Festival de música do Parque Piauí (1975-1984)

“Mais um Festival Musical – Parque Piauí: Estão em franco andamento os trabalhos de preparação do 6º festival de música Popular do Parque Piauí – FESPAPI”. (detalhe do Jornal dos Bairros de junho de 1980)

Por cerca de dez anos, aconteceu na Zona Sul de Teresina o Festival de Música do Parque Piauí (FESPAPI). Apesar de se situar em um período conturbado da história do Brasil, o evento foi organizado por estudantes secundaristas (Ensino Médio) e por professores. Um dos nomes que se destacou à frente do evento foi o de Francisco das Chagas Venâncio, um professor de matemática.

A primeira edição do Festival de Música, que aconteceu na associação dos moradores do bairro, criou em 1975 um espaço para novos compositores e intérpretes mostrarem seus trabalhos. As coisas funcionavam meio no improviso, meio na luta.

Como não havia uma aparelhagem de som oficial, usava-se a das bandas contratadas para todos que participavam do Festival, inclusive nas fases do concurso de músicas autorais. O auditório, por sua vez, era montado com as cadeiras de uma escola do bairro (Colégio Professor Madeira). Os artistas se viravam do jeito que podiam, alguns equipamentos eram feitos à mão.

As edições seguintes do FESPAPI saíram do espaço da associação dos moradores, que era uma casa residencial, para ocuparem o prédio do CSU – Centro Social Urbano.

Em 1975, o bairro não tinha feito nem sequer dez anos de existência. Inaugurado em 1968, o Parque Piauí foi um dos primeiros conjuntos da Cohab (Companhia Habitacional) da cidade. Logo de início, já veio marcado como um bairro proletário e com varias dificuldades na ocupação devido à falta de infraestrutura. Além disso, entre o conjunto e o centro da cidade, havia cerca de 7 km cheios de “espaços vazios”, o que causava um distanciamento da população com as outras partes de Teresina.

E foi com todos esses problemas de infraestrutura e de isolamento, além do fato de estarem no meio de uma ditadura (1964-1985), que a população se juntou para fazer um festival de música e movimentar culturalmente a cidade. As canções tratavam do contexto do país à época, falavam sobre política, repressão. Usavam-se da arte como forma de protesto e luta.

Na sétima edição (1981), gravaram um disco de vinil com as músicas vencedoras do concurso que se desenvolvia durante o festival. Outras canções, entretanto, não conseguiram chegar até os dias de hoje e se perderam no tempo sem um registro em áudio.

Em 1984, o FESPAPI teve sua última edição e se despediu do cenário cultural de Teresina após ter aberto as portas para inúmeros artistas ao longo desses 10 anos em que esteve em atividade.

O Festival de Música do Parque Piauí, hoje, sobrevive em algumas fotos, citações em currículos artísticos, referências em jornais da época, em um ou outro trabalho acadêmico (só encontrei quatro pela internet). A cada ano que passa, as histórias orais sobre o Festival, aos poucos, vão se perdendo. A memória, hoje, é resistência.

Fontes

A cidade e a música popular: Teresina e os espaços de prática musical nos anos 1980 (Hermano Carvalho Medeiros). Revista Vozes, Pretéritos & Devir.

Dissonâncias saborosas: As identidades juvenis em Teresina entre a Cajuína e a Coca-cola (Paulo Ricardo Muniz Silva e Edwar de Alencar Castelo Branco). In História & Música Popular. Editora Gráfica da UFPI.

Genealogia, morfologia, dinâmicas e produtos do rock independente de Teresina no início do século XXI (Thiago Meneses Alves). Tese de Doutorado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Nas margens da modernidade: música e percursos de memória em Teresina (anos 1980) (Fernando Muratori Costa). Tese de doutorado em História do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense. 2019.

A produção do espaço urbano e a moradia popular em Teresina (PI) (Ângela Oliveira Vieira e Antonio CardosoFaçanha). XVIII Encontro Nacional de Geógrafos: A construção do Brasil: geografia, ação política e democracia. 2016, São Luís/MA.

Jornal dos bairros: http://www.cpvsp.org.br/upload/periodicos/pdf/PJALTPI061980016.pdf

 

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