VOAR, de Paulo Narley

Foto: José Ailson (@um_ze)

Se viu pela tela vazia. Não reconheceu o seu rosto, ou talvez sim. O escuro era cada vez mais frio dentro de si. Pertencer já não era um sentimento havia muito. Havia muito no mundo, e o peso dos dias fazia morada naqueles ombros magros demais.

Com muito esforço, saiu da cama e pôs a vida para andar. O dia seria longo e ele já se sentia exausto. A casa estava silenciosa, diferentemente da noite passada em que gritos corriam pelos corredores e quebravam copos e xícaras e paredes, e cada caco que corria o ar acertava em cheio o meio de seu peito. Na cozinha, encontrou a mãe ainda sentada na mesma cadeira da noite passada. Ela o olhou e dentro dos olhos dela ele viu um porão escuro cheio de vazios. Ela não o encarou por muito tempo, mas foram segundos suficientes…

Saiu de casa e a luminosidade ardeu nas vistas.

Um aperto era constante desde os últimos dias. Queria o fim. Da vida? Da dor? Talvez, de tudo? Não sabia bem…

Os gritos-facas continuavam ecoando em sua mente. Estava vazio e sozinho, apesar da multidão de corpos que corriam suas vidas apressadas ao seu redor, cada uma ao seu ritmo e com caminhos próprios.

Parou em frente a um dos edifícios mais belos da Avenida Frei Serafim. Aquela construção sempre exerceu sobre ele uma atração. Era cedo, o café que fica localizado no topo do edifício talvez ainda não estivesse funcionando, porém, decidiu subir até lá.

Subiu.

De fato, o café ainda estava fechado. Foi até o limite da construção. Sentiu-se perto do céu. Encarou o chão cinza. Lembrou-se de seu sonho de menino: voar. De repente, o vazio que viu nos olhos da mãe chorosa o invadiu e ele sentiu que não pertencia. E ele queria pertencer, de algum modo.

Deixou-se cair.

Caiu.

Estava voando, finalmente. Sentiu a brisa correr seu corpo. Libertou-se, então, das amarras de sempre e das correntes que tanto o prendiam. Libertou-se de si e dos medos. Em poucos segundos, fundiu-se à cidade. Tornou-se eternidade, entre freadas bruscas e gritos de socorro.

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