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Telefonema

Foto por: Elara Moretz-Sohn

– Alô? Tudo bem? Feliz aniversário! Parabéns, muitos anos de vida! Tudo de bom por aí, viu? Cento e setenta e quatro anos, ein! Caramba… no próximo é cento e setenta e cinco… é isso né, a vida… ano após ano. Comemora, é… é… tem que comemorar, a gente nunca sabe do dia de amanhã, tá certo… tá certo. Te liguei pra não deixar passar em branco, sabe, sei que não vai passar, mas é coisa da idade, a gente precisa se cuidar, sempre, sempre… é importante, viu? Ainda mais você… é, eu tô esperto no problema de memória, aham, ninguém me disse nada não, mas dá pra perceber. Pior que dá… assim, fazer parte não deveria, né? Mas, acontece… ah, ainda acho que dá tempo, vai… Já foi ao médico? É, eu sei, complicadíssimo mesmo, delicado demais, super entendo, mas já passou do tempo de dá a devida atenção. Pois é, sei que são dias e dias e tem outros problemas pra dar conta…mas, você sabe né… quando começa com isso de esquecimento, de não valorizar as próprias memórias, de não registrar, de deixarem falar umas abobrinhas por aí sobre você… acaba afetando todo o resto. A tua memória é tu também, bixinha… é teu rosto, tua essência, tua vida. Cento e setenta e quatro anos de vida. Ai… sei lá, deixar partes tuas serem tão profundamente apagadas, alteradas, como se tu quisesse ser outra, como se não valesse a pena, como se tudo precisasse ser meio blasé, meio quadradão, meio engravatado… E teus filhos também quais tudo sofrem desse mesmo mal que tu, esquecidos, parece que nem te conhecem direito, nem se conhecem direito também, essa genética aí de crise de identidade é de lascar. É… engraçadinha, dá, né, pra colocar a culpa no calor, neste sol de mêi-dia cozinhando o juízo da gente, uhum, pode ser isso mesmo… só tu, viu? Mas eu falo sério, de verdade, a gaiatice faz bem, só que você nunca foi muito boa de esconder essas tuas questões aí… sei que hoje é dia de festa, mas, falo pelo resto do ano, se cuida, tá? É, claro, sim, com toda certeza, tem que dar esse puxão de orelha nos filhos também, sim, sim, é geracional, né? Pois então! Se não é só teia de aranha em estátua, verdade… Enfim, de todo modo eu realmente liguei pra te felicitar por mais um ano de vida, espero que a comemoração seja boa, mesmo. E… fica bem, viu? Esquece de mim não, tá? Prometo sim… prometo não esquecer de ti. Mais uma vez, feliz aniversário, Teresina. Xêro. 

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