XIV , de Alvina Gameiro

E junho veio enfim, e como ele a moagem,

o ruído do engenho e as cheirosas tachadas.

E junho veio enfim, concedendo a hospedagem

aos que costumam vir brindar as vaquejadas.

Convidam-se ao redor, os vizinhos amigos,

e os vaqueiros que vêm testar a valentia.

Agregados se dão ao preparo de abrigos

Que vão dar cobertura aos heróis da porfia…

Entrega-se à alegria o povo da Fazenda.

Há latidos de cães no paio da morada

e os homens conversando, enquanto armam a tenda,

põem-se a rememorar casos de vaquejada.

Adiante, esfolam bois para fazer tassalhos

e o machado golpeia, enquanto o facão talha.

Na cozinha, onde alguém resmuninha  entre ralhos,

rude não de pilão, sobre a paçoca, malha.

E do forno de barro, arrastam cinza e brasa

para enfiar ali, muitas flandres de bolo:

cariri, caridade, e os sequilhos de casa,

pamonha, manauê, a peta, o engana-tolo.

Visitas da cidade os carros vêm trazer.

Chega o compadre branco e também chega o preto,

que as honras têm iguais no trato a receber,

e a carne vai servir aos dois no mesmo espeto.

Feliz o fazendeiro, exige na festança

tudo que há de melhor, fartura sem rival,

porque sempre viveu e vive na abastança,

que tributar desvelo é dom patriarcal.

E junho se derrama, alegrando as Fazenda

como o dinheiro do gado após a apartação,

transportando o Divino, a colher oferendas,

trazendo o boi-bumbá na festa de São João.

Alvina Gameiro, obra “Chico Vaqueiro no meu Piauí” (Poesia cordel 1971)

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