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A cena do rock em Teresina: uma sobrevivência gutural

Banda Retalhador - 2007 Espaço Trilhos; Acervo pessoal: Diego Iglesias

Viver em um estado nordestino costuma remeter aos ritmos musicais que dominam comercialmente a região, como o forró e o sertanejo. Mas, existe uma cena que há décadas resiste à margem do mercado e constrói sua própria história em Teresina: o rock e o metal

Formada por músicos, produtores e um público fiel, essa comunidade conquistou seu espaço e segue movimentando a cultura teresinense, mesmo sem o reconhecimento e o incentivo que muitos consideram merecidos.

A Geleia Total conversou com jornalistas, produtores, pesquisadores e músicos da cena do rock para compreender melhor sobre a existência e a resistência gutural do rock e do metal na cidade.

Acervo pessoal: Diego Iglesias

Jornalista, pesquisador, produtor cultural e músico, Diego Iglesias acompanha a cena há décadas e testemunhou de perto as transformações do rock pesado em Teresina.

“O metal em Teresina passou por muitas transformações. No final da década de 1990 e início dos anos 2000, bandas de hardcore, punk e heavy metal dividiam os mesmos palcos em espaços como o antigo Teatro Elis Regina, Palmares e Teatro do Matadouro. Eram poucos locais, com estrutura simples, mas construídos com muito esforço de quem queria mostrar que o Piauí também tinha potencial para a música underground.”

Segundo Diego, esse período foi marcado pelo fortalecimento da produção autoral. Bandas como Narguilê Hidromecânico, Obtus e Nephlin ganharam destaque, enquanto veículos de comunicação locais também contribuíam para divulgar o gênero.

“Nessa época, havia espaço na mídia. O Caderno Alternativo do Jornal Meio Norte e programas de rádio dedicados ao rock mais pesado ajudavam a divulgar as bandas autorais.”

Acervo pessoal: Natacha Maranhão

A jornalista Natacha Maranhão, que produziu diversas matérias sobre a cena do rock nos cadernos de cultura, também destacou a importância desses espaços para a divulgação das bandas e dos eventos na cidade. Natacha ainda lamentou o progressivo fim dos cadernos culturais e acredita que, embora atualmente haja novos meios de divulgação, a mudança desses espaços na mídia também impactaram na forma como a cena do rock tem resistido.

O professor e pesquisador Raimundo Lima, autor da pesquisa O rock e as artesanias urbanas: a Central de Artesanato de Teresina-PI e os festivais de rock nas décadas de 1980 e 1990, explica que a consolidação do gênero na capital começou ainda nos anos 1980 e sempre esteve ligada a um circuito alternativo, sustentado por um público fiel.

Embora ressalte que suas pesquisas se concentram nas décadas de 1980 e 1990 e, por isso, não acompanhe de forma sistemática a cena atual, ele afirma que a permanência do rock pesado na cidade demonstra a força dessa cultura ao longo das gerações.

O rock sempre foi alternativo em Teresina.

– Raimundo Lima

“Existem várias vertentes, mas o rock pesado sempre teve adeptos muito fiéis. De geração em geração, esse público permaneceu presente. Espaços como o Bueiro do Rock mostram essa continuidade e mantêm vivo esse nicho dedicado ao metal.”

Segundo Raimundo, antes mesmo da consolidação dos festivais dos anos 2000, Teresina já possuía eventos importantes para o fortalecimento da cena underground.

“Nas décadas de 1980 e 1990, a Central de Artesanato realizava festivais de rock. Também havia eventos como o Trilance e o Setembro Rock, promovidos no Bairro Vermelha, reunindo bandas locais, regionais e até nacionais. Nunca foram eventos para multidões, mas sempre contaram com um público fiel, formado principalmente por estudantes e jovens.”

Banda Scud; Acervo pessoal: Diego Iglesias

O pesquisador lembra que, numa época sem internet e com pouco espaço para o rock na televisão e na rádio, os fãs criavam suas próprias formas de circulação da informação.

“A Praça Pedro II era um dos principais pontos de encontro dos headbangers. Nas bancas de revista, eles buscavam publicações especializadas, trocavam fanzines, fitas cassete e compartilhavam novidades trazidas por quem viajava para outros estados. Era assim que essa juventude se mantinha conectada ao universo do rock.”

Raimundo também destaca um marco histórico para a produção musical piauiense: a gravação, em 1989, do primeiro disco produzido por bandas locais.

“As bandas Avalon e Megahertz gravaram um disco split, reunindo os trabalhos Stop the Fire e Techno Diss. Foi um feito revolucionário para a época e mostrou que os músicos do metal estavam organizados. Curiosamente, foram bandas de heavy metal as primeiras a lançar um disco em Teresina, rompendo o estereótipo de que o roqueiro era desorganizado.”

Outro marco importante foi o Tribus Festival, realizado na Potycabana, como pontuou na entrevista Diego Iglesias. O evento reuniu nomes nacionais como Ratos de Porão e Dark Avenger, ao mesmo tempo em que abriu espaço para artistas piauienses mostrarem seu trabalho.

“Foi um festival que mostrou que as bandas locais estavam à altura das referências nacionais. Isso abriu caminho para grandes eventos, como o Piauí Pop, que colocou Teresina na rota de importantes grupos do país.”

Na mesma época, a Prefeitura de Teresina criou o festival Teresina é Pop, realizado em comemoração ao aniversário da cidade. Embora o nome remetesse ao pop, o evento reunia reggae, rock alternativo, metal e outros estilos, valorizando exclusivamente bandas autorais piauienses.

“Era o evento com a melhor estrutura de som da cidade. Misturava públicos diferentes na mesma plateia. Você via um cara todo de preto, do metal, dançando reggae ao lado de uma menina com roupas hippies, todos cantando as músicas juntos.”

Obtus 2011 – Teresina é pop; Acervo pessoal: Diego Iglesias

Entretanto, ao longo da década de 2010, a cena passou por mudanças significativas. Diego explica que o crescimento de bandas tributo e a segmentação entre diferentes vertentes do metal enfraqueceram parte da produção autoral.

“As bandas de black metal começaram a organizar festivais exclusivos para esse estilo, enquanto hardcore e heavy metal seguiram outros caminhos. Isso acabou criando uma segregação dentro da própria cena.”

Apesar das dificuldades, o rock pesado produzido em Teresina nunca deixou de existir. Um dos principais responsáveis por essa permanência é o Bueiro do Rock, espaço que se tornou referência nacional para a música underground.

Os números reforçam a força do gênero no estado. De acordo com o mais recente levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), o Piauí é o estado nordestino que mais executa músicas de rock nas emissoras de rádio e ocupa o 2º lugar no ranking nacional, com 5,43% das execuções dedicadas ao gênero. Em seguida aparece o Maranhão, com 4,75%, figurando na 4ª posição entre os estados brasileiros. O estudo considera a proporção de músicas de rock executadas pelas emissoras de rádio em comparação com os demais estilos musicais.

Quem acompanha essa trajetória há quase duas décadas é Dieudes Laenio, colaborador voluntário do Bueiro do Rock há 19 anos. Para ele, manter a cena ativa exige muito mais do que planejamento financeiro.

“Existe um pouco dos dois: amor e resistência. Se não houvesse paixão pelo que fazemos, provavelmente já teríamos migrado para produções mais lucrativas e comerciais. Apesar de o Bueiro do Rock ser uma empresa e ter contas para pagar, nossa prioridade continua sendo fomentar a cultura alternativa e abrir espaço para bandas e produtores do gênero. O público reconhece isso e, com mais ou menos frequência, sempre tem gente de todas as idades vestindo a camisa preta e fortalecendo a cena.”

Mesmo consolidado como um dos principais pontos do rock piauiense, Laenio acredita que ainda falta apoio institucional para que a produção local alcance voos maiores.

“De vez em quando, bandas e produtores conseguem ser contemplados em editais como o Boca da Noite e outros programas culturais, mas, de forma geral, o apoio ainda é pequeno. Teresina tem potencial para abraçar o rock, que possui uma história importante na cidade. As bandas e os produtores precisam ocupar esses espaços, mas também cabe aos gestores públicos acreditar nessa cena e oferecer mais oportunidades.”

Segundo ele, a profissionalização do setor aconteceu praticamente sem incentivo governamental.

“A grande maioria dos eventos que trouxeram atrações nacionais e internacionais, como Vader, Ratos de Porão, Angra e Destruction, só aconteceram graças à iniciativa de pessoas apaixonadas pelo underground. Foi tudo no espírito do ‘do it yourself’ (faça você mesmo). Entre erros e acertos, fomos nos profissionalizando com a ajuda das bandas, dos produtores e do próprio público. A correria é enorme, mas o resultado é muito satisfatório.”

Hoje, Teresina voltou a ocupar espaço no circuito nacional do rock pesado. Conforme destaca Diego Iglesias, o trabalho desenvolvido pelo Bueiro do Rock colocou a capital piauiense novamente na rota de grandes turnês do underground.

“Hoje Teresina recebe bandas nacionais e nomes internacionais como Paul Di’Anno e Blaze Bayley, ex-vocalistas do Iron Maiden, além dos alemães do Destruction. Isso mostra que, apesar das dificuldades, a cena continua viva.”

Mais do que um gênero musical, o rock em Teresina representa uma comunidade construída pela resistência e pela paixão de músicos, produtores e fãs. Entre festivais históricos, espaços independentes e décadas de trabalho coletivo, a cena segue provando que a resistência pode ser preservada e fortalecida por um público fiel, que atravessa gerações e demonstra que o Piauí não apenas sabe ouvir e apreciar rock e metal, mas também produzir uma cena autoral sólida, capaz de manter viva essa cultura.

Acervo pessoal: Diego Iglesias

Texto por: Luan Rodrigues

Revisão por: Elara Moretz-Sohn

Contato para sugestões ou correções, envie e-mail para: redacao.geleiatotal@gmail.com

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