MORTE DE UMA VIDA QUE NADA VIRA, de Paulo Narley

Foto: @um_ze

 

 

Limpou o quarto, os livros, os CD’s e DVD’s. Deixou tudo da maneira que gostava: organizado. Já não conseguia mais suportar as vozes ecoando aquela maldição em seus ouvidos. Milhões de pessoas gritavam e gritavam cada vez mais alto: “bicha”, “viado” e vários outros sinônimos rodopiavam pela sua mente. Por mais que tentasse tirá-las dali, elas não saíam. Limpar o quarto não havia sido suficiente. Resolveu tomar banho. Despiu-se, pôs suas roupas no cesto. Foi até o banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água fria correr lentamente por seus poros. Enquanto o líquido atravessava seu corpo, imagens do dia vinham à sua cabeça. Os empurrões contra a parede, a cara de desaprovação daqueles que, até algumas horas atrás, eram seus melhores amigos. O dia na escola tinha sido o pior em toda a sua vida. Não sabia como os pais reagiriam ao saber de tudo. Estava se sentindo despido, mas não fisicamente…

Saiu do banho ainda tentando entender como aquilo tudo tinha acontecido. Como tão de repente tinha se tornado a piada de toda a escola. Depois que acharam seu diário, aqueles meninos fizeram cópias e distribuíram por toda a instituição, de sala em sala. O banho sequer afastou dele aquelas palavras, os gritos de zombaria, as risadas… Ainda estava tudo tão claro na sua mente. Não sentia mais o chão. Sua vontade de viver desaparecera. Definitivamente, não poderia voltar ali de novo. Tomou uma decisão: não voltaria. Nunca mais!

Pôs seu melhor terno, aquele que tanto usou nas missas aos domingos. Lembrou-se, então, das tardes ensolaradas, quando ia à igreja com os pais, todos ali eram tão simpáticos. Porém, tinha a certeza de como reagiriam se soubessem do seu segredo. Pendurou a corda no teto. Colocou o CD dos Beatles para tocar no seu notebook. Fechou os olhos e deixou-se embalar pela melodia. Enquanto dançava, subiu na cadeira. Colocou a corda em volta do seu pescoço. Encheu o peito de ar. Pensou em desistir. Então, lembrou-se de tudo o que havia lido mais cedo no Facebook. Todas aquelas mensagens de ódio e repúdio ao que ele era se apossaram de seus pensamentos e o mundo começou a girar. Era demais para ele. Um garoto de apenas 15 anos, nada sabia do mundo ainda. E era tão terrivelmente julgado e xingado apenas por estar apaixonado. Estava perdendo a cabeça, mas não podia parar ali. Não suportaria ser maltratado por todos de novo. 

Deixou que a cadeira escapasse de seus pés. E viu-se suspenso no ar. Pendurado. Uma dor aguda tomou conta de seu corpo. Sentiu o aperto em seu pescoço, enquanto ficava cada vez mais difícil respirar. Mexia-se bruscamente, queria cair no chão e voltar a sentir o ar, mas sabia que não podia. Dizem que, enquanto morremos, passa um filme de nossa vida por nossos olhos, mas tudo o que ele via era o seu quarto ficar embaçado. Estava perdendo a consciência, tudo começava a ficar escuro. Queria cortar a corda e acabar com aquilo, mas já não restava tempo. Sua vida jovem acabara ali, naquele quarto. Era seu fim. O fim da vergonha. O fim de uma vida que não tinha vivido nada ainda. Que nem sequer havia dado o primeiro beijo. E acabara ali, uma existência que poderia ser feliz. E agora não teria uma família, não andaria de mãos dadas com um amor, não teria um amor. Nunca. Ele queria ter um amor, queria uma família. E agora se acabou. Se foi. Tudo por estar apaixonado e tudo por ser um menino que gostava de menino. A corda não aguentou mais seu peso. O corpo caiu no chão. Inerte. Sem cor e sem vida. Ali no chão frio daquele quarto escuro, findou-se. E era isso…

Acordou com a respiração ofegante e os olhos cheios de lágrimas. Ouviu meio longe o som do despertador tocando junto com os gritos da sua mãe no andar de baixo dizendo que ele se atrasaria para a escola.

Abriu devagar os olhos. Aos poucos, reconheceu o quarto. Passou a mão pela barriga como que para confirmar que estava realmente vivo. E logo percebeu que tudo não havia passado de um sonho. Levantou-se da cama meio cambaleante por causa do sono e foi até o banheiro.

Despiu-se e entrou debaixo do chuveiro. Deixou que a água levasse embora todas as lembranças daquele sonho ruim e repetiu para si mesmo que fora apenas isso: um sonho ruim.

Vestiu-se, tomou café, deu um abraço apertado em sua mãe e saiu para encarar o dia que estava lindo. Enquanto caminhava pelas calçadas até a escola, convenceu-se de que esse sonho não o afetaria. A vida era difícil, mas ele nunca foi do tipo de pessoa que desiste das coisas.

 

Foto: um_ze

 

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