A digressão de Bob Esponja, por Alisson Carvalho

Dona Lúcia observou a filha diante da televisão, era dia dezesseis de agosto e a pequena, de dez anos de idade, não tinha ido à escola. Parecia um final de semana, ou um dia comum, mas foi exatamente naquela data, no ano passado, que o marido foi à loja de carros e nunca mais retornou.
A mãe guardava na memória com muito remorso o fatídico dia em que encontrou o embuste no centro da cidade com a nova mulher, agora grávida, engoliu a raiva e matou simbolicamente a memória do irresponsável que gelou achando que presenciaria o primeiro barraco causado por “suas mulheres”.
A indiferença da sua ex-mulher feriu profundamente o seu ego e, a partir daquele dia, ele passou a ultrajar o seu passado adicionando sofrimentos fantasiosos criados por mera crueldade, só por vingança.
Enfim, Dona Lúcia deslizava o dedo na tela do celular lendo as notícias do jornal virtual local e a ociosidade a fez prestar atenção na filha. Não suportando a curiosidade, pois se achava detentora até dos pensamentos da sua pequena, questionou:
“Tá doida, Carla? Te alui, menina! Por que tu tá parada aí na frente da tevê?”
“Mãe, você já percebeu que o Bob Esponja parece com todo mundo?”
“Ah?”
Dona Lúcia tinha visto uma imagem curiosa e ria internamente enquanto a sua filha assistia ao desenho imaginando a inocência da criança, só então entendeu a piada do artista, só depois de ver a imagem no celular.
“Mãe, todo mundo é assim. Já percebeu que criamos um caracol? O nosso gato não é só uma forma de preenchermos a nossa solidão, de projetarmos nossas carências, humanizando-o?”
De repente, a menina começava a se afastar da mãe, não um distanciamento físico, mas uma sensação de ruptura com aquele espaço minúsculo, tudo parecia diferente, e ela ganhava outros contornos, seus traços não mais pareciam com os de uma criança. Um vórtice turvou tudo ao redor da sala e a mulher entendeu o tal estranhamento descrito pela professora da menina. De fato, ela tinha um pensamento desafiador para a idade. Além disso, era como se a pequena fosse um gigante comprimido no corpo raquítico e infantil.
“Para quem não entendeu, a piada pode ser também uma forma de questionar os valores vigentes ou simplesmente lançar luz sobre um aspecto da vida que passa despercebido e que simplesmente deixou de ser um tema questionador”, continuou a menina.
“Do que exatamente você está falando?”, perguntou a mãe.
“Refiro-me à animação Bob Esponja”, respondeu.
A mulher, assustada, refletiu e percebeu que nem sempre lia os desenhos da forma como começou a ler naquele exato instante. Na verdade, ela nem costumava mais parar diante de uma tevê para avaliar os pormenores embutidos naquele tipo de arte, até porque nem estava tão interessada na técnica da construção de uma animação.
O que deixou-a intrigada foi aquele pensamento que surgiu depois de observar uma dessas imagens que surgem no Instagram: a imagem comparava o “Siri Cascudo”, restaurante do Seu Siriguejo, com uma armadilha para lagostas. A tal ironia cruel seria escondida da filha, mas saiu sem querer da sua boca materna no desespero de tentar preencher o silêncio causado pela sua inaptidão em conversar e dar crédito ou tentar refutar as palavras da criança.
A imagem da tal armadilha com a legenda “infância destruída” causou a seguinte digressão na mãe:
Há quem veja a brincadeira da armadilha como uma daquelas ironias lançadas nos desenhos, como os três porquinhos, no qual na parede da casa de um dos porquinhos aparece um quadro com uma imagem de uma linguiça que tem como legenda a palavra “Father”.
“Pode ser ironia mesmo, mãe. Alguns artistas gostam mesmo de inserir elementos escondidos em camadas nas suas obras…”, disse a menina, depois de refletir.
“Quem é você?”, questionou a mãe, desconhecendo aquilo que saía da boca da sua filha.
“Mãe, não deixa os fótons e as cores da tevê deturpar o seu olhar. Sou eu, sua filha”, disse com um sorriso irônico.
“Nenhuma criança fala assim…”, disse alterada.
“Mãe, acorda…”, gritou a filha.
Dona Lúcia percebeu que tinha dormido na poltrona e quis desligar a tevê, a filha observou tácita. A mãe sentiu um calafrio estranho, teria sido aquilo um sonho? Encarou a pequena e, antes que dissesse algo, escutou a menina dizer:
“Imediatamente, imaginei a armadilha para lagostas não da forma literal, mas se o artista transforma a armadilha num estabelecimento que tem como objetivo final angariar recursos para o dono, Seu Siriguejo, que é uma personagem imersa totalmente na lógica capitalista. Então, a tal armadilha serve como uma reflexão daquilo que nos aprisiona, das nossas prisões.”
“Menina, tu tá louca? Angari-o-quê? Que prisão?”, gritou a mãe, assustada.
“Estou falando da imagem que você falou, a armadilha de siri. Aí fiquei pensando, mãe, a lógica que nos aprisiona nesse mundo é uma armadilha, mas uma armadilha que não nos prende totalmente. Ela nos alimenta, mas não nos liberta e realmente funciona como um fast food, pois tudo perde o valor e o encanto muito rápido. Além disso, tem sempre um funcionário descontente e letárgico, o Lula Molusco, que é um artista suprimido por essa lógica capitalista convivendo com uma figura alienada que é o seu extremo oposto, o nosso personagem principal: Bob Esponja. Isso não é irônico? Eles nos fizeram ter mais empatia pelo peão manipulado e sem perspectiva do desenho e rir da ambição desenfreada do patrão”, respondeu a menina.
“Filha, para com isso, você está me assustando”, suplicou a mãe.
“Ora, em um mundo hiperbólico e extremamente irracional dessa ficção que satiriza a vida urbana não temos como ler uma metáfora dessas sem mergulhar mais nesse oceano que esconde outros oceanos”, continuou a menina.
“Hiper-o-quê?”, balbuciou.
“A vida urbana – e a corrida pelo capital – foi produzindo cidadãos alienados, lobotomizados, como o Patrick. Vilões minúsculos, sempre presentes, sempre uma ameaça real que buscam fórmulas para o sucesso nunca alcançado, como o Plankton. Figurantes caricatos nunca conhecidos profundamente, mas com as diversas neuroses comuns na sociedade, como Sra. Puff, Larry, Pérola e Karen. Críticos sem ânimo ou sem causa, como o Lula Molusco. E, claro, a alteridade alienígena, Sandy, tentando se encaixar nesse mundo aquático, mas sempre presa na sua bolha ideológica”, disse.
“Já chega, amanhã vou te levar ao médico”, concluiu Dona Lúcia.
“Médico? Como uma Fenda do Biquíni: um lugar perdido no nada, que desperta a curiosidade de quem está observando. Nós somos esses insanos que procuram na Fenda um sentido, um prazer, algo exótico e extraordinário. É preciso adicionar um pouco de tragédia nesse oceano pacífico e monótono que é a realidade!”, completou a criança, antes de apanhar da mãe que estava completamente assustada com o vocabulário da filha.

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1 comment
  1. Na letra da canção “Só as mães são felizes ” Cazuza canta sobre a inocência das crianças e seus comentários desconcertantes,a pequena menina prodígio do texto,é uma dessas gratas e maravilhosas ironias da vida,nada é mais assustador a um adulto,dentre tantas outras coisas,ter seus valores questionados por alguém que graças ao senso comum,é tido como alguém de capacidade intelectual inferior,dona Lúcia estava mais preocupada em alimentar a raiva do cafajeste que outrora fora seu marido,cai em sono,e ao despertar,ela vê que a precocidade da filha é real,o texto contém em si,uma velha característica dos grandes artistas:a profundidade misturada a sutileza em seus fazeres artísticos,que em traços de um quadro,frames de um desenho,ou palavras usadas em contextos diferentes em uma música,tem um significado maior do que aquele percebido por muitos,esse texto né faz lembrar um pessoa em especial,ao ler o texto e esse meu comentário,essa pessoa saberá que me refiro a ela kkkkk

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