Conheçam o Dossiê da Produção Tradicional e Práticas Socioculturais Associadas à Cajuína no Piauí

“A alimentação é uma atividade cultural, permeada por crenças, tabus, cerimônias e rituais de distinção. Expressa a forma de relacionar natureza e cultura, delimitando territorialidade entre grupos distintos e especialização de funções sociais. A carga simbólica dos alimentos influencia, além da escolha de algo como comestível, suas condições de produção e consumo, tornando-se, em determinados contextos, desejável ou indesejável, benéfica ou nociva. Dessa forma, o simbolismo alimentar tem sido a matriz a partir da qual as diversas tradições fazem suas escolhas alimentares, variando também as formas como os alimentos são cultivados, colhidos, preparados, servidos e ingeridos, desenhando campos simbólicos particulares e apresentando estruturas rituais específicas.

As preferências e símbolos alimentares não são entidades estáticas. Os alimentos são muitas vezes reinventados em decorrência de interdições históricas, mercadológicas ou técnico/científicas, colocando em movimento a sociedade como um todo e suas instituições (POULAIN, 2003). Comer é antes de tudo um ato social gerador de convivência, servindo também como marcador identitário de pessoas e grupos. Através da organização dos hábitos alimentares, os grupos humanos socializam seus membros, organizam seu cotidiano e demarcam tempo e espaço. Assim, os padrões alimentares e especialmente determinados alimentos são fundamentais para a formação da identidade coletiva e individual.

A cajuína é uma bebida não alcoólica, feita a partir do suco do caju separado do seu tanino, por meio da adição de um agente precipitador (originalmente, a resina do cajueiro, durante muitas décadas a cola de sapateiro e atualmente, a gelatina em pó), coado várias vezes em redes ou funis de pano. Esse processo de separação do tanino do suco recebe o nome técnico de clarificação, e o suco clarificado é então cozido em banho-maria em garrafas de vidro até que seus açúcares sejam caramelizados, tornando a bebida amarelada, podendo ser armazenada por períodos de até dois anos. Normalmente, as garrafas de cajuína são produzidas em pequenas unidades familiares de fundo de quintal, e mesmo com a ajuda de homens e de vários membros da família e empregados, as atividades são capitaneadas por mulheres, muitas vezes recebendo o seu nome (Cajuína Dona Dia, Dona Júlia, Dona Jesus, Lili Doces, da Vovó, Cajuína da Vovó Lia etc.). As garrafas de cajuína atualmente são vendidas, mas historicamente eram servidas e dadas como presentes para as visitas, em especial para os “filhos-da-terra que retornam à casa” depois de longos períodos fora do Estado por motivos diversos (estudos, emprego no serviço público, migração etc.) ou simplesmente para amigos e parentes. Além de servida a todos os visitantes, a bebida é servida em festas de aniversário, casamentos e outras celebrações. O advento dos refrigerantes fez a produção e o hábito de a cajuína se retrair, mas da década de setenta para cá houve uma retomada e valorização significativa do costume.

Embora a cajuína seja considerada um “refresco”, distanciando-se das bebidas etílicas, o seu consumo constitui um ato de degustação, geralmente acompanhado de comentários sobre a qualidade diferenciada de cada garrafa aberta, o que a aproxima, dessa forma, do vinho. Esse ato de degustação é pautado nas diferenças que cada garrafa apresenta: seja na doçura e cor, na cristalinidade, na leveza ou densidade que derivam tanto da qualidade do caju utilizado quanto das técnicas de cada produtora. Cada cajuína reúne um conjunto de características que o consumidor experimenta e analisa, facilmente reparando nas modificações de um ano para o outro ou de uma senhora produtora para outra. A conversa e comentários feitos sobre a cajuína degustada comumente implicam na comparação com outras, produzidas em outras casas, e muitas vezes terminam com elogios e manifestações discretas de orgulho por parte da produtora. Mesmo sendo uma bebida, a cajuína assume o simbolismo de alimento e está inscrita na mesma tradição de doces, biscoitos e outros saberes prendados cultivados para o abastecimento do lar no Nordeste.

Inserida em rituais de hospitalidade de um povo que se atribui a qualidade de ser hospitaleiro, o ato de servir a cajuína reforça vínculos de reciprocidade de tal forma que deve ser compreendido dentro da lógica do dom e contradom. Uma série de valores como a cristalinidade, a pureza, a higiene, a limpeza, o cuidado e o talento feminino de “mulheres prendadas” são atribuídos à bebida, constituindo atributos que são transferidos à família e ao lugar de origem: a cajuína de Dona fulana, a cajuína de Valença ou de Amarante…6 No entanto, constatamos que esse universo feminino revela outras qualidades atribuídas à mulher produtora, tais como o empreendedorismo e a “coragem para trabalhar”, a capacidade de gerenciar empregados, fazer muitas coisas ao mesmo tempo, lutar ao lado do marido, colaborando com o suprimento da família, que também analisaremos nesse estudo.

É clara a identificação com a cajuína por parte da população piauiense, em especial as camadas de proprietários de terra e funcionários públicos ou empresários com maior nível de renda.

Essa identidade se traduz em nomes de ruas (Avenida Cajuína); o recém-inaugurado Hotel Cajuína, celebrações (Corrida “Volta da Cajuína”, seletiva piauiense para a Corrida de São Silvestre, em São Paulo/SP); nomes de bares (Bar Cajuína, na Avenida Dom Severino) e até lojas de eletro/eletrônicos (no Bairro São Cristóvão). Além de projetos de grêmios acadêmicos (Projeto Cajuína de Assistência jurídica à população de baixa renda pelo C.A. de Direito da UFPI ou o Projeto de Seminários “Cajuína Sociológica”, que discute questões sociais locais, organizado pelo Departamento de Ciências Sociais da UFPI). Vale afirmar que o apelido de “cajuína” conferido à BBB Gisele Soares, por Pedro Bial, no ano de 2008, é um dado importante, pois revela a identificação feita pelo público externo entre a cajuína e o Piauí. O fato de empresários locais terem contratado a celebridade para a publicidade de empreendimentos imobiliários em outdoors da cidade e referirem-na com o apelido confirma o modo reflexivo com a qual as identidades internas são reforçadas pelo reconhecimento externo, no caso, favorecido pela mídia televisiva e de massa.”

Fonte: “PRODUÇÃO ARTESANAL E PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS ASSOCIADAS À CAJUÍNA NO PIAUÍ”

http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/87

Coordenadora da pesquisa: May Waddington Telles Ribeiro

Arte: Carlos César

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