Eu não aguento mais bicha discreta, de Alisson Carvalho

Frida Evolet
Frida Evolet

Ninguém viu o sangue desgrudando das veias do cara, ninguém costuma ver essas coisas de morte matada. Era noite, o vapor expelido pela terra camuflava os transeuntes, era neblina? Ninguém sabe, ninguém nunca sabe dizer o que se precisa, o que precisa ser dito.

A noite furtava a luz, consequentemente não sabemos distinguir o que é poça de água ou sangue coagulado. E esse é o maior perigo quando se camufla a realidade: tornar o que é óbvio algo turvo e dúbio.

Minutos antes, talvez, se tivesse olhado para o céu, as nuvens ou os lampejos no horizonte, teria evitado o futuro resfriado, a futura gripe, a tuberculose e a crise alérgica. Mas ninguém segura, tampouco prende o corpo quando o corpo quer agir, principalmente impulsionado pelas grandes emoções.

Existe algo mais clichê do que a própria palavra clichê? Existe: o pranto sob a chuva. Sair e no meio da fuga ser atingido pela tempestade é o cúmulo da derrota, mas caso aconteça, o mínimo que se pode fazer é aproveitar a dor causada pela agressividade das gotas gélidas e moralistas.

É necessário e até urgente que se afirme algumas questões, tais quais:

  • O equilíbrio é hipervalorizado;
  • Treinamos para a mediocridade.

Portanto, diante do exposto, dá para compreender porque tudo que foge da média é endeusado e ridicularizado, nunca aceito.

Tentam enquadrar, padronizar, mecanizar e tolher tudo que foge da curva da sanidade. Ser aceito é ser equilibrado, simples, ter as expressões e reações estimada socialmente, ou seja, não surpreender.

Na parte falocêntrica da cidade, você pode ser tudo, desde que reproduza os princípios do cidadão médio: ser hétero, branco e (censurado pelo patrocinador).

Estudei o céu nublado e os lampejos não me assustaram, os brados moralistas tolhiam meu grito e as lágrimas deixaram de existir. O sangue não era rubro, era o rímel que escorria pelas bordas das pálpebras inferiores. Não caí ajoelhado e nem tocou música de fundo, como manda o clichê dramático. Continuei andando pela rua com o semblante inexpressivo enquanto o meu sangue multicolorido escorria pela pele.

Era mais que make up, era minha vida, era eu, era a minha alma, era meu ser.

Se ao menos eu tivesse olhado mais atentamente antes de sair, talvez, só talvez tivesse avistado as nuvens prenunciando o desastre.

Todos falam que “nada contra, é o meu gosto”. Todos dizem “é só o meu gosto”. Todos repetem “gosto”. Tem um coração e uma vida por trás de toda feminilidade, não é algo que se possa esconder, não é algo que se possa guardar, é o que se é, está estampado na pele, na mente, no peito, em tudo.

Duas horas defronte o espelho maquiando-me. Duas horas.

NÃO PRECISAMOS ‘SER’ DISCRETOS!

Não queremos nos esconder, não mais! Andar de mãos dadas e demonstrar afeto não deveria ser uma sentença de morte, beijar não deveria ser um atestado de perseguição. E se parecemos alienígenas só por demonstrar amor e afeto é porque algo doentio existe e não está em nós, está na mente de quem não suporta ver o arquétipo masculino maculado.

Eu não suporto mais gay discretinho, todo padrãozinho, bem conformado em não causar, em não romper com a ordem. O perfeito representante da diversidade que não subverte, que está lá porque sua presença não questiona nenhum valor, já que tudo é feito milimetricamente com discrição.

É assim que todo mundo gosta, é assim que todo mundo quer: o cara bem comportadinho, bem silencioso, sem discutir nada constrangedor, sem expor a verdade, um exímio orador que reproduz o que a sociedade já é. E isso, sinceramente, está saturando, pois dificilmente há mudança no equilíbrio.

Abri a porta do armário e respirei fundo. Aquele cheiro de mofo, aquela escuridão monocromática, tudo me causou asco. Retirei a toalha, enxuguei o rosto e olhei feliz para o estojo de maquiagem com a certeza de que amanhã enfrentaria uma nova tempestade.

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