Mito do transporte público, de Alisson Carvalho

Amanhecia na cidade planejada, a massa indecifrável de peões era vomitada de suas casas e jogada nas engrenagens das ruas. Aquele amontoado de gente uniformizados formavam a força de trabalho e mesclavam-se perdendo gradativamente a sua personalidade, ao passo que se tornavam cada dia mais individuais.
Teresa Cristina chegou cedo ao ponto de ônibus. Geralmente era necessário acordar duas horas antes do horário do compromisso para chegar no horário acordado, o que nem sempre acontecia já que só a viagem custava quarenta minutos do seu dia e o resto do tempo era perdido com a espera pelo transporte público hiper-moderno-de-qualidade.
Mal amanhecia, o sol rompia com brabeza a abóbada celeste. Teresa sentia um ar ariano e um tanto leonino na estrela egocêntrica, pois a bicha gostava mesmo de chamar atenção e tacava logo boas doses de radiação naquela terra quente.
Se medissem a porcentagem de porquês suficientes para uma condenação divina por números de amaldiçoamentos e pragas jogadas, com toda certeza Teresa já estaria no inferno. Ela não conhecia bem o evangelho e fazia mal-uso das orações, costumava investir o tempo perdido rogando aos céus todas as desgraças do mundo.
Quando digo que Teresa esperou no ponto de ônibus, não estou usando muito as sinceridades e os fatos reais, ela ficava num ponto comercial próximo ao ponto de ônibus, assim como faziam os usuários do transporte público mais escrabiados e experientes na estranha arte de esperar.
Era como uma selva, o campo aberto era o ponto de ônibus e todos se escondiam dentro da mata, nesse caso a mata de concreto. Quem ficava no campo aberto se tornava um alvo fácil da bandidagem, dos malas, dos assaltantes, que eram exímios caçadores e peritos na arte de furtar. Os bichos chegavam como urubus, rápidos e eficientes, saiam tão ágeis como chegavam e raramente eram pegos pelos “homi”.
Ah, os “homi”, Teresa suspirou profundamente. Ela sabia que eles eram peças raras e fictícias na cidade planejada. Sabia bem disso e sabia também que geralmente eram usados para coagir qualquer pessoa da periferia, pois na cartilha do ofício o bandido tinha vinculação geográfica e genética, ou melhor, racial.
O ponto de ônibus durante muitas décadas foi um poste de iluminação pública que, entre as muitas funções, também protegia as pequenas multidões dos raios excêntricos do sol. E o povo, já adaptado e fatalizado, aceitava de bom grado a sombra parca produzida pelo poste. Eles esperavam em fileiras escondendo-se utopicamente da radiação.
Quatro horas e meia de espera do transporte público diariamente só no trajeto casa-trabalho era algo já legitimatizado pela população. E foi justamente dessas e outras façanhas que criaram o bordão “sofrimento é pouco castigo pra pobre”. O que realmente motivou Teresa a investir longas horas orando para que seu deus lançasse todas as desgraças do mundo no “transporte público” foi a instalação e inauguração dos malditos terminais de ônibus. Foi depois daquela malograda experiência que ela mentalmente corporificou a mente orquestrante dos terminais e despejou todos os quebrantos que conhecia, quando não conhecia ela mesma inventava um nome para a manifestação da desgraça, um neologismo qualquer e jamais se permitiria sentir-se vingada, alimentaria aquele ódio até o último dia de sua curta vida.

Por Alisson Carvalho

Foto: Victor Martins

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