Há quanto tempo! de Eduardo Henrique

Ali estava aquele ser… Em um dia qualquer daquele tal ano. Uma pessoa a quem eu não via havia tanto tempo! Estimo que poderia contar uns… Um, dois, três, quatro, cinco, seis… Ah! Lá se vão mais ciclos de trezentos e sessenta e cinco dias (e, naturalmente, alguns bissextos) do que teria eu a capacidade de recordar.

Aquele ente de cuja existência eu não havia tido nenhuma notícia recente. Mas também pudera: Separamo-nos sem aviso prévio, em uma época em que as crianças não eram completamente inseridas no mundo eletrônico.

Naqueles tempos, a minha conexão com estes tipos de dispositivos era guiada pelos consoles de videogame… Lembro-me, ainda hoje, da internet discada: Nós, os filhos, corríamos para o computador para jogar qualquer coisa que fosse, e esperávamos uma eternidade até que pudéssemos nos divertir de fato. Se é que a aventura já não fosse uma diversão, que nos enchia de adrenalina até à alma além do sangue. Criávamos tanta epinefrina que, se sucumbíssemos após a taquicardia, os anjos arrumariam baldes (baldes, não: Tanques!) para nos enxugar antes que entrássemos no Céu.

Isso tudo só era possível, claro, se os pais saíssem de casa. Quem teria a insanidade de ligar o computador sem que os progenitores houvessem se ausentado da vigília? O personal computer ficava em seus quartos; e, além do mais, faziam muito barulho quando acionados.

Tudo isto anos antes de existir as redes sociais, quanto mais as que estivessem na moda! E, justamente após isto vir a ser realidade, encontro esta pessoa em uma foto, em minha frente, na tela do computador… Naquele site que nem existe mais! Naquele sítio eletrônico que, de tanto tempo que ninguém mais acessa, quando é mencionado provoca a seguinte reação: “É sério!? Uh, Meu Deus, quanto tempo!”

My god…

Dios mío…

Mein gott…

Dio mio…

Tanrım!

É uma reação internacional.

Encontrar àquela pessoa nestas condições foi de tirar o fôlego e parar o tempo.

E, enquanto o tempo estava parado…

(Reduzido às mais extremas condições em que a psique humana interage com a teoria geral da relatividade, pois minha mente estava acelerada à velocidade da luz.)

… Fiquei ali, na frente do computador.

Meditando. Matutando. Buscando, nas mais remotas memórias, a lembrança daquele ser. Tudo isto porque…

(Apesar de passada aquela quantidade de anos à qual não pude mensurar; e, devido a isso, eu não ter a mínima ideia de que lugar ou em que instância…)

… Eu a conhecia. E, afinal, dizem que “esta cidade é um ovo”!

Einstein poderia utilizar meu cérebro como experimento demonstrativo de que o tempo não é uma grandeza absoluta. Engenheiros da computação invejariam a capacidade de processamento de minha mente, tal o estresse a que foi submetida sem que entrasse em colapso. E esta condição over mind brainstorming se manteve até que a busca se desse como concluída.

Já sabia em que compartimentos mentais encontrar aquela referência. Mas, finda esta questão prévia, eis que surge uma nova pergunta…

Será?

(Com olhos dilatados, a mão vem à boca.)

Realmente?

(Silêncio mental, devido à pura contemplação.)

Aquela pessoa, cujas lembranças partiam de lá: Daquele lugar. O mesmo do qual fui removido, sem meu consentimento, para ser inserido no ambiente desejado por meus pais.

… E o transe que permaneceu não teria outra essência que não fosse shakespeariana. Como, sendo assim, não poderia deixar de ser, decidi.

Se realmente for, descobrirei.

FBI, NSA, CIA, e ABIN: Influências claras para a aprofundada pesquisa de reconhecimento facial. Missão: Reencontrar àquela pessoa. Música, maestros, para a aventura que se inicia! Vejamos: Sol, sol, lá sustenido, dó. Sol, sol, fá, fá sustenido. Prossigam na trilha sonora!

O ponto de partida é este perfil na rede social, com as fotos. Vejamos se encontramos o e-mail de registro. Sim, eu sei que é pouco, mas já temos algo para procurar. O nome da pessoa que procuro é…

Não desmanchemos o anonimato. Certas coisas não precisam ser contadas.

O tempo passa. A busca é feita. O relatório é emitido. O resultado é dado.

Tantos anos depois, e aquela pessoa está mesmo ali, em minha frente! Passados todos estes milhares de dias, eu quase não me lembrava mais de quem havia sido uma companhia tão frequente em minha vida. Como poderia me esquecer de alguém por quem nutria uma amizade tão forte?

Julgamentos morais à parte, não sei se poderia recordar-me se houvesse passado mais tempo. Em uma reflexão pormenorizada, tomaria linhas e mais linhas…

(Ou versos, e mais versos.)

… Apenas para detalhar a capacidade de um ser humano (no caso: Eu) de se recordar daqueles que, um dia, foram pessoas queridas.

Isto não quer dizer que, de fato, esqueci. Tanto me lembro que aqui venho a registrar este acontecido.

Se tenho a capacidade de ser grato, é lícito que preste as condolências ao funcionário do Céu que me enviou estas recordações, e me pôs frente a frente com aquela foto. Não acredito em coincidências. Nem duvido que possa ter recebido alguma iluminação, seja divina ou do universo: Afinal, não utilizei a expressão over mind brainstorming? Pois é, que seja.

Então: Que bom que não esqueci por completo!

Se meu julgamento moral fosse direcionado a alguma coisa, ou a alguém, o alvo óbvio seria a confluência de fatores que nos levaram a perder contato. Isto se mantém até que se revele uma razão mais forte para que o fato seja compreendido de outra maneira. Ah, como a consciência domina os homens sem que eles nem mesmo percebam! Por que seria eu diferente?

Escrevo, então, no mais absoluto sentido de “quase”: O limite matemático, tão próximo que talvez seja incompreensível aos humanos (ou pelo menos para os “comuns”, que não atingem à imortalidade).

Culpemos ao tempo e às circunstâncias: Quase que, devido a esta vida na alta modernidade, cercada pelos deveres e pela competição, pelo meu inconsciente seria dito um ecoante adeus. E à parte ré, a lembrança, nem sequer seria concedido o direito ao contraditório.

Por isso que agradeço ao funcionário do Céu; que, através disto que chamamos de acaso, pôs aquela imagem à minha frente. Que, ainda por cima, transfigurou-me no over mind brainstorming, naquele estado etéreo, digno de uma elevação espiritual, pelo qual meu cérebro (e, consequentemente, eu) descobriu que: Sim, é possível parar o tempo!

Sem este recurso, impetrado ao tribunal do acaso…

(mas nem acredito em acaso!)

… Eu esqueceria de um grandessíssimo elo. Um que surgiu nos tempos em que a compreensão é precedida pela presunção de inocência (de um outro tipo, pois nem há que se falar em dolo, já que a malícia é inexistente).

Eis a oração que pôs fim a todo este ciclo mental:

– Oi! Lembra de mim?

Se esta história fosse um filme, seria exatamente assim que terminaria. Tudo isto (que aconteceu em poucos segundos, tanto que a maior quantidade de tempo a agrupá-los seria o minuto) resulta de anos. Infindáveis dias, em contato e à distância, pelos quais reverberou os impactos da convivência, e dos quais o eco se fez ouvir ao visualizar aquela página de poucos bytes de peso.

Quando a mente voltou ao normal, toda a influência dos artigos de Einstein não mais poderia ser vislumbrada. Isto porque a velocidade de processamento dos fatos voltou ao seu estado normal, e assim não poderia se fazer perceber (a olhos nus) o efeito da relatividade. O que quero dizer com isso é: A vida voltou ao seu padrão, e voltei a sentir o efeito do tempo.

Mas devo alertar que o “padrão”, neste caso, também foge da normalidade, se considerar o aspecto da saúde de vida: Aqueles presos ao vício da internet vivem em um estado de stand by tão característico que faria inveja aos zumbis daquele filme, A noite dos mortos-vivos, de George Romero.

Quando éramos crianças, e acessávamos pela internet discada, talvez a adrenalina é que nos mantivesse alertas, para que não fôssemos dominados pelo estado zumbi. Hoje…

Bem, o que dizer de um mundo no qual as crianças mal sabem andar e falar, mas já sabem mexer nos dispositivos eletrônicos?

Mas devo admitir que, sem este estado, talvez não tivesse reencontrado àquela pessoa. Quando nossos pais nos mudam de ambiente, eles querem (conscientemente ou não) que estejamos situados em um contexto de existência, para que tenhamos o tipo de vida próprio daquele jeito. Como poderia ver quem havia ficado naquele lugar anterior? Se é que eu ainda me lembraria.

– Há quanto tempo!

Talvez por isso se diga que as redes sociais aproximam e reaproximam as pessoas. Mas sei que não posso ficar preso a este vício. Eu sabia, já naquela época. Por isto, resolvi dar um jeito de sair daquele mundo, para que pudesse viver o que chamamos de realidade.

– Pois é… Que tal se a gente se ver?

 

 

NOME COMPLETO: Eduardo Henrique Lins Cavalcante

E-MAIL: eduardolinswalkanmeieff@gmail.com

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