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Arte em madeira: a matéria viva nas mãos de Luiz Rodrigues (Bajatobá)

Nas mãos de Luiz Rodrigues Martins, médico por formação e artista visual por vocação, a natureza se revela em formas que parecem já existir, apenas à espera de serem descobertas. Assinando suas obras como Bajatobá, ele transforma troncos antigos, raízes e pedras descartadas em esculturas que dialogam com o tempo, a memória e a própria vida.

Foto: Cândido Neto

A relação de Luiz com a arte não surgiu de forma repentina. Segundo ele, trata-se quase de uma herança: “Acredito que a arte já estava dentro da minha vida como herança genética. Meu bisavô, Raimundo Portela, em Oeiras, era ourives de ofício”, relembra. No entanto, foi durante a pandemia, em 2020, que a arte deixou de ser apenas um refúgio silencioso e passou a ocupar um lugar essencial em seu caminho. O isolamento e a pausa forçada na rotina profissional abriram espaço para o autoconhecimento e para o surgimento das primeiras esculturas.

Foto: Cândido Neto

O ponto de virada aconteceu quando Luiz encontrou galhos e raízes que seriam descartados. “Para mim, aquilo não era lixo. Eu olhei e vi um dragão”, conta. Dessa percepção, nasceu sua primeira obra: um dragão chinês esculpido em madeira, peça que simboliza o início de toda a sua trajetória artística. Desde então, a produção não parou. Hoje, o artista soma mais de 100 obras, construídas a partir da escuta sensível da matéria.

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Para Luiz, esculpir é um processo afetivo, intuitivo e terapêutico.

“A arte é uma forma de me desconectar das preocupações do mundo. É uma terapia. Se antes 80% das pessoas sofriam de ansiedade, hoje eu diria que 100% sofrem”, reflete.

Ele defende a arte como ferramenta fundamental para a saúde mental, capaz de promover equilíbrio, contemplação e reconexão com o essencial.

Durante muitos anos, sua produção permaneceu restrita ao ambiente doméstico, compartilhada apenas com amigos e familiares. O incentivo para expor publicamente veio justamente desse reconhecimento próximo.

Fotos: Cândido Neto

“As pessoas entravam na minha casa e perguntavam de onde vinham aquelas esculturas, achavam que eu tinha comprado. Os elogios começaram a se repetir”, lembra. O apoio de outros artistas foi decisivo, especialmente do fotógrafo e curador Cândido Neto, que reconheceu a potência do trabalho e o incentivou a levá-lo ao público.

O processo criativo

O processo criativo de Bajatobá parte do princípio da mínima intervenção. Ele trabalha com uma técnica próxima ao driftwood, em que a matéria orgânica conduz o resultado. “Eu busco mexer o mínimo possível no que a natureza já fez. A matéria conversa comigo. Dependendo da luz e do ângulo, eu começo a enxergar formas: um barco, um animal, uma figura abstrata”, explica. Cada peça carrega uma identidade própria, que se revela no primeiro olhar, guiada pela intuição.

As vivências de Bajatobá

A identidade Bajatobá nasce da relação afetiva com a infância e com a terra. Luiz cresceu dividido entre a vida urbana e o campo, passando boa parte da infância na região conhecida como Baixa do Jatobá, no interior do Piauí.

“Era um lugar mágico, cercado pela natureza, onde havia um grande pé de jatobá logo na entrada, e esse termo foi batizado pela vizinhança no modo piauês de falar, ainda hoje gosto de contar essa história para minhas filhas”, conta.

O nome, uma junção popular criada pelos moradores locais, carrega simbolismos de resistência, ancestralidade e pertencimento — valores que atravessam toda a sua obra.

O Piauí também exerce influência direta em sua produção. Luiz destaca a riqueza orgânica e mineral do estado, muitas vezes desconhecida:

“Temos uma diversidade imensa de vegetação e matéria-prima acessível. É um trabalho democrático, qualquer pessoa pode fazer. Não exige telas, tintas caras ou grandes estruturas”, afirma.

O artista trabalha prioritariamente com madeiras já curtidas pelo tempo e pela água, materiais sustentáveis que garantem resistência e durabilidade às peças.

Foto: Cândido Neto

A natureza como inspiração

Embora dialogue com movimentos como a arte orgânica, a arte bruta e a arte povera, Luiz não se apoia em referências diretas de outros artistas. “Minha maior inspiração é a própria natureza. Eu falo da natureza para a natureza”, resume. Suas obras transitam entre o figurativo e o abstrato, abordando temas como equilíbrio, harmonia, paz e emoção. Uma de suas séries mais simbólicas é a sequência de corações, que vai do formato simbólico ao coração humano em referência anatômica, sempre celebrando a vida.

Foto: Cândido Neto

Exposição “Matéria Viva”

Esse belíssimo trabalho poderá ser conhecido de perto na exposição “Matéria Viva”, que será realizada após o Carnaval, no SESC Cajuína. A mostra promete expressar a força poética da matéria transformada em arte e fortalecer que, em tempos de velocidade, ainda há beleza na percepção, na permanência, na imperfeição e na escuta sensível da natureza.

Fotos: Cândido Neto

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Descrição: Artista Visual 

Escrito por: Luan Rodrigues

Revisado por: Paulo Narley

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Instagram: 

www.instagram.com/bajatoba.arte

Caso queria sugerir alguma edição ou correção, envie e-mail para geleiatotal@gmail.com

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