Fala Feito Homem, Rapaz!, por Diego Santos

É conveniente começar dizendo sobre mim – e, destarte, podemos, o leitor e eu, estabelecer algum intimismo aqui – porque, como a maioria dos garotos, garotas e garotes, fui bombardeado por exigências sexistas desde que “me entendo por gente”, como dizemos no Piauí. “Fala grosso, menino! Escuta teu pai falar, parece um besouro de tão grossa que é a voz.”, “Abre as pernas! Nunca vi homem de perna juntinha assim.”, “Engole o choro, tu já é um rapaz.”, entre outras reclamações desta natureza, foram algumas das primeiras “instruções” comportamentais que recebi dos mais velhos (sim, de minha mãe, tias e irmãs também).

Este texto não tem uma direta intenção de catarse, mas é, antes de instrutivo, terapêutico. Cada palavra aqui escrita compensará o silêncio que guardo como forma de proteção contra as asfixiantes demandas por macheza que o mundo, em quase todo canto, possui. E acredito, com bastante convicção, que este sentimento de sufoco é recorrente na maioria dos corpos masculinos.

É sobre todos os microcosmos, de cada indivíduo, que a constelação patriarcal, seguida de outras complementaridades opressivas, faz peso. O feminino é historicamente, culturalmente, socialmente, politicamente, religiosamente, neuroticamente alocado como o extremo oposto do masculino. E, como se isto não bastasse, posicionado como inferior às manifestações dos arquétipos de homem. Ser sensível, ser passivo, ser colaborativo, ser afetuoso, ser cuidadoso, são atribuições que, primeiramente por forças externas a nós, são de exclusividade das mulheres. À gente, ao “sujeito homem”, cabem, impositivamente, a guerra, a conquista, a força, a raiva, a territorialidade, o nó na garganta.

É desde bem cedo que a sobrecarga de lidar consigo e com o outro por vias do conflito, pelo caminho do embate, pela fuga do diálogo e o encontro com o soco, que entendemos que sentir não é para ser “nossa praia”. Detenhamo-nos um instante no que Scott, citando Nathalie Davis, tem a dizer sobre todo esse negócio de ser homem:

Eu acho que deveríamos nos interessar pela história tanto dos homens quanto das mulheres, e que não deveríamos trabalhar unicamente sobre o sexo oprimido, do mesmo jeito que um historiador das classes não pode fixar seu olhar unicamente sobre os camponeses. Nosso objetivo é entender a importância dos sexos dos grupos de gênero no passado histórico. (1989, p.3).

Então, está mais do que na hora de o “clube do Bolinha” tomar para si a responsabilidade, aproveitando o caminho que feministas têm aberto há um bom tempo, e exercitar, além de autocrítica, um processo de autoconhecimento, menos psicologizado e mais localizando o masculino e o feminino histórico-socialmente, para sacar como chegamos até aqui, presos em corpos enrijecidos, afogados em lágrimas contidas e sublimando nossas angústias em vícios e em violências das mais diversas, principalmente sobre corpos enxergados, por lentes da masculinidade nociva, como receptáculo das nossas descargas das energias obrigatoriamente acumuladas na alma.

Harém, inabalável desempenho sexual, sucesso financeiro, posição de liderança, conduta heróica, bons automóveis, bons imóveis, são alguns dos imperativos que nos atingem há bastante tempo. Ser homem é ser super-homem. Nem o advento da modernização do mundo conseguiu fazer prevalecer a liberdade tão evocada por modernistas dos séculos XVIII e XIX. Pelo contrário, a divisão sexual do trabalho moderno acentuou a distinção dos papéis de homem e de mulher. O âmbito privado é o recanto da passividade feminina, dos cuidados plácidos das mulheres; enquanto o ambiente público, que mais parece um perene campo de guerra, é a selva dos ferozes rivais homens. Nye enfatiza que,

Não é de exclusão simples e corrigível que os pioneiros do liberalismo falavam dos direitos do homem. O utilitarismo e a teoria do contrato social começam com uma teoria do homem. Os homens são egoístas, aquisitivos, competidores, anseiam pelo prazer. Os dispositivos que a teoria democrática propõe são para mediar o egoísmo desses homens e impedir que matem uns aos outros. (1939, p. 42).

Heleieth Saffioti (1987) cuidou em demonstrar como na sociedade de dominação tripartite em que vivemos, capitalista-sexista-racista, não há paz plena alcançável, porque a sociabilidade é condicionada por jogos de poder estruturados histórico-materialmente através das predefinições dos grupos na sociedade de classes, pois tais grupos têm interesses contraditórios. Homens dominam mulheres tanto quanto brancos dominam negros e capitalistas dominam trabalhadores(as). Fazendo com que homens oprimam outros homens, mulheres busquem mecanismos para se sobreporem aos homens de algum modo (mulheres brancas oprimindo homens negros, por exemplo), ou se colocarem acima de outras mulheres. Tal qual negros e negras busquem sujeitar brancos e brancas a algum tipo de subserviência (objetificando mulheres e homens brancos, por exemplo) e as classes sociais se encontrem em constante conflito sócio-político-econômico. No “frigir dos ovos”, a superestrutura, a forma como produzimos, materialmente e espiritualmente, as condições nas quais vivemos, fazem-nos reproduzir todo o jogo de “gato e rato” sobre o qual Saffioti (1987) se debruçou para compreender e tão bem expôs.

E agora?! Com tanta pressão do mundão aí fora para que cumpramos papéis tão “bem” desenhados e prescritos, cadê fôlego para encontrarmos no desejo de sermos menos estátuas e mais móveis, menos estáticos e mais fluidos, menos inércia e mais movimento, o contingente libertador? Porque, como tão bem verificou Scott (1999), “identidades de grupo definem indivíduos e renegam a expressão ou percepção plena de sua individualidade” (p. 15).

Aí é que tá! As alternativas de libertação estão tanto nas mudanças que podem e devem ser feitas nas estruturas de fora de nós (economia, política, cultura), quanto nas estruturas de dentro (espírito, alma). Tais forças, externas e internas, precisam ser articuladas concomitantemente para que a metamorfose seja integral. Distante da “receita da torta” para que os grilhões das opressões – e, no caso específico que tratamos aqui, as que infligem limitações e dor sobre os corpos masculinos – sejam arrebentados, trago a prerrogativa de Andrea Nye (1995), a respeito das revoluções ambivalentes, que ocorrem de dentro para fora tanto quanto de fora para dentro:

O marxismo, em sua análise das estruturas econômicas, revelou a práxis da revolução de base material: talvez de um modo igualmente não-utópico as análises freudianas pudessem levar a uma práxis do espírito, uma práxis que fosse às origens da simbolização comunal de modo a rever a própria noção de diferença sexual. (p. 149).

Desse modo, a autora, em sua defesa da teoria freudiana como ferramenta poderosa no combate às simbologias que premeditam cristalizar os locais essencializados dos gêneros, dá-nos fôlego para pensarmos como os indivíduos, em suas relações consigo tanto quanto em suas relações com os outros, podem trabalhar para que consigam acessar, em suas mentes, o campo das representações do eu dadas pelas hegemonias sociais e se “embrenharem” nestas, mudando-as indo ao encontro da autolibertação, ao passo em que corroborem a libertação coletiva.

O barato maior que podemos tirar de tudo isso que foi escrito aqui é a percepção de que estamos constantemente entre o espírito coletivista e o espírito individual. Forças certamente não excludentes, mas que se elaboram mutuamente. IDENTIDADE é a palavra-chave para a compreensão do porquê de tamanho encapsulamento de corpos femininos e masculinos ao longo da História humana. Vejamos:

A Identidade do indivíduo é construída pela necessidade de sobrevivência, bem como as intrínsecas variabilidades das relações sociais, e sua delimitação do contexto espaço e tempo em que o sujeito está inserido. A Identidade também se expressa, conforme reflexões de Jacques (2006), como uma maneira de cada indivíduo se tornar algo em uma composição de grupo, etnia, raça, gênero, família ou profissão, em que o igual e o diferente convivem simultaneamente. (SANTINELLO, 2011, p.3).

  A casca que denominamos corpo é limitada e limitante enquanto o movimento interno-externo não é iniciado para que agente e estrutura dancem um tipo de coreografia ao som de alguma melodia melancólica, mas que pode ser finalizada numa feliz relação entre dois personagens enamorados interpretados por bailarinos que, no caso específico da relação entre corporeidade e gênero, seriam o próprio indivíduo e o seu eu cativo e maltratado. Sua essência é construída de maneira análoga aos passos e interpretações de balé, pelas experimentações, como nos demonstra Santinello através de Marx:

O homem não tem essência; a essência dos homens são as relações sociais. O homem faz sua própria história. Não é a consciência que delimita o ser, é o ser social que delimita a consciência. O homem que conhece também transforma. (2011, p. 6).

Masturbe o corpo imaterial e gozarão, matéria e espírito, de liberdades que, por causa de sugestões alheias sobre a formação de sua conduta, nunca imaginou poder vivenciar. Não somente ou principalmente sobre sexualidades, porém, todavia, entretanto, sobre completude, sobre aceitação de si, mesmo que isso implique reconhecimento de muitas fraquezas. Distante, a milhas e milhas da intenção de autoajuda, estas últimas “prescrições” são, antes de convencimento do interlocutor, um autoconvencimento. Como eu disse no início, antes de instrutivo, este texto é terapêutico.

 

Referência Bibliográfica

 

NYE, Andrea. Teoria Feminista e as Filosofias do Homem. Tradução de Nathanael C. Caixeiro. – Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1995.

SAFFIOTI, Heleieth. O Poder do Macho. São Paulo: Moderna, 1987. (Coleção Polêmica).

SANTINELLO, Jamile. A identidade do Indivíduo e Sua Construção nas Relações Sociais: pressupostos teóricos. Rev. Estud. Comun. Curitiba, v. 12, n. 28, p. 153-159, maio/ago. 2011.

SCOTT, Joan. O enigma da igualdade. Rev. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 13(1): 216, janeiro-abril/2005.

SCOTT, Joan. Gender: a useful category of historical analyses (Gênero: uma categoria útil para análise histórica). Gender and the politics of history. New York, Columbia University Press. 1989.

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4 comentários
  1. Caramba!
    Gostei muito da forma como equilibrou a linguagem mais rebuscada e acadêmica com a mais informal e, portanto, intimista. Assim consegui te acessar pessoal e teoricamente.
    Parabéns pela estreia no projeto Geleia. Ih, rimou.

    1. Que bom que ficou evidente a intenção de fundir a escrita formal e informal. Lélia me afetando com seu pretuguês rs O texto trouxe bastante de mim, pessoalmente e intelectualmente. Foi justo esta a intenção. E obrigado pela congratulação em rima hehe

  2. Gostei muito do seu texto a simbiose do informal com o formal foi que de indício chamou a minha atenção e senti uma certa influência de Leila González eu acho que o nome dela e esse kkk
    Parabéns tenho muito orgulho de lhe chamar de amigão

  3. Manjou o negócio, Britão! Haha Essa foi realmente a intenção. Lélia tem sido minha principal escola de escrita. Vlw pelos elogios e também lhe admiro. Nem imagina o quanto. Abraço!

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