Num se Pode, por Rafael Noleto

Não se pode! Não se pode!
Não se pode duvidar
Da Miota que vagava
Pelas noites a fumar

Vestida de branco,
De saia e tamanco
Passeava em Teresina
Altas horas da matina

Roupa furada, que arrasta na rua imunda
É alma penada de olheira profunda
Com a Miota ninguém pode
Nem humano, nem capote

Se ela pedir um cigarro
Desconfie sem receio
Faça o sinal da cruz
E saia logo do meio

Quem dá o que ela pede
Vê uma aparição de porte
Que mais de três metros mede
E acende o fumo no alto do poste

A marmota de olhar triste
Depois de se esticar
Vai declamando uma frase
Que repete sem parar

Não se pode! Não se pode!
Isso é assombração
Sai soltando baforadas
Xexelentas feito o cão

Seu sumiço repentino
Serve pra confirmação
De que a mulher gigante
É mesmo uma assombração.

Arte de Rafael Noleto
TEXTO
(Do livro “Mitologia Piaga, Deuses, Encantados, Espíritos e outros Seres Lendários do Piauí”. Clube de Autores: 2019. Pág. 478).
“Num-se-pode” é como ficou conhecida uma assombração fantasmagórica cujos primeiros relatos datam de 1845[1], quando foi vista na cidade de Oeiras, antiga capital piauiense. Ela também aparecia na cidade de Teresina, perambulando pelas praças e ruas desertas da nova capital. Com aparência de uma mulher alta e magra, de vestidos brancos ou vermelhos, era vista sempre às altas horas da noite.

Conta-se que quando alguém a encontrava, a mulher pedia logo um cigarro. Geralmente, ao entregar o cigarro para o fantasma, a pessoa era tomada por curiosidade e perguntava o nome da mulher. Mas pelo visto tinha um grande mistério envolvendo o nome daquela visagem, pois quando era indagada, sua expressão mudava e ela começava a se esticar, crescendo até atingir a altura dos postes.

Quando já estava enorme, a mulher acendia seu cigarro e, ao invés de responder seu nome, apenas gemia com uma voz melancólica e aterrorizante: “Não se pode, não se pode …”

A mulher repetia de maneira prolongada essa expressão, enquanto ia se afastando e sua imagem se dissipando no ar. Quando a pessoa piscava o olho, já não conseguia mais ver a tal assombração, o que causava grande sensação de terror. Por conta da frase que sempre repetia, ficou conhecida como “Não se Pode”, ou “Maria Num se Pode”. Também é chamada pelos nomes de “Moita” ou “Miota”.



[1] BRITO, Bugyja. Jornal O COMETA (março de 1976)

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