Opção de lazer: apenas shopping center, de Alisson Carvalho

“O que estamos construindo?

Já saiu da zona leste e percorreu o centro da cidade?

Consegue recordar os caminhos dos parques, museus, centros históricos das cidades visitadas?

Sabe precisar onde estão localizados os resquícios da nossa história?

Já parou pra pensar nos nossos símbolos e cartões postais?

Você é capaz de citar dez filmes, artes plásticas, músicas, nomes de peças teatrais ou nomes de danças criadas por piauienses com a mesma paixão que descreveria as artes dos artistas nacionais e internacionais?

Já leu algum livro piauiense? (Você que nasceu na época de vigência do PSIU não, estou falando com os seus contemporâneos.)

Enfim, uma cidade não se queima sozinha. As mãos que queimaram as casas foram guiadas por várias forças. É um pensamento, um sentimento, uma ideia que quer apartar cada vez mais as classes. E, claro, pra ser legitimado esse pensamento tem que mergulhar em todas as camadas e estratos sociais, fazer parte do dia a dia, da vivência e se tornar uma necessidade do povo.

Assim é que se consegue o silêncio assassino, a mudez de quem vê um casarão histórico sendo destruído, um morador de rua sendo rechaçado, uma fogueira sendo acesa na casa de palha do centro.

Tudo pelo embelezamento, tudo pela modernidade, tudo pela cidade. A nova cidade que não é mais verde. Cidade “muderna” é cidade de pedra com flora importada, quadros industrializados, enfim, tudo planejado…

É muita doença, anomia, mas felizmente para cada neurose que surge nasce uma nova farmácia. As drogarias com configuração de fast-food brotam ao lado das igrejas. Estamos no harém da medicina, investe-se na saúde, vende-se saúde. A saúde curativa. Saúde!

O setor terciário ganhou importância desde o período da urbanização, quando a cidade passava pelas transformações necessárias para se embelezar. Além disso, a Saúde é uma das áreas fortes para a economia citadina e para a organização espacial.

A Tristeresina flutua nesse oceano, nascida do desejo estratégico de aproveitar uma zona de trânsito que a priori movimentaria o estado, pelo menos economicamente. Entretanto, só depois da metade do século XX foi que as construções de rodovias favoreceram o diálogo com as outras regiões.”

“E o que isso tem a ver com o lazer?”

“Tudo, o hábito é a ponta do iceberg que demonstra uma prática que acompanha a construção do nosso modo de pensar. O abandono dos parques é só o resultado disso tudo, afinal os nossos olhos sempre abraçaram a ideia da modernidade. A produção do novo, a criação da necessidade do consumo, tudo isso nos faz esquecer o passado. Nesse sentido, pouco importará o caminho se estivermos sempre vislumbrando o final.

O setor terciário obviamente é essencial para a economia local. E no paraíso dos empresários os fins justificam os meios, logo nada será relevante no caminho para dilatar as possibilidades de ampliação do mercado.”

“Um patrimônio orgânico deve fazer parte da vivência do cidadão, caso contrário não tem serventia alguma, morre-se como ideia, mata-se como símbolo, desaparece como memória.”

“Concordo, contudo, é preciso estar ciente de que um povo sem passado é um povo sem identidade, sem história, sem tradição, sem afinidade com o lugar. O interessante é que a primeira ideia que te ocorre ao chegar num local desconhecido é justamente ir conhecer o patrimônio cultural do lugar.

Minha questão é justamente essa. Que sentimento é esse que te faz reconhecer a importância histórica do outro e ignorar a sua? Casarões estão ruindo neste momento, enquanto conversamos, e ainda assim esse desdém produzido nos faz avaliarmos os riscos e suprimirmos a ação. Ficamos inertes. Esse é o desejo de mudança introjetado durante o processo de aprendizagem. E o sentimento de ser “muderno” é a herança que nos acompanha desde a transposição da capital. No fundo estamos sempre abandonando nossas raízes para abraçar um ideal que só beneficiará uma pequena parcela da sociedade.

Curioso que estejamos abandonando os parques, ignorando a nossa história e criamos desculpas diversas para nos isentarmos das nossas responsabilidades sociais. É sempre uma falta de tempo que só não atrapalha quando é para assistir aos shows e filmes da moda. Investe-se no que é mais palatável e semelhante: a arte e o produto estrangeiro, forasteiro, jamais no produto nativo.

Os parques estão vazios, as ruas desertas, produz-se uma necessidade de deslocamento. Quando não criamos raízes, facilmente ficamos desprendidos da terra, sem ancoras, sem referências. Vende-se uma ideia. O que te faz se sentir tão inseguro no centro da cidade e tão seguro na zona leste? Que força é essa que ilumina um lado da cidade? Um lado sem teatros, sem cinemas, com galerias destinadas aos grupos seletos?

As praças estão vazias. A insegurança é despejada através das telas das tevês, por meio dos programas policiais. Sentimos medo e é nesse medo que surge o desespero, que nasce a crença nos iconoclastas moralistas.

Nosso espaço de socialização deixou de ser orgânico, está menos profundo, é todo comprado, mercantilizado, quanto mais investimos mais valorizamos. Os parques estão abandonados, insisto. Felizmente há sempre visionários que tentam respirar nesse mundo de incertezas, ocupam e movimentam a cidade esquecida.

Como um teatro fecha suas portas, fecha suas portas para artistas, para artistas que não geram lucro?

Sempre o lucro. As praças estão vazias, insisto!

Uma Tensão tenta respirar no rio inóspito da praça Pedro II, transformando a apatia, letargia, em Tesão. Porque sem tesão não há paixão, o impulso para viver e existir. Afinal, não morremos, existimos, resistimos, não frequentamos apenas os bares, igrejas e farmácias. Há arte, há como produzir um lazer para além da monetização. Há Criação, cria-se com ou sem estrutura, cria-se com ou sem recursos, cria-se.

Abandonaram os parques, as praças e os espaços culturais, quando digo abandonaram quero falar que não estão dando suporte, estão alimentando o sentimento do medo. Invadiram um show de Hip Hop, assim mesmo, do nada. Justificativa? Sempre tem, nunca é a sincera, a sincera é que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, então estigmatizam algumas expressões artística e enaltecem outras.

Mas invadiram, encontraram tempo para invadir e não para proteger quem quer criar, transformar o mundo em arte.

Enquanto isso nutrem e alimentam o medo.

Em contraponto, temos sempre a figura do shopping center. Lugar agradável e seguro. Lá não precisam se preocupar com nada, afinal é iniciativa privada, tem segurança, tem iluminação, ambientação, refrigeração. Tudo pesquisado para atrair, tudo estudado para agradar.

A Tristeresina é o lugar que massacra quem não se enquadra, quem não é um potencial comprador. É a terra do homo faber digital. Anuncia-se no plano quase não consciente das nossas mentes, ou no tal do “imaginário local”, que o nosso único lazer é a tal “catedral do capital”, o shopping center.

Abandonaram as praças, investiram nos shoppings. As praças eram para todos, já os shoppings…

Diga-me uma coisa, se eu pedisse para você fechar os olhos e imaginar um lugar para ir agora ou um lugar que representa o lazer na cidade, que lugar você imaginaria?”

“Entendi… Ei, olha lá, o seu pedido saiu. Vamos comer na praça de alimentação ou lá dentro da sala de cinema?”

“No cinema, claro.”

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