Vitorino Rodrigues – A palavra que precede o corpo

Tudo principia na própria pessoa

 

Vitorino Rodrigues é ator e profissional das letras; no Teatro tem lembranças de um inicial movimento desde a década de 90; com a literatura, as letras e a palavra, registro de uma “institucionalidade” em meados dos anos 80, mas com a filosofia a imaginação e a fantasia, desde que o corpo ainda menino caminhava pelos campos rodeados de verde, na infância quando ainda vivia afastado da cidade.

É sobre esse ponto que nossa conversa inicia, na realidade já iniciada há tempos, é sobre as referências que Vitorino traz da sua infância e que de alguma forma “justifica” a potência e cuidado com o qual faz seu trabalho hoje enquanto ator, seu compromisso com o teatro e com a palavra e sua imensa capacidade imaginativa.

Foto de Margareth Leite

É que na infância, nesse terreno fértil de imagens, com esse corpo que toca e é tocado por qualquer e muita coisa, é possível capturar olhares, sons e movimentos que vão nos guiando e abrindo espaços que se tornam nossos abrigos, mesmo na fase adulta. O corpo é um só ele só vai se preenchendo de mundo.

Vitorino aos 06 anos de idade muda-se para viver com parte da família  na capital, Teresina, tem lembranças de sentir o impacto da cidade no corpo, pois a premissa da mudança estava agarrada à ideia de focar unicamente nos seus estudos, neste novo lugar as ruas e as cores ganhavam outras texturas e impressões, nesse período não tinha tanto mais a liberdade que o mato proporcionava, e suas histórias eram criadas para dentro; talvez por essa razão, ao pensar sobre o que lhe mobiliza no teatro, Vitorino indica essa vontade de extravasar, de expurgar os demônios e as santidades das ficções que lhe habitam. Porque o Teatro surge como algo que tinha que acontecer.

Sempre gostou muito de criar histórias, a princípio não na escrita, não na palavra, mas no pensamento.

Tem sempre algo que precede a palavra, a esta coisa, chamamos de imaginação, como imagem em ação mesmo, não à toa, imagem em cena também cabem nesse pensamento; talvez por essa capacidade imaginativa, Vitorino viu seu caminho cruzar com o Teatro quase como se fosse regra, partindo de uma obstinação a principio tímida, mas cheia de vontade. E assim, quando pensa suas histórias para o Teatro já concebia o movimento, o olhar, o cenário, o fantástico.

Foto: Margareth Leite

Como na primeira vez que buscou contato com essa arte, o Teatro, mas antes de falar com aquele que parecia ser a ponte, desistiu, voltou, esperou pra que se achasse tempo melhor.

O tempo melhor veio, seu primeiro trabalho foi em Barrela; Vitorino conta que nas construções para este trabalho, texto de Plinio Marcos e direção de Adalmir Miranda, seu mecanismo era, assim como na infância, caminhar pelas ruas de Teresina e pensar nos trajetos da própria história, no personagem “Portuga”. Caminhava também para trazer a palavra ao corpo, pois precisava chegar numa sinuosidade da fala da personagem, e assim criou-se curvas no texto para organizar ele na boca. Conta também da experiência de insistir neste trabalho que durou 02 anos até sua estreia, pois sentia que aquele era um trabalho importante a ser feito, como um trabalho que fosse lhe parir, lhe confirmar no ofício. Vitorino é um homem do Teatro.

Um de seus mecanismos enquanto ator é deslocar o dizer do lugar, da geografia mesmo, falar palavras que não cabem dentro de espaços, ou que não são comuns por lá, desacostumar o corpo e o lugar da palavra.

Foto – Anônimo

 

Também conta que um de seus motivos ao trabalhar com alguém se dá no desejo quase antropofágico de aprender da pessoa; não à toa relata que uma de suas experiências estéticas mais marcantes na época em que pensava a recepção no lugar de plateia, foi ver um espetáculo também dirigido por Adalmir Miranda, chamado Álvaro de Campos em pessoa; esse trabalho mesclava duas paixões de Vitorino, o Teatro e a poesia. É, Vitorino também é um homem de palavra.

E a Palavra é um grande trunfo também para este ator e professor; é que a palavra para Vitorino, acontece como fundamento, é sempre uma coisa a ser comunicada, falada, jogada no mundo. As histórias que seguiam à medida em que Vitorino adquiria outras vistas, à medida em que ia crescendo, aparentemente, de forma poética foram gravando dentro de si as trilhas dos desejos até que fossem expostas, saíssem de dentro pra fora; “tudo era apenas uma brincadeira, e foi crescendo, crescendo” … assim eram as histórias que Vitorino imaginava quando criança, foram aparecendo nas palavras, se materializando na cena e retornando à ele no corpo dele, que é ator. Tudo principia na própria pessoa e é pra onde tudo volta também.

Foto: Festival de Teatro de Curitiba

 

CRONOLOGIA DOS ESPETÁCULOS

 

1996: BARRELA

Grupo Corpos Teatro Independente

Texto de Plínio Marcos

Direção de Adalmir Miranda

Função: ator

 

1998: MARCADAS PELA CULPA

Grupo: OX17

Texto de Isis Baião e adaptação de Adalmir Miranda

Direção de Adalmir Miranda

Função: ator

 

1998: PROJETO TEATRO PARA VESTIBULAR

Grupo: Alla Teatro e Dança

OBRAS: O tempo consequente, de H. Dobal; A jangada de pedra, de José Saramago; Lírica de Camões, de Luiz Vaz de Camões; Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; e Ataliba – o vaqueiro, de Francisco Gil Castelo Branco.

Função: adaptação e ator

Direção: Ruidgland Barros

 

2000: PROJETO TEATRO PARA VESTIBULAR

Grupo: Alla Teatro e Dança

Obra: Um manicaca, de Abdias Neves

Função: adaptação, direção e ator

 

2001: PROJETO TEATRO PARA VESTIBULAR

Grupo: Alla Teatro e Dança

Obra: O alienista, de Machado de Assis

Função: adaptação

Direção: Ruidgland Barros

 

2002: DONA BRUXA FAZ A FESTA

Grupo: Alla Teatro e Dança

Texto e direção: Ruidgland Barros

Função: ator e assistente de direção

 

2005: UM BRASILEIRO NO CÉU

Grupo: Proposta de Teatro

Texto: Carlos B. Filho

Direção: Roger Ribeiro

Função: ator

 

2005: CIRCO DESMONTADO

Grupo: Personas de Teatro

Texto: Raimundo Dias

Direção: Roger Ribeiro

Função: ator

 

2008: 17 MINUTOS ANTES DE VOCÊ

Grupo: Truá Cia de Espetáculos

Direção: Eraldo Maia e Elielson Pacheco

Função: ator

 

2010: A CIDADE SUBSTITUÍDA

Grupo: Indigentes de Teatro

Texto: H. Dobal

Função: Direção

 

2010: O DIÁRIO DA BRUXA

Grupo: Proposta de Teatro

Direção: Roger Ribeiro

Função: ator e autor

 

2010: SOL SANGUÍNEO

Grupo: Indigentes de Teatro

Direção: Maneco Nascimento

Função: ator

 

2012: CIDADE ELÉTRICA e CASA NOTURNA

Grupo: All Street Songs

Direção: Márcio Felipe Gomes e Laura Alexandre

Função: ator

 

2013: BOA NOITE CINDERELA

Grupo: Cia de Dança e Teatro Conexão Street

Funções: autor, diretor e ator

 

2014: GELEIA GERAL

Grupo: Cia de Dança e Teatro Conexão Street

Funções: autor, diretor e ator

 

2015: QUANDO O AMOR É ASSIM E NÃO ASSADO

Grupo: Humanitas de Teatro

Direção: Júnior Marks

Função: operação de luz

 

2015: ESCOLA DE MONSTROS

Grupo:  Cia de Dança e Teatro Conexão Street

Direção: Márcio Felipe Gomes

Função: coautor e ator

 

2016: AS SETE IRMÃS

Grupo: Humanitas de Teatro

Direção: Júnior Marks

Função: ator

 

2017: DEPOIS DO FIM

Grupo: Truá Cia de Espetáculos

Direção: Silmara Silva

Função: autor e ator

 

2018: NOITE NUA DE ESTRELAS

Grupo: Coletivo (In)comum

Direção: Diomar Nascimento

Função: autor

 

2020: O QUE TE ESCREVO É PURO CORPO INTEIRO (VIRTUAL)

Grupo: Truá Cia de Espetáculos

Direção: Wellington Júnior

Texto: Nathan Sousa

Função: ator

 

2021: O QUE TE ESCREVO É PURO CORPO INTEIRO (PRESENCIALL)

Grupo: Truá Cia de Espetáculos

Direção: Wellington Júnior

Texto: Nathan Sousa

Função: ator

 

2021: SEM HORA

Texto, atuação e direção: Lucas Abá

Função:  operação de som

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