Fico aqui catando palavra igual se cata feijão. A senhora gostava muito desse texto, sempre comentava dele quando lhe surgia a mente ou quando inventavam de botar numa prova. Você achava bonito essa metáfora toda da escrita, do cuidado, da seleção. E eu achava bonito você achando bonito essa história toda e depois íamos catar nossos feijõezinhos, você na sua delicadeza natural de quem sente potenciais belezas na ponta dos dedos e eu silenciosamente a aprender os instantes de beleza do seu olhar sobre os feijões. E fico agora eu, por aqui, catando alguma palavra em que seja possível caber esses olhares, esses toques, essas conversas, essas metáforas todas de quem tem essa mania insistente de poesia. A gente se entendia através dela. Na verdade, não sei se tinha outra forma de te entender que não pela poesia. Tudo em ti era poesia. Tu eras inteira poesia, Maria Stela. Continua a ser. Olho para o tempo, o tempo me encara de volta e sei que nessas calçadas, nessas folhas, nessas flores, nessas conversas casuais, nessa brisa, nesses penduricalhos todos do mundo está você aí deixando um rastro inconfundível de si, um versinho teu pra cada espaço de vida que, de uma forma ou de outra, tinha se encantado com teu catar feijão. Você sabia melhor do que ninguém que era de uns versos que esses meninos todos precisavam. Eu te perguntava se estavam lhe dando trabalho e você me respondia: “Eita, minha filha, dão trabalho demais. Mas eles tão precisando mesmo é de ler, vi um texto aqui tão bonito hoje”. Acho que hoje eu precisava só de um texto bonito, sabe, tia Stela. Mas agora tá aí a senhora, né, tia Stela, com Graça falando de poesia por aí. E nós por aqui vamos indo, encontrando esses teus textos bonitos nos olhos uns dos outros. A senhora eternamente Stela-Poesia-Guia.
Com carinho,
da tua eterna menina da Semana Cultural
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Ilustração: Adriano Lobão