A bacia de Proust, crítica de Alisson Carvalho

A bacia de Proust
Foto: Robinson Levy

É no corpo que está tudo, ele é o receptáculo dos nossos pensamentos, sonhos, questionamentos, enfim, das nossas ações. Contudo, sem querer mergulhar nessa seara, não estamos restringidos aos estímulos internos , por isso, um importante elemento para perceber o corpo é relacionando-o com o meio ao qual este está inserido.
E por que falar do corpo?
Porque o monólogo “A bacia de Proust” é um manifesto do corpo e é sobre isso que pretendo falar. O corpo, geralmente ignorado por um lado e enaltecido por outro, torna-se um templo no qual o sujeito é exposto da maneira mais sublime possível. É a imagem e semelhança de um deus, é o sopro de vida, o topo da cadeia alimentar, ou foi assim que foi visto durante a história da humanidade.
Esse mesmo corpo tão venerado, um corpo apolíneo apresentado no texto de Roberto Muniz, é colocado em situações degradantes, escatológicas e humilhantes. Não é um corpo que veio para mostrar o melhor do ser humano, mas justamente o nosso pior lado, um lado vil, escondido, deixado sempre por trás da cortina.
O monólogo, minimalista, cujo espaço é circunscrito a uma pequena arena onde acontece a ação do intérprete, demonstra a ousadia de apresentar uma situação íntima, particular e constrangedora. Um momento não compartilhado, um momento aparentemente simples, mas que revela o espectro de sentimentos da personagem. É ali, na solidão do banho de bacia, que todos os pensamentos sobre a pequenez humana emergem para nos fazer refletir sobre a própria decadência.
E o corpo entra nessa história para revelar quem somos, pois é com esse elemento que Pierre começa a refletir sobre a sua performance no mundo, sobre a sua relação com outros sujeitos. E como as personagens bem detalhadas do próprio Proust, presenciamos a superexposição da personagem, que encontra nas lembranças uma possibilidade, não como redenção, simplesmente uma provocação para refletir sobre o mundo, um retorno quase que cinematográfico a um pretérito que explica o infortúnio que intitula a obra.
Particularmente, não enalteceria a coragem de materializar uma peça que utiliza a nudez como elemento principal, mesmo que o corpo do intérprete seja colocado em diversas situações, desde o estranho até o sexual. O desafio deve fazer parte do exercício do ator em tentar ampliar as suas capacidades técnicas, e esse esforço em extrair o máximo do ator fica visível com a escolha de uma linguagem com poucos recursos cênicos, proposta pelo diretor Edinho do Monte. Ao usar o teatro pobre, ele joga o ator sem muletas, sem nenhum conforto na cena e força o intérprete a tentar convencer o público.
Sem os elementos acessórios do teatro, Márcio Gomes é despido, literalmente, de todos os artifícios e é desafiado a explorar sua capacidade de criação. O intérprete demonstra o seu porte físico, herança de um investimento longo dos treinamentos com as danças urbanas, e explora as variações do próprio corpo. Seja demonstrando o melhor do corpo apolíneo, essa pesquisa corporal o leva para dois extremos: a beleza e a decadência.
Márcio ocupa todo o espaço cênico, utiliza cada um dos elementos que compõem o cenário, que nem precisaria de tanto. A opção pelo mínimo foi bem pensada diante de um corpo que é forçado a buscar no expressionismo alemão um mediador da transmissão da ideia. A variação de tons, embora não tenha aparecido ao longo da encenação, às vezes, caia numa construção um tanto estereotipada de feminilidade, o que me fez pensar na constância, na uniformização da personalidade ou dos trejeitos da personagem. Talvez fosse um ponto importante refletir sobre quem é essa personagem e entende-la mais profundamente, a distância entre ator e personagem não fica tão visível em determinados momentos.
A solidão e reclusão de Proust é vivida ali sobre a bacia de Pierre. E a utilização do elemento sedimenta bem a trama da peça, reforçando constantemente as intenções da personagem. As imagens construídas ao longo da trama reforçavam a ideia de solidão, mas uma solidão com diversas nuances, ora se rebelando contra o sentimento de isolamento, ora entregando-se por inteiro à situação.
Mas por que falar do corpo?
Pela estética escolhida, a escolha da rigidez. O uso do corpo como forma de demonstrar a própria animalidade humana. Um corpo que se amplia e estranha a si próprio, e esse estranhamento do corpo começa com a própria constatação da finitude, da fragilidade, na qual a personagem se depara com uma situação impensada e que afasta de si os principais prazeres.
Fui provocado em vários sentidos, pois senti nojo diante de uma bacia que deixava de ser receptáculo do ser, refúgio, cura, vergonha e passava a ser um quadro, fotografia, inclusive transformada em órgão genital. O elemento da vida, a água, sendo usada para a cura, mas que é sorvida pelo intérprete, pela personagem, uma água que no ápice do desespero e da ira é jogada sobre todo o corpo.
A relação entre o sujeito e o espaço, o estímulo dado pelas situações do espaço é o que, para mim, explicam uma parte da ação dos sujeitos. Nesse sentido, atravessados pelas experiências do dia a dia, é que vamos respondendo aos estímulos do meio. Da curiosidade com a nudez escrachada ao nojo despertado por esse corpo em cena, a atenção do público é constantemente bombardeada pela ação que acontece em paralelo com o texto ou mesmo em silêncio, afinal, o texto acaba sendo um pouco maçante por não ser tão coloquial ou por ser mais refinado e, às vezes, um tanto prolixo.
O ato cíclico de encher a bacia com a água da jarra de porcelana demonstra a fatalidade da ação, cuja personagem joga sobre a água não apenas as criações de Proust, mas as ervas que curam e causam tanto mal. O monólogo não segue um formato fixo, é plástico, varia conforme o público, conforme o feedback com o espaço. E justamente por isso acredito que a tendência é crescer a cada apresentação, pretendo continuar acompanhando a construção dessa obra que, embora não tenha me prendido de imediato, é uma proposta bem singular e que exige muito do ator. E eu não falo da nudez, mas da criação da personagem.

A peça estará em cartaz durante o mês de Setembro.

Dia 07 (sexta) 19h no Teatro de Bolso Dolores Ferreira
Dia 08 (sábado) 19:30h no Teatro de Bolso Dolores Ferreira
Dia 14 (sexta) 19h no Clube dos Diários
Dia 28 (sexta) 19h no Espaço Trilhos

Entradas:
10,00 (meia)
20,00 (inteira)

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