Teresina vive sob um sol implacável, um calor que amolece a moleira e parece diluir o tempo. É exatamente neste cenário impregnado de verbos irregulares e brisas preguiçosas que a literatura encontra seu abrigo e sua expressão mais viva, rompendo as fissuras no concreto. A cidade, acostumada ao compasso lento das tardes quentes, se cobre de luz e ritmos, versos e sorrisos quando a Balada Literária aporta anualmente ao simbólico Memorial Esperança Garcia. Idealizada pelo escritor e editor pernambucano Marcelino Freire, a festa nômade consolida-se, ano após ano, como um organismo cultural pulsante, que percorre diferentes territórios, ganhando legitimidade. Em sua edição de 2025, a festa brilhou ao homenagear o artista oeirense Emerson Boy, cuja obra transcende as fronteiras entre som, palavra e memória. O evento, que vai além da concepção tradicional de um festival, configura-se como um acontecimento cultural de grande ressonância. Nele, o erudito e o popular se fundem como as águas do Parnaíba e do Poti: sem filtros ou hierarquias.
Originada em 2006 na região metropolitana de São Paulo, mantém sua narrativa contínua como um raio de luz na escuridão, desafiando até mesmo o silêncio imposto pela pandemia. Com o mundo se recolhendo, a poesia, que antes estava restrita a palcos e recitais presenciais, despediu-se de seus sapatos elegantes e abraçou o ambiente digital. À época, adaptou-se temporariamente às telas sem perder o calor do encontro, comprovando que a literatura pode surgir do concreto tanto de maneira literal quanto metafórica. Longe da seriedade das academias, a Balada se define por sua natureza oposta. É mesa-redonda seguida de samba, é lançamento de livro que rima com show musical, é a performance poética que se embrenha pelo debate político e social. Mais do que um manifesto, tornou-se um ponto de convergência onde vozes diversas transformam a paisagem urbana em um corpo sonoro. Nesse território de encontros, o que se celebra, acima de tudo, é a palavra em estado de festa. Reafirmando-se como mecanismo de resistência.

Inspirada na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e enraizada nas ruas da Vila Madalena, bairro onde seu criador reside há mais de trinta anos. A Balada Literária não se limita a ser um evento. Constitui-se como um organismo que migra, se adapta e floresce em novos solos. Trata-se de uma rebelião afetuosa e necessária contra a mesmice do cotidiano, um movimento que retira a literatura dos confins empoeirados das estantes para insuflá-la na pulsação viva da noite. Sua primeira grande migração ecoou nos tambores de Salvador em 2015, anunciando um propósito audacioso: descentralizar. Elencada como passo inaugural de um movimento que carrega a palavra para praças, bares e corações, a escolha da capital baiana não foi aleatória. Salvador se ergue como um centro cultural e artístico de renome nacional, portadora de uma herança literária e musical que dialoga profundamente com o espírito transgressor e celebrativo do evento. A chegada ao histórico Pelourinho simbolizou um marco fundamental na expansão da cena literária brasileira, desarticulando o epicentro cultural para além do tradicional eixo Rio-São Paulo.
Sob a direção visionária de seu criador, reconhecido como cidadão honorário piauiense, a chegada a Teresina em 2017 suplantou uma mera decisão estratégica. Foi, sobretudo, uma declaração de amor à cidade verde. Um destino traçado com a convicção de quem sabe que certas histórias precisam de um solo específico para florescer. Com seu olhar generoso e à frente do tempo, Marcelino Freire reconheceu em Wellington Soares, professor, escritor e agitador cultural. O curador ideal para uma missão singular: costurar um evento literário ao corpo único do Piauí. Juntos, imprimiram à iniciativa o sal da resistência e o sol abrasador da criação local, resultando em uma iniciativa enraizada na identidade piauiense. Seu lançamento significou, portanto, mais do que um investimento. Tornou-se um compromisso ético e estético, um pacto firmado para escrever, em conjunto, um capítulo próspero e duradouro na cena cultural do Piauí. E a chama, uma vez acesa, recusou-se a se apagar. Em 2022, um novo e inspirador capítulo se inaugurou: a proposta expandiu-se organicamente. Recife, cidade natal de Freire, foi quem a abraçou em outra geografia, para logo depois testemunhar sua reverberação pelo interior cearense, onde iluminou de forma singular a cidade de Crato. Ao se deslocar, o evento promove uma disseminação profunda de ecossistemas culturais. Sua estrutura adaptável, que se molda sem perder a essência, comprova a viabilidade de modelos culturais radicalmente descentralizados e verdadeiramente inclusivos.

Em entrevista à Geleia Total, o escritor Wellington Soares revisitou a origem da Balada Literária. Segundo ele, a proposta original concebia uma junção de todas as manifestações artísticas e de gêneros em um único evento. “A origem do nome Balada, que remete ao binômio música e festa, já diz tudo do nosso evento”. O intuito é congregar diversas artes e pessoas em uma experiência coletiva, descrita como um “grande êxtase cultural-orgástico”, celebrando a diversidade em sua acepção mais ampla. “Nosso objetivo é despertar nas pessoas, hoje e sempre, o gosto pela leitura e o apreço pela cultura em geral”, destacou. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e professor de linguagens, Soares iniciou sua trajetória literária em 1991 com a obra “Linguagem dos sentidos”. Como coordenador local, ao lado do idealizador Marcelino Freire, defende um objetivo central: reposicionar a palavra escrita no espaço público. A iniciativa busca transformar a literatura em um ambiente vivo de diálogo comunitário, acessível e dinâmico. “Por isso, dedicamos especial atenção aos jovens”, ressaltou o professor, sublinhando o compromisso com a formação de novas gerações de leitores e criadores. Nesta edição, a homenagem ao artista oeirense Emerson Boy imprime tal conceito. Emerson, que transita entre a música, a literatura e a performance com a naturalidade de quem caminha pela Praça Pedro II, personifica o espírito da Balada. Ao celebrar um filho de Oeiras, o evento conecta o Piauí das tradições religiosas e do som da rabeca com a pulsação urbana e experimental de Teresina. Para o público, ver um artista da terra ser alçado ao centro do palco, com a mesma reverência dedicada aos grandes nomes nacionais, quebra o “complexo de vira-lata” e mostra que a nossa estética é universal.
Portanto, a Balada Literária funciona como uma ponte levadiça sobre o abismo que muitas vezes separa o autor do leitor. Ao dividir a mesa com figuras consagradas, o autor piauiense deixa de ser “regional” para ser lido como parte da literatura brasileira contemporânea. Thiago E., poeta e músico e voz ativa nesse processo, analisa com precisão os mecanismos que impulsionam a cena cultural contemporânea a partir do efeito multiplicador dessas iniciativas. Ele ressalta que o movimento em torno da literatura e da poesia estimula parte do público a também escrever e publicar.
“Alguém que era espectador em uma edição do evento pode, em outro ano, estar lançando seu próprio trabalho e apresentando seus textos”, observa.
Em outras palavras, a fala do artista destaca como a cultura se retroalimenta, uma vez que o público de hoje pode se tornar o artista de amanhã, e o diálogo direto enriquece todos os envolvidos. Tal modelo, fundamentado na troca e na acessibilidade, fortalece as redes de produção e difusão, sobretudo em regiões fora dos grandes centros tradicionais. Thiago também frisou que “autores, autoras e artistas de outros estados se tornam bastante acessíveis para quem deseja conversar, esclarecer dúvidas ou trocar ideias, proporcionando momentos de diálogo extremamente enriquecedores”. Assim, evidencia-se o papel social dos eventos culturais como plataformas de formação, visibilidade e renovação contínua da cena artística nacional.
“Devo louvar e agradecer o esforço e o trabalho do professor Wellington Soares, que há quase dez anos produz a Balada Literária em Teresina com tanto entusiasmo, valorizando especialmente a produção literária piauiense. Uma produção que não se limita ao livro, mas abrange também revistas, discos e outros suportes.”
Perceber a literatura além das apostilas, ganhando vida em saraus e discussões intensas, transforma o livro de objeto de estudo em objeto de desejo. É o despertar de novos narradores. O magnetismo opera na mobilização de um ecossistema completo: livreiros tornam-se sacerdotes, donos de bar viram anfitriões de debates, e os sebos, relicários de histórias. Sob o mesmo céu estrelado, reúne autores e autoras de todos os gêneros em um autêntico parlamento das letras. De acordo com o agitador Wellington Soares, a escolha do homenageado, quase sempre piauiense, é o primeiro aspecto marcante. Outro é o local de realização do evento, o Memorial Esperança Garcia, que homenageia a primeira advogada negra do Piauí e do Brasil. Somam-se a isso os temas e palestrantes das conversas, os lançamentos de livros e as apresentações artísticas. “Tudo regado, bom destacar, aos nossos temperos locais: cajuína, maria-isabel, carne de sol, calor físico e humano, cerveja gelada e, sobretudo, à hospitalidade que nos caracteriza”, completou.
Por muito tempo, o Piauí foi visto pelo resto do Brasil sob uma ótica que enfatizava suas carências. A Balada Literária, inverteu essa lógica. O evento obriga o chamado “eixo nacional” a olhar para o Norte e o Nordeste não como expressões folclóricas, entretanto como polos de vanguarda. Autor de “Os gatos quando os dias passam” e “Cabeça de sol em cima do trem”, além de um dos organizadores do livro “O poema é o bicho” ao lado de Marleide Lins e Adriano Lobão Aragão, Thiago afirmou que a realização da Balada Literária em Teresina sempre o deixa contente. Conforme o poeta e músico, o evento envolve o esforço de muitas pessoas para sua concretização e gera diversos desdobramentos positivos. Dezenas de estudantes participam, assistem a palestras, apresentações musicais e performances poéticas. Eles se divertem, ampliam seus conhecimentos, adquirem novas perspectivas, enriquecem seu repertório de questionamentos e são estimulados a produzir suas próprias criações.
“Quando há investimento público em eventos literários, musicais e afins. O público se conscientiza mais da importância das artes em suas vidas, a economia é fortalecida, mais dinheiro circula na mão das pessoas. Imagine quantas pessoas trabalham e garantem seu sustento por meio de eventos literários. Assim, se instala um ambiente cultural em que mais pessoas querem fazer parte dessa produção coletiva”, destacou Thiago.

De fato, Teresina não se destaca como um ponto no mapa, mas luz de si mesmo. O Piauí contemporâneo redefine seu papel no panorama cultural brasileiro, transgredindo a condição de simples expectador para assumir as rédeas da narrativa da própria história. Por meio de artistas como Emerson Boy, constrói-se uma autorrepresentação diversificada. Na qual a pluralidade não é um tema, contudo um princípio estruturante. Tal modelo exalta a potência de Torquato Neto, a poesia de Miró da Muribeca e a resiliência vibrante do Nordeste. É o espaço singular onde o acadêmico compartilha o microfone com o poeta do sarau, e onde a prosa densa dialoga com a batida ancestral do tambor. É importante reconhecer: nossa cultura merece e ocupa seu lugar de destaque no mesmo circuito nacional que São Paulo e Salvador. Para Wellington, a gratuidade das atividades já garante, em certa medida, a acessibilidade de todos ao evento.
“Essa tem sido uma preocupação constante, inclusive na escolha dos locais e dos responsáveis pela Balada nas cidades: São Paulo (Marcelino Freire), Salvador (Nelson Maca), Recife (Auríbio Farias) e Teresina. Ainda há problemas a superar, mas estamos trabalhando para corrigi-los. Em Teresina, avançamos bastante com a reforma do Memorial Esperança Garcia, especialmente em relação à acessibilidade para pessoas com deficiência”, apontou.
Das terras rubras às caatingas, a literatura piauiense brota de cores vivas e contrastes fortes. Mais do que um retrato geográfico, é um mergulho profundo nos modos de ser: nas tradições, no folclore e na alma social de seu povo. Veste-se, com orgulho, da sonoridade ímpar de um subdialeto nordestino, transformando a fala cotidiana em matéria-prima de arte. É uma voz que, desde o século XIX, ressoa na busca por uma identidade singular, um fenômeno que se delineia com clareza na evolução de suas obras. Sem perder a conexão com os grandes movimentos literários do Brasil e do mundo, reinventa-se constantemente, galgando obstáculos para integrar-se, em pé de igualdade, ao cenário nacional. Nesse pulsar, a Balada Literária em Teresina, assim como suas edições em outras capitais, atua como um impulso que permite à literatura piauiense reafirmar sua identidade, oferecendo um espaço essencial para a troca de ideias e a expressão artística. Em 2026, a Balada Teresina completará uma década de inquietações culturais e rebeldias políticas. Suas homenagens tecem essa história viva: de Kilito Trindade a Soraya Castello Branco, artistas que moldam o contemporâneo com as mãos no barro e os olhos no futuro. A edição paulistana, ao reverenciar o quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, amplia os horizontes desse diálogo, mostrando que as raízes piauienses conversam com as lutas universais. Assim, feita do barro áspero e dos sonhos mais verdes de seu solo, nossas literatura segue escrevendo sua própria e potente lenda. Uma lenda em cores vivas, onde cada palavra é um ato de resistência e cada história, um novo broto na aridez.