MONÓLOGO DO PESCADOR DE DEFUNTOS*, por Valéria Lima

Eu prefiro a morte a ser pego por esses salafras [ofegante]! Fela-da-puta! Não foi dessa vez que me pegaram!

Negro-Branco, meu amigo, nunca pensei que como ‘pescador de defuntos’ eu iria te buscar no Parnaíba. Triste homem. Ficou doido, desorientado com morte da filha Leninha… morreu torrada a Leninha! Oh, meu Deus!

E tu, Negro-Branco, um filho-da-mãe que morre com o bolso vazio! Nada pra mim. Tá certo! Tá certo! Tu é meu amigo. Morreu. Não tô contente não. Nem pela tua morte e nem por não ganhar nada pra te pescar.

Agora se tu tivesse me ouvido… Eu te chamei pra entrar comigo na pistolagem;  muito mais negócio.  Não estaria  no  “Palha de Milho”. Tu não quis. Eu sei que tu só roubava umas besteirinhas pela Raimundinha e filhos. Por uns farelos de pão!

Mas eu tenho que mudar de vida. Tirar a barriga do rio. Logo essa água toda diminui; um tal geógrafo das quantas falou: “Vai chegar um dia que vamos de pé de Teresina a Timon”.

Nessa vida de pistolagem só mato quem já está com a morte nas costas. Zé Olavo tá na mira. Encomenda.

Tu disse, amigo, que vou cometer um desatino; me deu conselho. Mas tem muita coisa ruim e misteriosa acontecendo nessa cidadezinha. As casinhas de palha pegando fogo… Tu não acha injusto deixar esses vermes fazendo o que querem com a gente? Turismo mesmo? Interesses políticos? Tu explicou, mas eu não quis entender nada. Todo mundo sabe quem tá fazendo isso, mas ninguém aponta. Di-ta-du-ra!!!

Mas de que adianta a liberdade se se muda as coleiras, mas os cachorros são os mesmos? A democracia que devia haver era a Democracia do Pão, Liberdade de Vida, Direito de Viver! (Fontes Ibiapina, em Palha de Arroz).

Tu disse que eu só podia tá doido quando falei que capaz do comunismo ser melhor. Parece que não mesmo, tu me explicou: o comunismo é regime de força; bem pior que a Ditadura que aí está. No comunismo só eles mesmo mandam. É um “sistema despótico de capitalismo fechado”. Não entendi muita coisa, mas certamente coisa boa não é.

Amanhã mesmo é dia 10… mas pode até ser hoje!

E não adianta ninguém se preparar. Um Deus-nos-acuda. As mulheres e meninos gritando feito loucos e os homens botando pra fora os cacarecos; o sino tocando e o fogo subindo. Parece uma dança macabra. No dia seguinte pode até ter os risos, parece divertimento, um esporte qualquer. Mas tantas crianças queimadas não tem graça alguma! Desgraçados!

Com certeza tem dedo desses vermes ladrões do poder, pois nada é feito para acabar com isso. Nem Corpo de Bombeiros dá conta. É de propósito! Dizem que Pau nas Fuças [cabaré] não pode ficar ali no centro enfeiando a cidade. Decerto que andam queimando é tudo. Logo se vê que não é só papo para turista…

Esses cabras são tudo ladrão! Dessa vez não vou fazer campanha pra nenhum! Prefiro morrer de fome.

Alguém aí tem uma grana guardada? Vamos embarcar na minha. Empresta  uns  tostões. Eu compro um pau-de-fogo  e  acabo com aquele capitão major. Aquele miliciano fuleira.

Fora!!! Foooooooraaaa!!! Ele não! Ele não!

* Trata-se de um excerto da peça “À Luz de Velas”, de minha autoria, a qual foi encenada pela primeira vez em 2017, sob direção de Chiquinho Pereira, na época professor e diretor da “Gomes Campos”. E todo contexto contém uma crítica do cenário atual brasileiro. No monólogo em questão, o mesmo reflete à conjuntura socioeconômica e política de Teresina, capital do Piauí, nos anos 1940, onde ocorriam “misteriosos incêndios”, sobretudo no bairro chamado Palha de Arroz. Por outro lado, essa situação impelia a população à criminalidade para tentar sobreviver, além da prostituição desvelada. A inspiração central da peça, então, surgiu da obra memorialista intitulada “Palha de Arroz”, do romancista piauiense Fontes Ibiapina, a qual foi escrita na década de 1970, mas muito de situações cotidianas das histórias de minha família. Apesar de várias apresentações da peça teatral, com atores e atrizes diferentes, somente em 2018, a essa parte do texto foi dada voz e corpo cênico pelo ator Laércio Coutinho no elenco, atualmente morando em São Paulo. Tal projeto fez uma discreta conexão com “Abajur Lilás”, do escritor paulista Plínio Marcos, onde um dos cernes é a exploração do corpo da mulher e a vida suburbana. Obs.: Os erros ortográficos fazem parte da fala da personagem Negro-Gregório.

 

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