O poeta desfolha a bandeira

“São 3 da madrugada e escrevo pra ti, Torquato, só pra ti. Hoje tive aquele sonho de novo, aquele em que nos encontramos em um bar do centro onde minha ebriedade e a dos moradores na praça se confundem. Você senta na minha mesa e eu ensaio um sorriso com aquele meu sentimento que você nomeou de alegria cansada. A cidade ainda me mata de saudade e você sabe. Mas ficamos em silêncio enquanto você engole sua bebida como se fosse vida. Talvez fosse.

Você sempre foi diferente às 3 da madrugada. Chegava mais sério do que quando nos encontrávamos no horário oposto e vinhas cheio de tropicalidades. Você também quase riu quando eu entendi como era ter um beijo preso na garganta. E sempre soube que Carolinas sempre olham pela janela.

Tu não, Torquato. Tu já caía em cachoeira aos primeiros filamentos de amor sugeridos. Te disse que minha namorada tem segredos e não entendia quase nada dos nossos encontros na madrugada. E você só me confirmou o que já tinha lido nos teus olhos iluminados por essa pouca luz de lua minguante (que nós dois detestávamos) : “O chato,aqui, é que ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma. E o que eu chamo de conformismo geral é isso mesmo, a burrice, a queimação de fumo o dia inteiro, como se isso fosse curtição, aqui é escapismo. Poesia sem poesia. Tudo parado, odeio.” Eu me mexo e sinto que estou quase acordando. Digo rápido: Fica comigo, poeta. Tu me responde: “E é por isso que eu FICO e vou ficando por causa deste amor”.

Por Ana Carolina Dias.

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