O Santo Antônio de Jerumenha, a lenda do santo que saiu andando no século XVIII

Igreja de Santo Antônio, igreja católica da cidade de Jerumenha, paredes brancas, portas e janelas de madeira escura. Ao fundo há várias palmeiras como a carnaúba.

Revisão: Paulo Narley

Relatos de imagens de santos que desaparecem e reaparecem em outro lugar, mesmo depois de serem guardados a sete chaves, não é algo tão incomum no Brasil. No geral, isso acontece durante a noite, e as pessoas entendem que a imagem quer ficar onde está e que não adianta teimar com ela.

A cidade de Jerumenha traz uma história dessas que marcou a construção da Igreja de Santo Antônio. Lá por volta do século XVIII, um vaqueiro encontrou em certo lugar uma imagem do santo, a colocou com todo cuidado no alforje – a bolsa presa à sela da montaria – e rumou para a fazenda Citarola, “duas léguas distante”¹.

Lá, o Santo Antônio foi colocado em um oratório e já planejavam juntar os agregados da fazenda e os moradores da região para ajudarem a construir uma capela.

“Rezou-se muito na noite desse dia e deixou-se o santo trancado no seu novo aposento. Ao amanhecer, porém, quando procuraram a imagem esta já havia fugido. Puseram-se no seu encalço rastejando-a, por que deixava suas pegadas por onde passava, e foram encontrá-la no mesmo lugar do dia anterior.”¹

Levaram o santo de novo para a fazenda, e a história se repetiu “por mais de duas vezes”¹: ele sempre voltava sozinho, caminhando durante a noite. Não tinha jeito, acabaram erguendo a capela ali mesmo onde o santo queria. E ele não fugiu mais.

Acontece que, em uma dessas caminhadas, o santo deixou uma pegada diferente no chão, sendo mais específico: o pé afundou na rocha de um lajeiro. Este local se tornou ponto de peregrinação. Por conta disso, construíram uma pequena gruta de pedra em torno da pegada para proteger o local e ficar mais fácil de encontrá-lo.

Com o tempo, muitos milagres foram atribuídos ao santo. Devido a isso, várias pessoas faziam doações a ele, como forma de pagar promessas, ou deixavam heranças em seu nome. Essa foi uma prática tão comum na região que acabou gerando inúmeras disputas por terras entre padres e coronéis.

A confusão chegou a um ponto em que precisaram retirar a imagem de Santo Antônio da igreja e levá-la para a cadeia da cidade para protegê-la de quem queria destruí-la; só saindo de lá depois que a poeira baixou e os ânimos se acalmaram. Um fato curioso é que essa cadeia tem as grades para o lado de fora, ou seja, as pessoas que passam na rua conseguem ver quem está lá dentro da cela.

Com mais de 260 anos, Jerumenha possui tradições centenárias. A Igreja de Santo Antônio é a segunda mais antiga do estado. Os festejos juninos, que é também quando se comemora o santo (no dia 13 de junho), atraem romeiros e turistas de todo o estado até hoje.

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Referências

1 Folklore Piauiense – Leonidas Sá in Revista Litericultura – Therezina, 31 de agosto de 1913 – (o português dos trechos usados desse texto foram atualizados para melhor compreensão) (aqui)

TV conta a misteriosa “pegada” e prisão de Santo Antônio no Piauí – Cidade Verde (aqui)

 

Igreja católica, paredes brancas, portas e janelas de madeira escura. Ao fundo há várias palmeiras como a carnaúba.
Igreja de Santo Antônio em Jerumenha – Foto: Portal Cidade Luz
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