Você não precisa de autorização de ninguém para ser artista, por Noé Filho

Será que o que eu faço tem qualidade? Será que minha arte é digna de ser exposta ao mundo? Será que alguém vai gostar do que eu faço? Será que outros artistas vão gostar do que faço? Esses são alguns dos questionamentos que com certeza todos, os quase todos, os artistas se fazem em algum momento da vida. Questionamentos que são naturais, legítimos.

É natural que haja essa preocupação com a qualidade do se está produzindo. Acho que todo artista quando vai lançar uma obra nova passa por todos esses pensamentos. No entanto, porém, contudo, entretanto, todavia, vejo muitos artistas esperando cair do céu algum tipo de aprovação, endosso, para terem a autorização para colocarem suas obras no mundo, para poderem ser considerados artistas.

Um endosso que talvez nunca venha, ou não da maneira que se espera. Vou citar exemplos na área da literatura, mas as reflexões valem para todas as áreas artísticas. Vejo muitos jovens escritores enviando seus manuscritos para escritores que já estão consolidados ou são respeitados não para ter uma crítica de qualidade, mas sim para receber um aval para que a obra possa ser publicada. No fundo, querem como resposta algo tipo “você está pronto, pode publicar”. Já ouvi vários relatos de escritores super respeitados, que dizem que recebem vários textos para ler, e depois quando passam um feedback sincero, as pessoas ficam muito chateadas, porque no fundo não queriam uma crítica, queriam apenas elogios e reconhecimento.

Acho que ninguém tem o poder de dar o título de “artista” pra ninguém, acredito que diz respeito muito mais a um processo de autoconhecimento de cada um. E, sinto informar, talvez você nunca receba essa aprovação assim, talvez a sua maneira de fazer arte não é a mesma de quem já está estabelecido no cenário literário. Isso significa que você não seja artista e sua obra não tem qualidade? Claro que não. Significa apenas que você está deixando de colocar sua obra no mundo e de levar a sério sua própria arte em uma tentativa desesperada de ter uma aprovação.

Não estou dizendo que a crítica de outras pessoas não seja importante. Que ter esse reconhecimento de quem admiramos não seja bom. Mas não acho que devemos ser reféns dessa aprovação para decidir publicar ou não um livro, essa é uma decisão que tem de partir de você, do seu interesse em mostrar para o mundo, do seu desejo de ouvir o que os leitores irão achar da sua obra. Muitos artistas ficam paralisados, estagnados, nessa busca por um apadrinhamento ou amadrinhamento. Até porque, convenhamos, como é bom ter alguém que facilite sua vida, abrindo portas, propagandeie sua arte, falando que você tem qualidade como artista. É muito mais fácil do que ter que construir sua história com suas próprias pernas, com muito esforço e suor.

Outro perigo dessa busca por aprovação é perder a sua essência. Se curvar ao que outros artistas entendem como arte de qualidade para agradá-los, distanciando-se do que você mesmo acredita. Se todos os artistas condicionarem a publicação de suas obras à aprovação de quem já tem mais tempo de estrada, não haveria novos movimentos literários, não haveria tantas inovações artísticas que surgem a todo momento.

Vejam só o caso do Ítalo Lima, poeta, escritor, artista visual e muitas outras coisas. É um artista que, na minha opinião, tem uma importância enorme para o cenário artístico piauiense e brasileiro. Agora, se ele algum dia fosse esperar endosso do cenário literário local talvez não teria publicado nenhum livro ainda. E, felizmente, ele nunca esperou por esse tipo de endosso. É um artista que se mobiliza pela sua arte, acredita no que faz e encontra maneiras que colocar sua arte no mundo. E hoje é um artista com vários livros, revistas, zines publicados, é membro da Academia de Letras de Teresina, e tem um currículo artístico invejável.

Vale ressaltar que se você é um artista visto como referência por outros artistas e alguém mostra para você sua arte, tenha a sensibilidade para entender todos esses sentimentos que com certeza você já viveu algum dia, e ter a maturidade de passar um feedback crítico, mas gentil, com delicadeza. Você não sabe (ou talvez saiba) o peso das suas palavras para alguém que está nesse processo de autoafirmação como artista.

Ouça. Escute. Aprenda. Construa sua própria história. Encontre seus caminhos para ter confiança e acreditar no potencial da sua própria arte. Ninguém vai poder fazer isso por você. Ainda bem.

 

Por Noé Filho.

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