Como Teresina Joga?

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Revisão: Joana Tainá

O dizer “Tempo é Dinheiro” nunca foi tão verdade quanto para as crianças brasileiras que nasceram nos anos 90 e começo dos anos 2000, pois aquela moedinha guardada durante uma semana se tornava, com muito júbilo, em uma ou duas horas desfrutando dos jogos da locadora mais próxima. Era a regra: 1 hora é 1 real, mas essa regra foi mudando com o tempo, a partir das mudanças econômicas e da chegada de novidades no mundo dos games e hoje, escassas são as locadoras de videogame, tão presentes outrora. Mas a pergunta que fica através de todo esse tempo e de todas essas mudanças é: como Teresina joga?

Tudo começou com a crescente modernização da capital do Piauí. No fim dos anos 90, surgiam as primeiras lan-houses, lugares que hoje são remotos, mas que em tempos atrás era um lugar importante para quem precisava imprimir algum e-mail ou documento, tirar xerox, e principalmente, usufruir da tão pouco conhecida Internet. A popularização desses lugares trouxe os teresinenses para mais perto do ambiente virtual e, acompanhando em passos semelhantes, outro point surgiria a partir da mesma função que, para muitos, tinha o entretenimento oferecido pelas lan-houses: as locadoras de videogame.

            Fui proprietário de uma locadora de vídeo game no início dos anos 90, no que viria se tornar as atuais lan-house, e vi toda a mudança de quem gostava de fliperama migrar pra essas locadoras por questão financeira que era bem mais em conta porque era baseado em horas ao invés de do fliperama que era ficha… Nas locadoras era basicamente amigos que rateavam uma tarde inteira onde dava pra praticar muito mais e com o advento de sempre poder continuar de onde parou coisa que no fliper não era possível e como proprietário e por ser localizada no centro de Teresina era visível como era totalmente democrática a frequência, iam desde pessoas já dos seus 40, 50 anos quanto crianças de 8 anos, brancos, negros, pobres e ricos se misturavam nesses ambientes onde tinha muita rivalidade contudo muito respeito e colaboração e troca de conhecimentos afim de vencer o jogo ou “zerar o jogo” como os jogadores preferem dizer. – Hércules Patrício Cavalcante, antigo proprietário da locadora Mega Ness, que ficava na Aereolino de Abreu Galeria Center.

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Capas e artes de jogos coladas na parede ou presas por fita crepe, cadeiras de plástico dispostas de frente para as televisões e uma penca de crianças, algumas focadas e outras gritando, era essa a imagem de uma locadora de games nos seus tempos áureos. Mas, tão como as já mencionadas lan-houses, onde elas foram parar? O que aconteceu? Bem, o que aconteceu foi a acessibilidade, palavra que define como jogos são consumidos hoje.

As locadoras existiram e existem, ainda que em número mínimo, pois eram uma alternativa para trazer cultura para as pessoas, a partir de um preço mais próximo da realidade da população. Um filme em Blu-ray está na faixa dos 100 reais mas, se uma locadora disponibilizar o mesmo filme, por 3 reais durante 2 dias, sai obviamente mais em conta. Em Teresina, o cidadão da classe média e baixa tem que se preocupar com tantas coisas que pouco sobra pra adquirir um meio de entretinimento, por isso, alugar era a melhor saída. Entretanto, com a maior facilidade que a classe média e baixa foi ganhando durante os anos 2000 para adquirir bens-materiais, junto da popularização do computador, os pregos foram batidos nos caixões das finadas locadoras e lan-houses.

            Logo o fenômeno das locadoras de jogos, com espaço para a disputa no próprio lugar da locação, encontrou no aperfeiçoamento do modelo do aluguel de filmes uma forma de negócio ainda mais absorvente. Jogar é parte da vida. O próprio desafio de superar cada dia, em seus momentos de instabilidades e circunstâncias, recompensa as vivências com o sabor das memórias. A lembrança, esse tipo especial de concretização do tempo, vai tornando nosso fio de células em permanente recapitulação de episódios vividos ou projetando os sonhos que nos movimentam. – Trecho de uma crônica de Dilson Lages Monteiro, renomado autor piauiense. 

Em Teresina e, de modo geral, no Brasil todo, ter um computador e acesso a internet se tornou necessidade. Computadores foram se tornando mais acessíveis, empresas de internet foram surgindo, e com isso se aproximou do gamer uma ferramenta muito útil e conhecida até hoje: a emulação. Com um bom ou médio computador, você facilmente conseguiria jogar, na maior parte do tempo de forma pirata, os mesmos jogos que precisava pagar nas locadoras. Por isso, lentamente as cadeiras das locadoras foram esvaziando, os videogames empoeirando, e cada vez mais crianças deixavam de juntar moedinhas pra sair no fim de semana pois, em casa, havia chegado o novo e desconhecido computador.

Mas calma, elas ainda existem. O acesso a internet de qualidade e a um bom computador ainda não são realidade para todo brasileiro, principalmente num momento de tamanha discrepância de qualidade de vida, baixo salário e altos custos de vida.  Lan-houses e locadoras continuam por aí, só que em baixíssimo número e, muitas vezes buscando um atendimento diferenciado, tentam inovar com boas infraestruturas.

Até o fim da década de 2000, computadores pessoais e acesso a Internet já estavam mais populares, algo que cresceu mais e mais durante a década de 2010. Com isso, a emulação se popularizou, mas também deu margem para o fortalecimento de um tipo de jogador ainda não muito conhecido em terras teresinenses: o Pc Gamer.

No mercado de publicação de jogos, existem aqueles que são feitos para consoles (ou videogames) e existem também os feitos para funcionarem em computador, facilmente encontrados naquelas revistas que vinham com CDs antigamente, que eram vendidas nas padarias ou papelarias próximas da sua casa. Posteriormente, o acesso a internet arremata essa disputa, colocando a disposição quase tudo do que saía, tanto para consoles quanto para PCs, ainda que muitas vezes de maneira pirata. O usuário do computador tinha acesso a uma altíssima gama de entretenimento e, caminhando em passos intrínsecos, se popularizou o que hoje é o ponto de encontro de todo PC Gamer: a Steam.

A Steam nada mais é do que um grande Teresina Shopping de Jogos, só que virtual. Trata-se de um programa de computador que funciona como uma loja onde todos os jogos para computador, inclusive lançamentos, são publicados para venda; o usuário escolhe um título, paga por ele, e recebe o acesso ao jogo através do download. A ideia havia começado como algo pequeno, feito exclusivamente para ser um serviço online de um ou outro jogo, se tornou monumental e se estabelece hoje como uma das mais conhecidas. Existem também outros serviços que prestam atividades semelhantes, como a Epic Games Store e a GOG, mas a grande fatia dos acessos e interações continua na Steam.

A conquista da Steam como principal lugar para comprar jogos virtuais é louvável, só que como já foi lembrado antes, computadores e internet são caros, principalmente de boa qualidade para rodar jogos mais complexos, então entra em cena o mais novo e acessível concorrente ao PC e ao Console: o Celular.

A portabilidade encontrada nos celulares é de causar inveja, nele você conversa pelo WhatsApp, ouve música pelo Spotify, assiste séries pela Netflix, e atualmente também pode desfrutar de jogos que ganham cada vez mais renome por sua acessibilidade, como por exemplo o Free Fire. Além disso, o celular rompe as barreiras de sexo, tendo em vista que o público em locadoras era majoritariamente masculino e o machismo estrutural que impede que pessoas de outros gêneros possam desfrutar do mesmo tipo de entretenimento, o celular se aproxima delas demonstrando que essa abertura no espaço é uma necessidade e um resultado de um ambiente moldado pela acessibilidade.

Então, como Teresina joga? Teresina joga quando os alunos de uma escola pública se juntam no fim do dia para fazer um torneio de Free Fire no celular. Teresina joga quando uma menina chega ao seu grupo de amigos para comentar alguma build e dizer que jogar League of Legends é muito legal. Teresina joga quando um grupo de colegas se junta pra arranjar 6 reais e passar um bom tempo se divertindo numa locadora, jogando os grandes lançamentos de um PlayStation ou um XBOX.

O número de jogadores de todos os gêneros, seja de quaisquer plataformas já citada, vem aumentando bastante. Os novos métodos vêm sendo conhecidos, o acesso a sites como a Steam, um ou outro videogame que fica mais barato, e até mesmo os mais novos serviços de assinatura de jogos, como o Xbox Game Pass, que funcionam como uma Netflix dos Jogos. E com isso, vemos que Teresina joga, acima de tudo, com acessibilidade.

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