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Balada literária: a festa nômade que redesenha o nordeste entrelinhas

Arquivo pessoal / Adriano Lobão Aragão

Teresina vive sob um sol implacável, um calor que amolece a moleira e parece diluir o tempo. É exatamente neste cenário impregnado de verbos irregulares e brisas preguiçosas que a literatura encontra seu abrigo e sua expressão mais viva, rompendo as fissuras no concreto. A cidade, acostumada ao compasso lento das tardes quentes, se cobre de luz e ritmos, versos e sorrisos quando a Balada Literária aporta anualmente ao simbólico Memorial Esperança Garcia. Idealizada pelo escritor e editor pernambucano Marcelino Freire, a festa nômade consolida-se, ano após ano, como um organismo cultural pulsante, que percorre diferentes territórios, ganhando legitimidade. Em sua edição de 2025, a festa brilhou ao homenagear o artista oeirense Emerson Boy, cuja obra transcende as fronteiras entre som, palavra e memória. O evento, que vai além da concepção tradicional de um festival, configura-se como um acontecimento cultural de grande ressonância. Nele, o erudito e o popular se fundem como as águas do Parnaíba e do Poti: sem filtros ou hierarquias.

Originada em 2006 na região metropolitana de São Paulo, mantém sua narrativa contínua como um raio de luz na escuridão, desafiando até mesmo o silêncio imposto pela pandemia. Com o mundo se recolhendo, a poesia, que antes estava restrita a palcos e recitais presenciais, despediu-se de seus sapatos elegantes e abraçou o ambiente digital. À época, adaptou-se temporariamente às telas sem perder o calor do encontro, comprovando que a literatura pode surgir do concreto tanto de maneira literal quanto metafórica. Longe da seriedade das academias, a Balada se define por sua natureza oposta. É mesa-redonda seguida de samba, é lançamento de livro que rima com show musical, é a performance poética que se embrenha pelo debate político e social. Mais do que um manifesto, tornou-se um ponto de convergência onde vozes diversas transformam a paisagem urbana em um corpo sonoro. Nesse território de encontros, o que se celebra, acima de tudo, é a palavra em estado de festa. Reafirmando-se como mecanismo de resistência.

Arquivo pessoal / Wellington Soares

Inspirada na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e enraizada nas ruas da Vila Madalena, bairro onde seu criador reside há mais de trinta anos. A Balada Literária não se limita a ser um evento. Constitui-se como um organismo que migra, se adapta e floresce em novos solos. Trata-se de uma rebelião afetuosa e necessária contra a mesmice do cotidiano, um movimento que retira a literatura dos confins empoeirados das estantes para insuflá-la na pulsação viva da noite. Sua primeira grande migração ecoou nos tambores de Salvador em 2015, anunciando um propósito audacioso: descentralizar. Elencada como passo inaugural de um movimento que carrega a palavra para praças, bares e corações, a escolha da capital baiana não foi aleatória. Salvador se ergue como um centro cultural e artístico de renome nacional, portadora de uma herança literária e musical que dialoga profundamente com o espírito transgressor e celebrativo do evento. A chegada ao histórico Pelourinho simbolizou um marco fundamental na expansão da cena literária brasileira, desarticulando o epicentro cultural para além do tradicional eixo Rio-São Paulo.

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Sob a direção visionária de seu criador, reconhecido como cidadão honorário piauiense, a chegada a Teresina em 2017 suplantou uma mera decisão estratégica. Foi, sobretudo, uma declaração de amor à cidade verde. Um destino traçado com a convicção de quem sabe que certas histórias precisam de um solo específico para florescer. Com seu olhar generoso e à frente do tempo, Marcelino Freire reconheceu em Wellington Soares, professor, escritor e agitador cultural. O curador ideal para uma missão singular: costurar um evento literário ao corpo único do Piauí. Juntos, imprimiram à iniciativa o sal da resistência e o sol abrasador da criação local, resultando em uma iniciativa enraizada na identidade piauiense. Seu lançamento significou, portanto, mais do que um investimento. Tornou-se um compromisso ético e estético, um pacto firmado para escrever, em conjunto, um capítulo próspero e duradouro na cena cultural do Piauí. E a chama, uma vez acesa, recusou-se a se apagar. Em 2022, um novo e inspirador capítulo se inaugurou: a proposta expandiu-se organicamente. Recife, cidade natal de Freire, foi quem a abraçou em outra geografia, para logo depois testemunhar sua reverberação pelo interior cearense, onde iluminou de forma singular a cidade de Crato. Ao se deslocar, o evento promove uma disseminação profunda de ecossistemas culturais. Sua estrutura adaptável, que se molda sem perder a essência, comprova a viabilidade de modelos culturais radicalmente descentralizados e verdadeiramente inclusivos.

Arquivo pessoal / Wellington Soares

Em entrevista à Geleia Total, o escritor Wellington Soares revisitou a origem da Balada Literária. Segundo ele, a proposta original concebia uma junção de todas as manifestações artísticas e de gêneros em um único evento. “A origem do nome Balada, que remete ao binômio música e festa, já diz tudo do nosso evento”. O intuito é congregar diversas artes e pessoas em uma experiência coletiva, descrita como um “grande êxtase cultural-orgástico”, celebrando a diversidade em sua acepção mais ampla. “Nosso objetivo é despertar nas pessoas, hoje e sempre, o gosto pela leitura e o apreço pela cultura em geral”, destacou. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e professor de linguagens, Soares iniciou sua trajetória literária em 1991 com a obra “Linguagem dos sentidos”. Como coordenador local, ao lado do idealizador Marcelino Freire, defende um objetivo central: reposicionar a palavra escrita no espaço público. A iniciativa busca transformar a literatura em um ambiente vivo de diálogo comunitário, acessível e dinâmico. “Por isso, dedicamos especial atenção aos jovens”, ressaltou o professor, sublinhando o compromisso com a formação de novas gerações de leitores e criadores. Nesta edição, a homenagem ao artista oeirense Emerson Boy imprime tal conceito. Emerson, que transita entre a música, a literatura e a performance com a naturalidade de quem caminha pela Praça Pedro II, personifica o espírito da Balada. Ao celebrar um filho de Oeiras, o evento conecta o Piauí das tradições religiosas e do som da rabeca com a pulsação urbana e experimental de Teresina. Para o público, ver um artista da terra ser alçado ao centro do palco, com a mesma reverência dedicada aos grandes nomes nacionais, quebra o “complexo de vira-lata” e mostra que a nossa estética é universal.

Portanto, a Balada Literária funciona como uma ponte levadiça sobre o abismo que muitas vezes separa o autor do leitor. Ao dividir a mesa com figuras consagradas, o autor piauiense deixa de ser “regional” para ser lido como parte da literatura brasileira contemporânea. Thiago E., poeta e músico e voz ativa nesse processo, analisa com precisão os mecanismos que impulsionam a cena cultural contemporânea a partir do efeito multiplicador dessas iniciativas. Ele ressalta que o movimento em torno da literatura e da poesia estimula parte do público a também escrever e publicar.

“Alguém que era espectador em uma edição do evento pode, em outro ano, estar lançando seu próprio trabalho e apresentando seus textos”, observa.

Em outras palavras, a fala do artista destaca como a cultura se retroalimenta, uma vez que o público de hoje pode se tornar o artista de amanhã, e o diálogo direto enriquece todos os envolvidos. Tal modelo, fundamentado na troca e na acessibilidade, fortalece as redes de produção e difusão, sobretudo em regiões fora dos grandes centros tradicionais. Thiago também frisou que “autores, autoras e artistas de outros estados se tornam bastante acessíveis para quem deseja conversar, esclarecer dúvidas ou trocar ideias, proporcionando momentos de diálogo extremamente enriquecedores”. Assim, evidencia-se o papel social dos eventos culturais como plataformas de formação, visibilidade e renovação contínua da cena artística nacional.

“Devo louvar e agradecer o esforço e o trabalho do professor Wellington Soares, que há quase dez anos produz a Balada Literária em Teresina com tanto entusiasmo, valorizando especialmente a produção literária piauiense. Uma produção que não se limita ao livro, mas abrange também revistas, discos e outros suportes.”

Perceber a literatura além das apostilas, ganhando vida em saraus e discussões intensas, transforma o livro de objeto de estudo em objeto de desejo. É o despertar de novos narradores. O magnetismo opera na mobilização de um ecossistema completo: livreiros tornam-se sacerdotes, donos de bar viram anfitriões de debates, e os sebos, relicários de histórias. Sob o mesmo céu estrelado, reúne autores e autoras de todos os gêneros em um autêntico parlamento das letras. De acordo com o agitador Wellington Soares, a escolha do homenageado, quase sempre piauiense, é o primeiro aspecto marcante. Outro é o local de realização do evento, o Memorial Esperança Garcia, que homenageia a primeira advogada negra do Piauí e do Brasil. Somam-se a isso os temas e palestrantes das conversas, os lançamentos de livros e as apresentações artísticas. “Tudo regado, bom destacar, aos nossos temperos locais: cajuína, maria-isabel, carne de sol, calor físico e humano, cerveja gelada e, sobretudo, à hospitalidade que nos caracteriza”, completou.

Por muito tempo, o Piauí foi visto pelo resto do Brasil sob uma ótica que enfatizava suas carências. A Balada Literária, inverteu essa lógica. O evento obriga o chamado “eixo nacional” a olhar para o Norte e o Nordeste não como expressões folclóricas, entretanto como polos de vanguarda. Autor de “Os gatos quando os dias passam” e “Cabeça de sol em cima do trem”, além de um dos organizadores do livro “O poema é o bicho” ao lado de Marleide Lins e Adriano Lobão Aragão, Thiago afirmou que a realização da Balada Literária em Teresina sempre o deixa contente. Conforme o poeta e músico, o evento envolve o esforço de muitas pessoas para sua concretização e gera diversos desdobramentos positivos. Dezenas de estudantes participam, assistem a palestras, apresentações musicais e performances poéticas. Eles se divertem, ampliam seus conhecimentos, adquirem novas perspectivas, enriquecem seu repertório de questionamentos e são estimulados a produzir suas próprias criações.

“Quando há investimento público em eventos literários, musicais e afins. O público se conscientiza mais da importância das artes em suas vidas, a economia é fortalecida, mais dinheiro circula na mão das pessoas. Imagine quantas pessoas trabalham e garantem seu sustento por meio de eventos literários. Assim, se instala um ambiente cultural em que mais pessoas querem fazer parte dessa produção coletiva”, destacou Thiago.

Arquivo pessoal / Wellington Soares

De fato, Teresina não se destaca como um ponto no mapa, mas luz de si mesmo. O Piauí contemporâneo redefine seu papel no panorama cultural brasileiro, transgredindo a condição de simples expectador para assumir as rédeas da narrativa da própria história. Por meio de artistas como Emerson Boy, constrói-se uma autorrepresentação diversificada. Na qual a pluralidade não é um tema, contudo um princípio estruturante. Tal modelo exalta a potência de Torquato Neto, a poesia de Miró da Muribeca e a resiliência vibrante do Nordeste. É o espaço singular onde o acadêmico compartilha o microfone com o poeta do sarau, e onde a prosa densa dialoga com a batida ancestral do tambor. É importante reconhecer: nossa cultura merece e ocupa seu lugar de destaque no mesmo circuito nacional que São Paulo e Salvador. Para Wellington, a gratuidade das atividades já garante, em certa medida, a acessibilidade de todos ao evento.

“Essa tem sido uma preocupação constante, inclusive na escolha dos locais e dos responsáveis pela Balada nas cidades: São Paulo (Marcelino Freire), Salvador (Nelson Maca), Recife (Auríbio Farias) e Teresina. Ainda há problemas a superar, mas estamos trabalhando para corrigi-los. Em Teresina, avançamos bastante com a reforma do Memorial Esperança Garcia, especialmente em relação à acessibilidade para pessoas com deficiência”, apontou.

Das terras rubras às caatingas, a literatura piauiense brota de cores vivas e contrastes fortes. Mais do que um retrato geográfico, é um mergulho profundo nos modos de ser: nas tradições, no folclore e na alma social de seu povo. Veste-se, com orgulho, da sonoridade ímpar de um subdialeto nordestino, transformando a fala cotidiana em matéria-prima de arte. É uma voz que, desde o século XIX, ressoa na busca por uma identidade singular, um fenômeno que se delineia com clareza na evolução de suas obras. Sem perder a conexão com os grandes movimentos literários do Brasil e do mundo, reinventa-se constantemente, galgando obstáculos para integrar-se, em pé de igualdade, ao cenário nacional. Nesse pulsar, a Balada Literária em Teresina, assim como suas edições em outras capitais, atua como um impulso que permite à literatura piauiense reafirmar sua identidade, oferecendo um espaço essencial para a troca de ideias e a expressão artística. Em 2026, a Balada Teresina completará uma década de inquietações culturais e rebeldias políticas. Suas homenagens tecem essa história viva: de Kilito Trindade a Soraya Castello Branco, artistas que moldam o contemporâneo com as mãos no barro e os olhos no futuro. A edição paulistana, ao reverenciar o quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, amplia os horizontes desse diálogo, mostrando que as raízes piauienses conversam com as lutas universais. Assim, feita do barro áspero e dos sonhos mais verdes de seu solo, nossas literatura segue escrevendo sua própria e potente lenda. Uma lenda em cores vivas, onde cada palavra é um ato de resistência e cada história, um novo broto na aridez.

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