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Vovó é uma paisagem

Vovó é uma paisagem

Acervo pessoal: Igor Ganga

No dia em que vovó ia morrer, já sumida no corpo, a voz se apagando, o olhar se fechando, os gestos desaparecendo, eu sonhei. Tenho desses prenúncios desde muito pequeno. Sem imagem nem cor, uma voz onírica apenas me dizia: domingo, domingo, domingo, domingo, domingo.

Passei, portanto, o sábado me imaginando em seu velório. A pior imagem que já imaginei, capaz de me fazer acordar de supetão na adolescência, tamanha a realidade. Quantas vezes isso aconteceu em minha vida. Sempre imaginava e temia o dia da sua terminalidade neste plano. Era mais perturbador que assustador.

Quando vovó ia morrer, entrei numa dimensão de vazio e de espera, um tempo liminar de suspensão. Eu precisava de algum rito enquanto tudo se desfazia. Não saberia como atravessar aquele portal sem meus feitiços. Eu precisava de mandinga. 

Apeguei-me à macumba que vovó tanto temia. Acendi quatro incensos, cantei pontos de pretos-velhos, fumei um charuto. Pensei no transcendente. Fiquei em silêncio, pois não tinha o que pedir. Não me prendia a uma ilusão de milagre. Eu fazia um feitiço cru, concreto, de certa forma pessimista.

Esta foi minha oração: baforadas angustiadas de um tabaco doce-amargo. Olhos fechados. Sucção de um infante desamparado diante de um seio bom. Sopro longo e lento como quem esvazia a si enquanto a fumaça toma o ambiente antes de evanescer-se e ganhar a atmosfera. 

Eu diluído em prece.

Rodeado de espíritos de alta envergadura: angolanos, cabindas, congos, minas, tupinambás, timbiras, tapuias, vaqueiros, baianos e léguas. Todos silentes e firmes diante do meu inevitável.

Parece que a vida tem que ser seguida, né? Tem coisas pelas quais temos que passar com dignidade. Aprendi isso com ela. Posteriormente, a Psicologia me confirmou esse saber: na vida, somos mais respondedores que questionadores. A vida requer resposta. Até na situação mais extrema, eu posso responder o que ela me pergunta. É como no jogo do Mário Bros. A situação pede uma ação. Isso evita de cairmos no abismo do vazio.

Quando vovó morreu, eu era uma criança na fila da injeção e já não a tinha para me dizer que não iria doer. Tinha que enfrentar a dor sozinho. Tinha que sustentar a prova diante de mim, como Oxóssi de uma flecha só diante de um monstro.

O charuto, minha oração sem palavras, acabou. O incenso cessou suas brasas. A realidade voltou ao seu cheiro rotineiro. Meu rito se findava. Meu ebó estava entregue ao Sr. Tempo. 

Quando Vovó se ia, tomei um banho, ainda suspenso, e deitei-me para esperar a morte chegar. Não tive forças de me despedir. Fiquei imóvel, contemplando-a em espírito.

Quando vovó morreu, eu sabia que a morte viria. Mas como? Em que estado nos encontraria, a mim e a vovó? Não sabia. Fiquei flutuando pelo nada quando, na viração do tempo, pela madrugada, a morte se anunciou a si mesma como uma coruja de Atena ou de alguma Yá Mi Oxorongá. 

Na surdina, encontrou vovó quietinha na cama do hospital, que, como um pardalzinho indefeso e delicado, foi deixando silenciosamente de respirar. Sem agonia. Sem alarde. Do jeito que Vovó pedira em prece décadas antes. Ela foi-se de maneira muito discreta, como sempre fora no cotidiano. Confirmei o que dizem os budistas: morremos como vivemos. A morte é um retrato do que fizemos, ou não fizemos, com a nossa vida. A morte é nosso último monumento. O retrato de nossa vida.

Nesse momento de anestesia, senti-a me contando de quando, aos quinze anos, descia livre a Sete de Setembro de bicicleta. Eu a visualizei, já com saudade, ali nos meus escuros: ela jovem de novo. Os cabelos crespos, soltos. O olhar vivo de uma jovem. A pele firme. O corpo franzino e leve. A canela negra fininha e de pele ressecada e meio acinzentada. Ela montada em sua bicicleta, depois de sair calmamente do hospital, em espírito, cruzando a Sete de Setembro, a Paissandu, a Praça da Bandeira, até chegar à Igreja de São Benedito de madrugada. Entrar, ajoelhar-se em um banco qualquer, fazer um último pedido e rezar uma última Santa Maria.

Quando vovó se foi, menina, em sua bicicleta, lembrei-me de todas as canções que ela me cantou enquanto costurava e eu permanecia aos seus pés, no chão da minha infância.

Quando vovó ia morrer, fiquei assustado.

Eu, que nasci com o lema: filho de ninguém.

E foi ela quem me pegou nos braços, como Iemanjá pegou o pequeno Omolú em meio aos caranguejos. Vovó me trouxe para seu reino. Habitei, como príncipe, sua aiocá, entre tecidos, tesouras e agulhas.

Ela foi minha Iemanjá.

Desconfio que ela sabia que era a minha cura.

Suspendeu-me a lugares que nunca imaginei alcançar, lugares aos quais ela própria nunca chegou. Ela me costurou como quem faz uma bela roupa.

Quando vovó ia morrer, num sábado de muito azul, nós estávamos muito solares. Ela me deu um terço de pérolas. Todo o seu amor estaria ali, disse. Depois, afirmou que estava indo.

— Indo para onde? — perguntei.

E ela, sem eufemismo, respondeu:

— Morrer.

Morrer?

Que soco no estômago, vovó.

Lembro que te disse que a gente não morre. Lembra? Continuamos a viver entre angolas, cabindas, tupinambás, minas e tapuias, entre nossos antepassados.

A senhora confirmou com um sorriso:

— É mesmo.

Quando vovó morreu, ela voltou para casa.

Enquanto eu acariciava seu cabelo pela última vez, naquele domingo anunciado, vi seu sorriso. Era o último segredo que me contava discretamente. Parecia dormir um sono bem tranquilo.

Escutei esses dias que, quando nos apaixonamos, não é por uma pessoa, mas por uma paisagem. Achei isso potente. E vovó foi minha paixão em tudo, o que me fez pensar em suas paisagens.

Ela de bicicleta. Ela em Picos, com sete anos, entrando num cabaré, e uma das trabalhadoras mandando-a para casa porque ali não era lugar de criança. Ela estudando à noite pela filantropia do Instituto Dom Barreto dos anos 1950 e, depois, tendo que fazer sua lição ao mesmo tempo que engomava as roupas de seus patrões.

Vovó não passou da quarta série. Mas me apaixonei por toda a sua paisagem, por toda a sua intelectualidade.

A maior professora que tive.

Quando vovó se ia, lembrei que fui uma criança que chorava muito quando ia para a casa de alguma tia, pedindo que me trouxessem, de madrugada, de volta para minha cura, para o ponto mais seguro de toda a Terra. Para ela.

Quando vovó se ia, lembrei que chorava quando ia para a escola, ainda na creche, porque queria ficar com ela enquanto costurava tecidos, fazendo vestidos, camisas e roupas.

Enquanto vovó se ia em sua bicicleta sideral, carregada por Nossa Senhora, cantei uma canção bem silenciosa, pois não tinha palavras.

Ela deixou-me com suas costuras, com suas paisagens, em um domingo muito bonito.

Quando vovó morria, ela virava azul com o céu da manhã passarada. Pronto, estava terminada a sua grande paisagem. Era dia. Fazia sol. Tinha os ventos de São Lourenço que ela tanto amava.

Enquanto vovó se ia, eu dizia: manda o vento, São Lourenço! Manda o vento, São lourenço! Manda o vento! 

E chorei.

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