Uma experiência por: Buraquinhos ou o Vento é inimigo do picumã

Fotos: Victor Martins

À primeira vista o trabalho foi reconhecer os símbolos que são comuns nas minhas referências, aquele cenário parecia um parquinho, desses que encontramos nas praças ou parques públicos, geralmente em zonas periféricas de algum centro urbano, um escorrega, um gira-gira, tambores de 200 litros, sacolas de pão espalhadas pelo palco, ténis pendurados sobre o palco lembrando essas ruas próximas a escolas, onde os ténis se amontoam nos fios de energia elétrica, pipas e rabiolas também, e no início uma espera e um silêncio. Lugares como esses lembram de infância, de movimento, de brincadeira, era esse o tom no início do acontecimento cênico.

Lugares que crianças ocupam para gastar suas energias geralmente me chegam com a sensação de que as coisas vão bem, elas estão ali por uma brincadeira, pela possibilidade de expressarem suas metáforas e as suas fantasias. É isso que crianças fazem, elas brincam, porque elas podem brincar! Elas podem? Mas e quando estas crianças são crianças pretas? Bem, nesse caso elas ainda podem, mas com outra atenção, com outras urgências e outras inquietações.

Este espaço, o do parquinho, serviu de pano de fundo para ilustrar uma ação corriqueira, cotidiana, o caminho que se faz de uma casa até uma padaria, a ação era comprar pão. É isso que pessoas fazem, pela manhã ou no final da tarde pessoas costumam comprar pão. Mas e quando estas pessoas são pessoas pretas? Bem, elas ainda podem comprar pão, mas com outra atenção, com outras urgências e outras inquietações também.

Fotos: Victor Martins

Uma varrida na casa, uma música da banda Dejavú que se repete (não por acaso) 17 vezes, como se premeditasse uma grande catástrofe, repetia uma pergunta que dizia: “O que pensa que eu sou, se não sou o que pensou?” Essa pergunta foi ganhando contornos e sentidos quando assimilei que quem a fazia no inicia eram crianças, e eram crianças pretas, pergunta essa que poderia reforçar aquela outra pergunta dolorosa e obvia, também feita por uma criança preta, a pergunta era: “Mãe, ele não viu que eu usava o uniforme da escola?”

Pronto, estou localizado no cenário e no acontecimento cênico. No palco vemos três atores em cena, um músico e uma música compondo o cenário sonoro; os atores compartilhando falas que se misturam e corroboram pra um entendimento de que podem ser ali três personagens diferentes, mas podem ser o mesmo personagem, é uma criança que saiu de sua casa pra comprar pão.

 

Fotos: Victor Martins

Os atores narram o trajeto simples entre a casa e a padaria que naquele dia estava mais distante por causa do feriado; trajetos longos costumam ser perigosos! Os atores descrevem sensações, a mãe que permanece em casa e que faz o pedido da compra, a chegada na padaria, os braços sobre o balcão molhado e a sensação dos pingos d’água na pele.

O retorno para casa e no percurso um susto; um policial interrompe o trajeto perguntando: “Oh menor, que que cê tem aí nesse saco?” Os atores se dividem na descrição da abordagem que curiosamente me lembrou algo que vivi também, mais de uma vez, é que também sou um homem negro e nesse caso parece até que as referências de emoções são praticamente as mesmas, medo, desconfiança, susto, quando se está diante de um policial.

O “menor” corre, ali começa uma odisseia; vemos a descrição de um pular de muro; está tudo bem! os pães ainda estão na sacola, mas no corpo os atores descrevem furos de balas. Um corpo preto foi alvejado, mais um, o de uma criança.

Aquele cenário, o do parquinho, agora ganhava outras interpretações, o escorrega se transformou no muro por onde a criança pulou pra fugir do que a assustava, os tambores de 200 litros tornaram-se tanto um rio por onde um dos atores nadava, ainda para fugir, e também se tornou uma casa, onde no ilogismo daquela criança alvejada, representava o abrigo de uma família de Haitianos que suturaram os seus ferimentos e cuidaram dele.

Na casa a mãe ainda espera! O curioso é que a mãe sentia muita coisa, premeditava muita coisa e na maioria das vezes acertava, mas naquele dia, ela só desconfiou que algo não ia bem, quando à medida que fazia o café e esperava os pães, sentiu uma angústia no peito, uma vontade de ir até o portão pra ver o filho chegar.

Fotos: Victor Martins

No outro momento, os atores continuam narrando a odisseia daquela criança; por um instante eu até acreditei que fosse possível pra ela chegar em casa ainda com os pães, havia movimento nas ações dos atores, eles descreviam os percursos e as sensações de uma forma muito viva, quase dava pra ter alguma esperança, mesmo na utopia. O que quebrava essa sensação de esperança em mim era a informação de que aqueles furos no corpo da criança, à medida que eram contados, só aumentava em quantidade.

Lembrei do “Mineirinho” da Clarice Lispector, mas também lembrei dos cento e onze tiros, você lembra? é que parece que uma bala pra matar não é suficiente, é preciso quebrar o corpo, estraçalhar, quase como uma tentativa de apagar esse registro Preto do mundo.

Os “buraquinhos” aumentavam de número, os atores descreviam a sensação do sangue escorrendo dentro deles, entre eles, mas os pães continuavam na sacola; ainda é possível chegar em casa! logo em seguida é o coração que escapa por um desses buracos, um dos atores pega esse coração na mão, e vê que ainda pulsa, ainda é possível chegar em casa? O coração chegou, alado ele pousa na mesa ao lado da mãe, onde deveriam estar os pães e o café. O coração chegou, a criança não.

Imediatamente os atores, depois de compartilharem essa odisseia, refazem o início do espetáculo, eles chamam esse ultimo ato de “utopia” eles repetem o texto inicial, a música do Dejavú se repete, você lembra? Mas ela se repete (não por acaso) 13 vezes. Nesse novo relato as descrições das sensações retornam, a varrida na casa, o pedido para a compra dos pães, os pingos de água do balcão encostando nos braços miúdos da criança, o saco de pão cheio e o retorno pra casa.

Aquela era uma ação corriqueira, eu já disse, uma criança foi comprar pão e ela só estava voltando pra casa.

Fotos: Victor Martins

FICHA TÉCNICA
Idealização, Coordenação e Dramaturgia: Jhonny Salaberg
Direção: Naruna Costa
Elenco: Ailton Barros, Clayton Nascimento e Jhonny Salaberg
Músicos em cena: Erica Navarro e Giovani Di Ganzá
Preparação corporal: Tarina Quelho
Direção musical: Giovani Di Ganzá
Cenografia e Figurino: Eliseu Weide
Assistência de cenografia e figurino: Carolina Emídio
Criação e operação de luz: Danielle Meireles
Artista Gráfico: Murilo Tua Eira
Fotos: Alessandra Nohvais e Noelia Nájera
Assessoria de Imprensa: Elcio Silva
Produção: Ellen de Paula e Jhonny Salaberg
Cenotecnia e contrarregragem: Patrick Carvalho e Marcus Garcia

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