Como não perder a masculinidade lendo poesia, de Alisson Carvalho

Foto: Rascunhandose

Eu nasci macho, bem homem mesmo, sem nenhum defeito aparente, embora eu já tenha fraturado a tíbia num acidente de moto provocado pela tentativa de provar a minha masculinidade. Fora isso eu tenho uma paixão assustadora por livros, em especial os de poesias e, para piorar, os de poesias românticas. Escondi dezenas deles sob minha cama, não desejo a ninguém sofrer do mesmo mal, pois passei a adolescência chorando ao ler as obras de Shakespeare nas trevas da madrugada e no silêncio do meu quarto. Tudo bem, também consumi um pouco de prosa, confesso. Certa vez fui pego no ato e, graças ao ótimo reflexo que tenho, escondi-me sob as cobertas, mas de nada adiantou, pois meu pai logo sussurrou questionando o que diabos eu estava fazendo.
_Batendo uma, gritei sobressaltado.
Observei um misto entre felicidade e constrangimento no semblante do velho. Desde aquele incidente, tratei de fechar a porta do quarto, principalmente nos meus momentos mais íntimos, cujas leituras orgásticas me roubavam completamente a atenção. Desandei de vez, li tanta poesia que sem perceber me pegava falando alguns versos. Passei as noites refletindo sobre o perigo daquele hobby e como aquilo me consumia.
E tentei, sério, tentei mesmo largar aquele vício, aquela podridão. Confinei todas as obras dentro de uma caixa, não consegui queimá-los, era demais, não suportaria tamanha maldade. Então decidi fazer uma doação para a biblioteca, mas a caixa era demasiadamente larga para passar pela porta do meu quarto ou as lágrimas que se desprenderam dos meus olhos foram as verdadeiras responsáveis por não me deixar sair de casa naquele dia. Quem sabe outro dia… Só sei que eles ficaram lá, guardados.
“Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões caiu da caixa lacrada sob o julgo das minhas mãos. Ah, Camões, como poderia deixá-lo partir? Há momentos que um homem precisa tomar decisões importantes, aquela já estava passando do prazo. Eu tinha que salvar a minha heterossexualidade daquele desvio. Criei a coragem depois que meu pai chegou para ter um papo de homem sem aviso prévio, com toda a sua sagacidade o velho esperou que toda a família saísse para falar que eu era estranho.
Fui acometido pelo pavor, sentei-me no sofá e esperei pelo pior, esperei que ele dissesse que sabia de tudo, que havia encontrado os meus livros. Contudo ele disse desconfiado, e quase sem vomitar um único som, que eu estava mudado.
Depois da conversa encarei Fernando Pessoa, deixei que a ira guiasse as minhas ações e já ia lançar o livro pela janela quando me lembrei do “Poema em linha reta” e recuei. Caí sobre a cama, não conseguia mais segurar tudo aquilo. Era demais esconder para todos o grande mal que se apossava do meu corpo.
O que meus pais falariam quando descobrissem?
O que meus amigos diriam quando soubessem?
Como minha namorada reagiria?
Era sempre um martírio ter que esconder aquela paixão. As minhas declarações ficaram rítmicas, os meus pedidos e galanteios se transformaram em poemas Trajanos, em fragmentos da poesia “A arte de provocar”. Uma vez minha namorada me acordou e afirmou ter me escutado murmurando alguns versos de Drummond. Eu rebati, não aceitaria aquele ultraje, gritei a manhã toda e como ato de desespero disse ter sido possuído por alguma música chiclete da moda. Contrariando-me, ela berrava, dizia que eu falava que o “amor batia na porta”, que em seguida dizia “e agora, José?”, misturando com um pouco de “Quando nasci, um anjo torto desses…”
_Desses?
_Sim, desses.
_Era Torquato ou Drummond?
_Ah, sei lá, então você estava declamando mesmo, eu sabia!
Atordoado, deixei o quarto e foi quando usei o meu primeiro palavrão. E se não tivesse saído como poema teria sido efetivo, mas lá estava eu descendo as escadas e gritando “Epigrama” de La Fontaine. Quando dei por mim todos estavam boquiabertos com as minhas palavras. Como explicar aquilo? Não havia mais dúvidas, eu declamei um poema.
Precisava ofuscar aquela lembrança, então nas semanas subsequentes voltei a jogar futebol, judô e beber no bar com os amigos.
E foi num ato desmedido, quando perdi os pudores da sobriedade e escalei o balcão do bar sem me importar com os olhares dos colegas, embebecido pela coragem etílica, que gritei aos quatros ventos a poesia “Gol” de Ferreira Gullar, seguindo com uma declamação da poesia “O anjo das pernas tortas” de Vinicius de Morais.
Rendi-me ao desejo, fui tatuado pela chaga da poesia e sem ter mais controle dos meus atos passei a ver o mundo com as tintas da rima, tudo era poesia, tudo passava pelo meu filtro de versos. Eu precisava me expurgar daquele veneno, o mal deixou de ser interno e chegou a superfície do meu corpo. Eu já não era um corpo fingindo ser, eu era a própria poesia eclodindo pela epiderme, um invólucro de redondilhas maiores que não aguentava mais ser suprimido.
Reuni a família, a namorada e os amigos. Tinha que despejar de uma só vez toda a verdade, chorei durante a noite e me amaldiçoei por ter enfraquecido, deixado que a primeira rima entrasse no meu peito no formato de Clarice Lispector e posteriormente Da Costa e Silva, mas sucumbi mesmo foi quando caí nas redes de Alvina Gameiro, depois quando fui massacrado por Hilda Hilst, Cecília Meireles e Auta de Souza.
Ah, Auta de Souza! Quem dera sentir como a pena branca da poeta riscando o meu pesar. Eu queria era mergulhar na obra “Horto” e misturar-se à tragédia para evitar o destino cruel de ser condenado por ser um apaixonado pelas rimas. Disse em alto e bom som o que eu era, um apaixonado pelas poesias, e escutei um barulho uníssono diante da verdade, todos assustaram-se com a minha revelação. Meu pai chorou, minha mãe desmaiou e minha namorada gritou andando pela sala, eles não entenderam meu ecletismo.
_Eu não quero escutar de novo, gritavam em coro.
_Eu nunca li Baudelaire, repeti.

 

Autor: Alisson Carvalho

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Rascunhos Líquidos nº1

 

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