Eu só escuto música boa, por Noé Filho

Você duvidou disso alguma vez? É óbvio que eu, no auge do meu saber cultural, jamais iria escutar música ruim ou de péssima qualidade. Aprecio apenas músicas com alta potência artística e cultural. E digo mais: recomendo a todos que não escutem música ruim, por favor. Escutem apenas música boa. Ah, a música boa…

Eu detenho enraizada em mim profunda certeza da minha capacidade de identificar e escolher apenas músicas da mais alta qualidade, para que meus ouvidos aguçados possam se deleitar. Consigo separar bem separado o joio do trigo, o piruá da pipoca. Inclusive, aguarde, que no final deste texto vou recomendar uma playlist apenas com canções elevadíssimas, escolhidas a dedo por toda minha sapiência artística: a Playlist do Noé, recomendada apenas para quem tem esse gosto refinado como o meu.

Foto minha em preto e branco e de boina para endossar a minha alta cultura e bom gosto musical. Foto batida pelo fotógrafo de fine art Um Zé.

Você deve estar se perguntando: “e o que é música de qualidade, Noé?”, “por que você se acha essas cajuína toda?”… Calma, mermã, vou explicar. Tenho um conceito que considero tão elevado quanto meu gosto musical. Assunte.

Música de qualidade é simplesmente toda música que eu gosto. Simplesmente. Simples. Assim. Se eu gosto, é de qualidade. Pelo menos pra mim, afinal, eu sou a pessoa que estou gostando. Pra mim, é o que importa. Gostei, tá gostado, tá ouvido. Se eu gosto, a música tem alta potência cultural. Pra quem, Noé? Surpresa, surpresa: pra mim. Sim, tem alta potência cultural pra mim. Simples assim.

“Ai, Noé, quer dizer então que tu que vai dizer o que eu devo escutar e gostar?” E eu disse isso, mermã? Te acalma. Da mesma forma que eu posso escolher que músicas eu gosto, você também pode ter suas escolhas, e tudo bem. Eu não obrigando você a escutar nada e você não me obrigando a escutar nada, tá tudo bem. Mas estamos livres pra dar sugestões, recomendações, compartilhar o que gostamos.

O que me faz gostar de uma música? Músicas com letras originais, poéticas. Músicas com melodias complexas. Músicas com letras simples e engraçadas. Músicas com arranjos simples e objetivos. Músicas que me façam dançar. Músicas que me façam lembrar de algum momento especial da minha vida. Músicas que mexam com meu espírito. Músicas que me emocionem. Músicas que me divirtam. Os critérios são os mais variados possíveis e, felizmente, todos convivem em harmonia, pelo menos dentro da minha alma.

O complicado é quando aparecem seres da alta elite cultural refinada querendo delimitar, estreitar e rotular o que pode ser considerado bom, não apenas para si, mas para toda a sociedade. E, que grande surpresa, os gêneros musicais que são enquadrados fora do quadrado do que é bom são gêneros ligados a produções culturais das periferias, do interior. Forró, funk, sertanejo, axé, swingueira, pagode, samba. Jamais música clássica, MPB, rock, bossa nova, música branca ou embranquecida.

Não tenho energia suficiente para listar todos os grandes artistas, hoje, aclamados por quem é entendido, que foram esnobados pelas elites culturais de suas épocas, porque não atendiam às expectativas estreitas que tinham. Mas vou focar aqui no exemplo do Rei do Baião: Luiz Gonzaga. Por representar um gênero musical do interior do Nordeste, apreciado nas periferias das grandes cidades do Sudeste, com letras, muitas vezes, fora do padrão normal da alta cultura da língua portuguesa maravilhosa, foi colocado à margem do cenário musical nacional, nunca tendo ocupado os espaços que merecia, o que, felizmente, não foi suficiente para diminuir sua força e seu brilho.

“Eita, Noé, como tu enrola, e a tua playlist, quêdi?” Tudo a seu tempo. Vou colocar aqui o link da minha playlist do Deezer. Nela, convivem Calcinha Preta, Chico Buarque, Marília Mendonça, Bia e Os Becks, Mc Kekel, Chitãozinho e Xororó, Cami Rabêlo, Nós e Chico, Buika, Olodum, Cesária Evora, Pavarotti, Bob Marley, Cassadee Pope, Anno Zero, Buena Vista Social Club, Léo Magalhães, Monise Borges, Umm Kulthum, Luiz Gonzaga, Adoniran Barbosa, Nina Simone, Ana Carolina, Zé Ramalho, Bee Gees, Cássia Eller, Validuaté, Drake, André de Sousa, e por aí vai… Tá todo mundo lá, em paz, sem brigar, se respeitando, se entendendo. Em um equilíbrio que faz todo o sentido. Pelo menos pra mim.

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3 comentários
  1. Para tudo que se diz “Superior”, “Erudito” e “Alta Cultura” eu recomendo a leitura do texto do Noé Filho, afinal o que é bom sempre parte de um ponto e geralmente esse ponto é etnocêntrico e beneficia alguém.
    Todo que se coloca como sublime parte de um referencial pessoal ou que beneficia determinados grupos, geralmente os grupos que já dominam ou estão no poder!

  2. eu não entendi as premissas e onde o autor quis chegar, achei que faltou objetividade e existiu um certo desmerecimento de conceitos, no início houve um deboche sobre conceitos do que seria bom ou ruim musicalmente e no final o autor fez exatamente o mesmo que condenou no início, abriu a premissa e negou a mesma logo depois. No papel de gestor cultural ou técnico de curadoria para eventos culturais, você jamais vai detalhar o processo de escolha do que é bom ou ruim, mesmo que na sua cabeça seja um conceito amplo, ele está equivocado. A gama de variedade entre pessoas e preferências musicais é algo aleatório e grande demais pra se tentar mensurar por palavras. A existencia da profissão de critico de arte não inibe você de gostar de nada, você, no final das contas, gosta do que quiser, mesmo que isso seja impresso por padrões sociais do grupo onde você está inserido, especialmente na era da playlist que vivemos hoje em dia, onde os algoritmos de serviços de streaming são responsáveis pela maior parte das indicações de novas músicas no mundo atual. Arte, além de tudo, é experimentar, é vivenciar, é descobrimento… tanto pra dentro quanto pra fora… e me dá ânsia esse conservadorismo sequestrando o nome “arte” como se existisse um determinismo do que é bom e acabou… é uma limitação gigantesca, um desserviço cultural.

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