Pinguim de Geladeira – Um Conto

A luz invade este lugar com a mesma timidez com que a vida invade o corpo do homem.
Daqui de cima o vejo deitado de bruços, inerte ao lado da geladeira, seu corpo parece nada além de farrapos velhos amontoados ali de maneira aleatória. Devido à esta apresentação, alguns podem supor que ele é uma criatura antiga, talvez à beira do último suspiro; outros, mais drásticos, podem imaginar que ele já está morto, e não passa dos restos do que um dia foi um ser humano comum.

Sei que ele não tem família nem amigos, e que não veio ao mundo convencionalmente. Não há ligações, não há mensagens, não há visitas. Não há outras pessoas. Tudo indica que sua existência foi cuspida de alguma escuridão completamente desconhecida, ele só chegou a este mundo porque o tiraram de dentro de uma caixa antiga e empoeirada de mudanças, encontrada por acaso na dispensa. Sua existência é feita de nada – este desenrola-se exaustivamente, dia após dia, de modo tal que não se percebe mais tempo nem espaço, ambos engolidos pela repetitividade infinita do nada. O nada que é atemporal. É o que havia antes, é o que há agora, é o que se enxerga no horizonte sem nascer de sol algum.

O homem se mexe bruscamente. Está acordando. Qualquer criatura que estivesse neste lugar se assustaria com seus movimentos espasmódicos, como se fosse a própria geladeira que repentinamente acordasse, revelando haver vida onde podia-se jurar sua ausência. Sons agudos de tosse seca ecoam pelo ambiente pequeno, e vômito extremamente líquido é despejado do corpo através de sua boca e narinas, diretamente contra o chão, encharcando toda a sua face. Isso o desperta mais rapidamente, fazendo com que seja obrigado a virar-se de peito para cima. Em cada fio de sua barba por fazer, o vômito acaba de deixar diversas gotículas amareladas; estas, por sua vez, brilham douradas, devido ao filete de raio de sol que capturou com admirável precisão o rosto do homem.

Não há nada que se possa dizer sobre este rosto. Como afirmaria Humpty Dumpty, é apenas semelhante aos demais: há dois olhos separados, um nariz que se inicia entre eles e uma boca logo abaixo. Os olhos estão fechados: seu dono parece ter imensa dificuldade em abri-los, pois os globos se movimentam desesperados por baixo das pálpebras; concomitantemente, o nariz e a boca esforçam-se para regular a respiração, expelindo o que restou do jorro. E somente isto parece incomodá-lo. A luz que atravessa sorrateira pequena fresta entre as cortinas da janela e ilumina desde sua fronte ao queixo, não parece deixa-lo sequer desconfortável. Isso é perceptível porque, apesar de cerradas, suas pálpebras não estão se espremendo, e suas mãos não se movem em mísera tentativa de bloquear a claridade.

O tom de pele do homem é opaco, impreciso, mas isso não é sempre assim: há dias em que nota-se um pouco mais de vida em suas cores. Parece que, muito raramente, ele lembra-se de limpar-se, de tratar-se, de ter o mínimo cuidado consigo mesmo. Ontem à noite foi uma dessas raridades; antes de sair de casa, ele exalava o cheiro de algum perfume amadeirado.

Na maior parte do tempo, o odor que chega de seu corpo é sempre o mesmo: vômito misturado a outras coisas mais que não sei afirmar o que são.

Finalmente ele parece respirar melhor, os caminhos dentro de sua matéria devem estar mais vagos agora. Também a luta para abrir os olhos se encerra, ambos se escancaram, e todo o corpo paralisa; encaro então os mesmos globos que sempre me inquietam toda vez que os vejo, embora eu nunca transpareça nada. Vácuo eterno e distante, é o que se enxerga diante das cortinas abertas deste homem. Seu olhar não busca coisa alguma, não tenta adaptar-se ao ambiente em que se encontra assim, tão de repente, não se envolve em nenhuma confusão de primeiro momento, a contradizer todo o tempo em que estivera inconsciente e também o fato de quase ter morrido afogado no próprio dejeto.

Não. É como se tudo isso fosse de total indiferença, ou mesmo inexistência. Nesse momento a luz invasora penetra bem fundo em sua pupila, e da mesma forma nada acontece. O homem não reage. Por um bom tempo, permanece deitado ali, sem visivelmente mexer um único músculo. Fitando todo o seu nada, que é também tudo o que lhe pertence, ao passo em que a saliva escorre da boca entreaberta, desenhando caminho de acordo com as curvas, acumulando-se em torno das bochechas e orelhas. Ele permanece nesse estado durante um longo tempo, se é que posso dizer assim, pois o tempo que conheço é sempre longo, independente de tudo. Lá fora, o mesmo age mais rápido, pois, a medida em que passa, a vida começa produzindo seus sons de costume, em sequência, cada coisa por vez, até que tudo se torne uma grande balbúrdia: os primeiros pássaros cantam, logo depois outros respondem, e assim vão criando diálogo e sintonia; em seguida, os automóveis iniciam de maneira crescente o tráfego cotidiano, o som destes passa a unir-se às conversas calorosas dos pássaros, e dessa forma a cidade manifesta sua existência barulhenta, contrastando com a mesmice silenciosa aqui dentro, neste lugar infértil, onde nada é capaz de nascer ou se desenvolver.

Como já deixei claro, o mundo lá fora não sabe sobre o homem que vive aqui. Suas condições são anônimas. Nada de sucessores ou partidários. É possível que ninguém jamais o tenha conhecido? Como uma decoração boba de longa data, talvez muitos seres vivos tenham passado diante dele, alguns acabando por vê-lo, mas sem dar importância. Percebê-lo deve ser como perceber aquilo que já se espera que esteja ali, preenchendo determinado espaço, tal qual um poste que existe onde faz sentido existir. Acredito que ninguém nunca realmente o viu, e por isso, ele não tem identidade; a vida além destas paredes é a mesma que se encontra nas páginas de um livro de fantasias: distante, inalcançável, e por mais que diversas vezes seja possível senti-la, não há chance alguma de tocá-la.

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