Monólogo da Serpente em Agonia

– A bolha minúscula e decrépita lentamente começa a inflar através do ar que dos pulmões me escapa, de meu lânguido corpo em algum secreto lugar, no pântano em que meu sangue sempre vai desaguar. Os sinos distantes de alerta passam a soar como ensurdecedor alarme de emergência; vibrações, antes calmas, viram terremotos de indizível violência, e a já inquietante garoa se transforma em aguaceiro grosso, terrível.

Enquanto um inverno fatal chega por baixo, de súbito, e vem subindo, espraiando-se, tornando esse mundo inabitável; no topo, furacões de pensamentos deixam a situação confusa e instável, e quimeras, entre si e contra as paredes, ricocheteiam-se em agonia.

A velocidade com que se enche a bolha aumenta rapidamente. Pânico ainda contido tenta escapar pela fresta relutantemente em forma de entrecortados gemidos, curtos e abafados suspiros. Voltas e voltas dou em torno de mim, para escapar de mim…; e ela agora já se encontra viva, grande, vermelha, crescendo, provocando grotescas rachaduras na porcelana empoeirada e envelhecida através das ataduras, ao longo dos séculos em que se repete lamentável catástrofe nessa clausura.

Finalmente percebo que não me adianta mais correr; caio como já sem mísera gota de vida um ser; rolo pelo chão, tal qual um crânio milenar, interrompo ao lado de nada, em meio ao nada.

Os vulcões entram em erupção, dessa terra a morte é decretada. As lavas ferventes escorrem velozes pela face esquálida, espalham-se, por inteiro me encharcam; e sem nenhuma cerimônia espero liquefazer, porém as mãos trêmulas tocam, e nada se sente acontecer.

A bolha rompe a caixa lá dentro, reviro e contorço em resposta. Os estilhaços pontiagudos penetram nas paredes decompostas; ela vai tomando todo o espaço, infiltrando-se.

De repente o inverno se vai, sem mais nem menos, e a secura chega como que arremessada. As geleiras desintegram-se e transbordam, afogo-me em mim. É quando sinto aproximando-se o ato final: a bolha encontra-se em seu estado colossal, está prestes a estourar, e junto com ela, tudo quanto possa ser e estar.

Os terremotos intensificam-se; na forma de urro, desespero e pânico enfim escapam; os vulcões gargalham em diabólica diversão, enquanto vomitam pelos espaços oculares, ocos, que se ampliam, e a mandíbula despenca. O pântano parece tornar-se mais denso, impiedosamente complexo; as chamas ardem sobre os charcos, as quimeras caem todas mortas, as últimas estruturas sucumbem; por entre o lamaçal, esqueletos desmontados são revelados de diversas outras d’eu.

A bolha mostra-se determinada. Minha pele faz-se de farrapos ligados por cordões tênues prestes a se rebentar; não vai mais aguentar…

Vede: a transparência com que o seu vermelho sangue se compõe lá dentro, o ar comprimido, todo o meu oxigênio roubado. Seguro-me: é agora! O fim! Meus membros dão um último suspiro, arfo, ardo, queimo! O tecido estica mais, ultrapassando os tendões, que se partem…

Não!

Nada se parte, nada se rompe!

A bolha, em seu último estágio, volta à forma original: mísera, ressecada e incolor, devolvendo-me o ar como quem atira uma flecha; todas as outras desgraças desparecem como fumaça. A chuva de novo se faz calma, os vulcões silenciam, os olhos tornam a enxergar, os nervos normalizam, a cabeça esvazia…

Respiro profundo, com alívio; e para quê? Ouve-se um estrondo, enrijeço… devagar, a bolha retorna a inflar.

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