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A ARTE QUE TOCA A ALMA: SOM, IMAGEM E MOVIMENTO
A ORQUESTRA ROSA DOS VENTOS E UM NOVO RITMO PARA AS MULHERES NA MÚSICA PIAUIENSE

A ORQUESTRA ROSA DOS VENTOS E UM NOVO RITMO PARA AS MULHERES NA MÚSICA PIAUIENSE

Foto por: Raynara de Castro

O evento Artes de Março, promovido anualmente pelo Teresina Shopping, esse ano trouxe em seu Espaço Cultural a exposição “Rosa dos Ventos: Mulheres mudando o rumo da música” que homenageia a Orquestra Rosa dos Ventos, a sanfoneira Sebastiana e mais 25 mulheres compositoras e cantoras piauienses, colocando no centro da discussão reflexões sobre a visibilidade e a valorização da mulher no cenário musical do estado.

E se o assunto é o protagonismo feminino, não podemos deixar de destacar uma orquestra independente formada e mantida exclusivamente por mulheres. Atualmente composta por 19 musicistas, a Orquestra Rosa dos Ventos foi idealizada por Isabela do Kariri, Tauana Queiroz e Écore Nascimento em agosto de 2025, tendo sua primeira estreia no 47º Encontro Nacional de Folguedos do Piauí e, agora, no dia 9 de março fizeram parte da programação de abertura do Artes de Março, celebrando e valorizando a luta das mulheres na música e nas artes.

“Conseguimos juntar 19 musicistas com o intuito de criar um espaço seguro e saudável onde as mulheres possam explorar suas possibilidades profissionais e exercer suas funções artísticas sendo valorizadas. Teresina ainda é um lugar onde mulheres, mesmo ocupando cargos de liderança, são deslegitimadas, perseguidas e sofrem violências psicológicas ao ponto de recuar, abrindo mão de suas atividades. A orquestra é um ato político e necessário, uma resposta e um aviso para que a sociedade, tanto homens como mulheres que reproduzem machismo e misoginia, entenda que iremos adiante, com competência e determinação.” – Isabela do Kariri

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Em entrevista concedida a Geleia no dia 9 de março, algumas das integrantes compartilharam suas percepções sobre o cenário atual na música, a importância de fazerem parte de uma orquestra composta apenas por mulheres e o sentimento de poder ser voz – e música – em espaços culturais. Confira:


GELEIA: Primeiramente, qual a expectativa de vocês com a participação no Artes de Março através da Orquestra Rosa dos Ventos?

ÉCORE: Bem, as expectativas são as melhores possíveis, porque esse momento está sendo muito representativo, próximo ao dia da mulher. No dia da mulher, a gente passou o dia inteiro juntas e fazer esse concerto com um projeto inovador aqui no Piauí, e também no Nordeste, é muito representativo pra gente, porque uma Orquestra de mulheres é ainda algo inovador, é sobre a gente unindo forças, a gente tá homenageando muitas mulheres nesse repertório, compositoras, musicistas de várias gerações.

TAUANA: Acho que é isso, essa orquestra é uma orquestra formada por mulheres que têm histórias diversas na música, tem mulheres que tem formação teórica na música, que participam de (outras) orquestras, outras são professoras, outras são autodidatas, outras estão voltando agora pra música depois de muito tempo sem tocar e a gente tá valorizando cada potencialidade dessas mulheres para levar esse show. Um show que vai explorar samba, chorinho, forró, rock, vai trazer um pouco dessa experiência de vida que cada uma dessas mulheres têm na música.

Orquestra Rosa dos Ventos Foto por: Raynara de Castro

GELEIA: E como é pra vocês que trabalham com instrumentos de percussão, com a sanfona, com o acordeom, instrumentos muitas vezes associados ao universo masculino, como é pra vocês pensar nessa quebra da fronteira do gênero através da música?

KAROLAINE: Assim, é muito lindo, né, de ver? Mas muita gente duvida que a gente saiba tocar bem, muita gente pergunta se a gente toca mesmo direito a sanfona. Então, é difícil, mas é muito lindo poder mostrar. Quando a pessoa vê que a gente toca bem e reconhece isso, é muito lindo mesmo.

TAUANA: Eu acho que a maior contribuição e o maior orgulho dessa orquestra hoje, além de, claro, valorizar essa trajetória das mulheres na música, algumas que têm outras profissões além da música… é ver as novas gerações aqui, esse exemplo, a Eloá que também tá estudando sanfona e já demonstrando uma habilidade bonita assim, que começou autodidata e agora está estudando a Sanfona com a Karolaine que já tem uma caminhada um pouco maior, elas duas duas alí também conversando e trocando essa experiência com a mesma idade e com caminhos que vão se completando.

“Acho que esse é o maior presente que a gente poderia deixar, homenagear as gerações que vieram e as que estão fazendo agora, e essas meninas que estão começando verem que é possível mulheres fazerem, né? Eu acho que esse é o maior presente.” – Tauna Queiroz

GELEIA: E qual a expectativa que vocês têm hoje, com todos esses movimentos, sobre a mulher no cenário da música piauiense?

TAUANA: A nossa força e a nossa presença é inegável. Aqui na exposição, todas essas mulheres… é uma seleção, mas tem muitas outras […]. E é um universo enorme de mulheres pioneiras, mulheres que fazem músicas a muito tempo, a décadas. E uma das perguntas que a gente traz aqui é: quantas mulheres dessa exposição você conhece? Quantas mulheres você conhece o trabalho, de já ter escutado mesmo a música dela, a interpretação? Não só de ter visto por aí. Então, a gente tá presente e a gente só precisa de plataformas que valorizem, espaços que valorizem e que nos deixem mostrar o que a gente tem feito na nossa vida, com a nossa experiência e o nosso empenho.

ÉCORE: A gente tá muito feliz com esse feito, com essa exposição, um espaço exclusivo pra mostrar o trabalho das mulheres musicistas, pra gente é algo inédito, nunca vimos algo assim do tipo antes aqui, então funciona como uma quebra de barreira. A gente já vem trabalhando há muitos anos, mas a gente tá entrando nesse palco do Artes de Março com muita energia, com muito significado, estarmos juntas no palco…porque a gente está junto assim na vida, se protegendo, compartilhando, se informando cada vez mais do que nós merecemos, do que nós precisamos, então hoje é um momento histórico nesse mês de março em 2026 aqui no Teresina Shopping. É o início de uma grande caminhada.

TAUANA: Você imagina o que é reunir 16, 17 mulheres, sendo que essas não são todas, não vão estar todas elas por questões de agenda. Como é difícil pra gente conseguir reunir essas mulheres, por questões diversas, questões familiares, maternas, outras demandas profissionais e como é desafiador,mas como a energia dessas mulheres e a crença dessas mulheres nesse projeto fez a gente acreditar. Esse projeto nasceu com uma ideia da Isabela Alves, a Isabela do Kariri, que é a produtora, chamou a mim e a Écore para estarmos juntas nessa coordenação e juntas chamamos e convidamos cada uma dessas mulheres que toparam fazer acontecer. Tem uma que é de Altos que entrou em contato e disse ‘eu quero! eu vou toda vez que tiver ensaio, porque eu quero estar junto, eu quero estar somando’. Então a gente percebeu realmente esse querer delas estarem, não para só aparecer em um palco grande, mas pra fazer a coisa acontecer, entende? Ver a coisa acontecendo, acho que isso é uma coisa que realmente faz muito sentido na nossa vida.

ÉCORE: E trabalhar com um grupo de mulheres traz tanto significado, porque nós que somos mulheres estamos constantemente postas dentro do universo masculino, onde a gente precisa ser comunicativa, mas não pode falar demais e deve até se calar diante de algumas situações. Deve ser talentosa, mas se for mais do que eles, vai sofrer opressão… Isso é o que a gente vive diariamente em grupos com homens. Mas quando a gente tá aqui nesse grupo, a gente vê cada mulher se superando e a gente se aplaude e se incentiva. Então é uma importância muito grande social mesmo, tanto pelo impacto social para a cidade de Teresina, quanto na vida de cada uma para que a gente se sinta livre pra brilhar e brilhemos mais!

ÉRICA GALVÃO: É um marco muito importante na história da música piauiense, porque inicialmente é a primeira orquestra formada inteiramente por mulheres e é um prazer muito gigante ver como a força feminina está muito inteirada em todos os setores dessa produção, na fotografia, na produção de palco… Então, tudo isso é muito necessário para as próximas gerações, na verdade, inclusive temos praticamente quatro ou três gerações de mulheres instrumentistas na orquestra… temos as meninas mais novas a Karolaine e a Eloá, mas também temos hoje a Sebastiana que veio pra completar a nossa apresentação, ela é autodidata, é uma pessoa que teve outra realidade e que não teve as mesmas oportunidades que nós tivemos, que estamos tendo agora, na verdade. Porque mais do que apenas um grupo musical, nós estamos selando algo importantíssimo para as próximas gerações. Nesse sentido, o convite fica para todas as mulheres e meninas instrumentistas que queiram se juntar a nós, que procurem a produção, nós estamos ainda em uma grande reformulação e que vai ser muito especial que cada vez mais pessoas participem dessa contribuição que estamos fazendo pra música piauiense. 

JOSY: Eu entrei no mês de outubro na orquestra a convite da Maísa, eu já tenho uma experiência com percussão, porque eu já fiz aulas em projetos de bairro. É uma cultura, uma arte que muito me cativou, então eu comecei a fazer os projetos de bairro, aprendi a tocar e fui aperfeiçoando, então foi a convite da Maísa, uma das nossas amigas da orquestra, e aí a gente começou se engajando nos ensaios para hoje estarmos aqui representando a arte e a cultura, as mulheres musicistas do estado, de Teresina, trazendo também as mulheres que são artistas de fora como a Sebastiana que é de São Raimundo Nonato. Pra mim hoje é um dia muito especial como artista, que gosta de música, e como mulher, né?

“Então, está representando as mulheres que muitas tem por aí, que são autodidatas mas que estão escondidas por aí nos bairros, nas periferias, e eu estou aqui representando elas também” – Josy

JOSY: Onde eu moro eu vejo que tem muitas mulheres que tem talento, mas que não tiveram a oportunidade que eu estou tendo nesse momento. Então pra mim é muito gratificante e estou muito feliz de estar participando da orquestra Rosa dos Ventos e nessa exposição.

Foto por: Raynara de Castro

Em relato, a fotógrafa Raynara de Castro que acompanhou e registrou a apresentação da Orquestra Rosa dos Ventos no Artes de Março comentou sobre a importância do projeto como exemplo de força colaborativa entre mulheres na arte e destacou o sentimento de irmandade e pertencimento no meio. 

“Quando trabalhamos apenas com homens ou em ambientes com muitos homens não nos sentimos verdadeiramente seguras e validadas. Poder ter tido a oportunidade de trabalhar com aquelas mulheres maravilhosas e ver o apoio mútuo, a gratidão, uma encorajando a outra, foi inspirador.”- Raynara de Castro

A Orquestra Rosa dos Ventos chega trazendo novos ares e um novo ritmo não só à cena musical, mas às artistas piauienses, ficando-se, pois, registrado aqui esta significativa revolução: a insistência de que os espaços são também nossos.

Orquestra Rosa dos Ventos Foto por: Raynara de Castro

Vida longa a Orquestra Rosa dos Ventos!

CONTATO:

Instagram – @orquestrarosadosventos

FICHA TÉCNICA:

INTEGRANTES DA ORQUESTRA ROSA DOS VENTOS 

MUSICISTAS:

ADRA LYZ

ADRIELLY NOGUEIRA

ANA LÍVIA BASTOS

ALÊ PINHEIROS

ÉRICA GALVÃO

ÉCORE NASCIMENTO

KAROLAINE VISGUEIRA

ELOÁ VIEIRA

KAYLANE RODRIGUES

BRENDA DE CÁSSIA

JOSY

MAISA VIEIRA

RAFAELA GOMES

SÂMIA CANTUARIO

SORANE COSTA

SANDRA CARDOSO

TAUANA QUEIROZ

WÂNYA SALES

SANFONEIRA SEBASTIANA (HOMENAGEADA)

DIREÇÃO GERAL: ISABELA DO KARIRI @isabeladokariri

Coordenação: Isabela do Kariri, Tauana Queiroz, Écore Nascimento

Caso queria sugerir alguma edição ou correção, envie e-mail para geleiatotal@gmail.com.

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