Crítica do show “Sol e Lua do Piauí”, por Nadja Pinheiro

Sabíamos que era Domingo porque acordávamos com Milton Nascimento nas alturas, seguido de todos os grandes de sua geração, Caetano, Betânia, Gil, Chico, Clara Nunes, Ney. Eu sou de uma família extremamente privilegiada. Minha mãe nos apresentou os grandes, meu pai é o maior fã que o Roberto Carlos já teve, minha irmã mais nova toca desde a barriga, meus filhos seguem a tradição. Meu avô cantava, minha tia cantava (e ainda gosta de cantar), meus primos sempre tocaram algum instrumento, outros cantavam, rs. Foi com eles que conheci de Cazuza a Marisa Monte, passando por Legião e Beatles. Com o mundo eu conheci Reginaldo Rossi e Maria da Inglaterra. Com minha irmã mais nova eu descobri que percussão pode ser muito mais legal que a guitarra que eu sempre insisti para ela tocar. E que também é incrível quando um grupo de mulheres for de Samba e não de Rock.

Eu sou da geração que viu grandes músicos começarem nas festas de escola, tocando no recreio, nas gincanas. Citoplasma e suas Mitocôndrias Malucas, Capitão Guapo, Narguilê Hidromecânico, Amigos do Vigia, Mano Crispin, Don Corleone, Anno Zero, todas bandas cujos nomes ainda não eram famosos e muitos nem existiam, mas seus músicos já estavam lá, dedilhando instrumentos nas rodinhas que se formavam nas salas, corredores, quadras, nas festas ou mesmo nas casas de amigos.

Eu sou da geração que já adulta chegava em casa depois de tomar café na rua, amanhecendo o dia. Geração dos bares que só fechavam com o sol alto, das noites nos quais os cantores piauienses, na minha opinião, tinham mais espaço e reconhecimento. Eu sou da geração dos bares que estavam sempre lotados para os prestigiar, das festas que se formavam quando esticávamos mais um pouco (na maior parte das vezes muito, rs) na casa de alguém.

E porquê eu estou contando isso? Porque eu sou da geração que se emocionou ao assistir o show “Sol e Lua do Piauí”…

Não só pela produção impecável (parabéns Geleia Total porque vocês são a própria definição de Resiliência, competentes, determinados, profissionais), não só pela maestria dos músicos envolvidos, um show a parte com certeza, mas pelo encantamento! Foi assim que me senti durante todo o show, encantada! A proposta de algo com 100% de composições locais já me encantou na divulgação. Amo a música piauiense, divulgo a música piauiense, vivo e respiro esse movimento e foi o que me salvou nos anos passados longe de casa.

Mas esse Show, teve algo mais. Teve o encantamento de ver músicos absolutamente envolvidos, articulados, organizados, como diria minha amiga Sayô, bem ensaiadinhos, rs. Teve o encantamento de ver uma produção musical com arranjos maravilhosos e que respeitavam a voz e personalidade dos artistas. Teve o encantamento de oferecer ao público músicas que povoaram nossa história, especialmente a minha história, e resgataram momentos lindos e especiais. Teve o encantamento de ouvir diversas tribos e ritmos e o encantamento de afirmar: é tudo nosso, é tudo música do Piauí!

Teve o encantamento de ver duas grandes intérpretes, Soraya e Luana, absolutamente sintonizadas, acompanhadas de músicos maravilhosos! E o que falar daquela guitarra!!! A cada música a sensação era de encantamento!

Soraya é das antigas, rs, do tempo em que 2h era a hora de mais uma atração da noite se apresentar… Voz impecável. Presença de palco que brilha! Uma das pessoas mais doces e humildes que já conheci, e uma das únicas capazes de fazer minha mãe sair de casa para assistir, coisa que ela geralmente não faz nem pela caçula dela, rs.

Luana não conhecia! Grata surpresa ouvi-la! Uma voz imponente, assustadoramente forte, responsável por eu nunca mais conseguir ouvir Deceptions sem pensar: amo essa música, e na voz da Luana!!!

O show foi um encantamento só! Defeitos?! Devem ter existido, mas me perdoem por não percebê-los! Foi o encantamento de uma noite PERFEITA que me fez sair extasiada do Palácio da Música, com a certeza de ter assistido ao melhor show da minha vida, Bono que me desculpe! Mas quando um show tem o gostinho de vida, da nossa vida, ele traz muito mais que memórias, ele traz certezas!! A certeza que apesar de todos os pesares, a gente faz bonito demais!! Nossos músicos são bons demais!! A nossa história é linda de se ver, ouvir, contar e cantar!

Que muitos outros virão, nos corredores dos colégios ou nos barzinhos! E muitos outros já estão aqui, encantando, iluminando, contando outras histórias, tão ou mais encantadoras que as minhas ou as suas.

O Show Sol e Lua do Piauí representa mais que uma homenagem a musica piauiense! É a clara demonstração que avançamos, crescemos. Meus sinceros agradecimentos a todos os envolvidos no projeto! E um pedido: não desistam! Porque música é vida! Lembrem-se sempre: “para momentos bons, música, para momentos ruins, mais música”!

Nadja Pinheiro é Profa Dra do Curso de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí e apaixonada por música, mas em especial, pela nossa música.

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