisco, eu sou gente.

Tu pensa que eu não ficava desenxabida quando tu ficava dizendo que eu não valia nada? Tu acha que só porque era no meio de uma discussão podia dizer qualquer coisa? Não podia tomar uma cerveja a mais que vinha cheio de macheza para o meu lado.

Eu não quero saber se os teus colegas estão ouvindo. Não estou nem aí que teu chefe pode te despedir. Quero é esfregar isso aqui na tua cara.

Ah, não sabe o que é? Pois eu te digo. Esse papel aqui é a prova de que eu não sou perturbada que nem tu disse no outro dia. Não sou. Está aqui. Eu fui ao médico e contei para ele que tu vivia me chamando de Maria Doida, que tu só me quebrava de vagabunda espirocada, quenga do parafuso solto, rapariga do juízo mole, boceta sem cabeça, cérebro de azeitona, burra, ordinária sem diploma. Contei tudo. Eu disse para ele que tu falou tanto essas coisas que eu já estava achando que era verdade. Só podia ser, para ficar aguentando tanto destrato de com um miserável sem precedência feito tu. Não tem um pau para dar num gato, mas se acha muita coisa.

Não sei de onde é que tu tira essas ideias. Um cabra que acha que é homem só porque carrega uma penca entre as pernas. Pois eu vou te dizer, Antônio Francisco: tu não é homem como tu pensa. O doutor me falou. Ele me disse que homem de verdade não trata mulher desse jeito, e que meu problema é tu.

Mas eu insisti. Pedi para ele um exame para te provar que não sou doida. Queria um papel para rebolar na tua cara e te mostrar que eu não sou peidada como tu diz. E não adianta achar ruim. Está aí. Faz o que tu quiser com esse papel, tirei uma cópia para mim.

Tem alguma história para partilhar comigo? Eu vou adorar saber. Sobre qualquer assunto, os felizes e tristes, de famílias, amantes, amigos, festas, morte, paixão ou doença. Tudo vale. Posso garantir uma escuta atenta e forte.

Email: deniseverasletras@gmail.com

Instagram: @deniseveras1

Ilustração:  Anemia”. Disponível para uso gratuito em: https://www.istockphoto.com/br/foto/anemia-gm469898777-34595156?utm_campaign=srp_photos_limitedresults&utm_content=https%3A%2F%2Fwww.pexels.com%2Fprocurar%2Fanemia%2F%3Forientation%3Dlandscape&utm_medium=affiliate&utm_source=pexels&utm_term=anemia

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