Como Escrever Para Agradar Sempre

Arte de Maurits Cornelis Escher

Diego Santos 

Dois passos: primeiramente, escreva como se não fosse totalmente você, porque a gente sabe o que verdade incondicional nas expressões de todo tipo pode causar se não for incrementada com umas polidas, umas voltas que a gente insiste em não chamar de mentira, mesmo sabendo que esta é praticamente sinônima da moral pública; em segundo lugar, diga o que será melhor “digerido”, sem que gregos, troianos, teresinenses, piauienses, brasileiros sintam-se desagradados, porque tal qual o mundo digital, a escrita também (mais ainda se for no mundo digital) é campo minado, e se não souber onde pisar, como pisar e em quem pisar (???), a exclusão é certa.

Com certeza não agradamos sempre quando escrevemos, principalmente se o texto não for suficientemente filosófico, científico ou, o mais superestimado, político. Nesse caso, a recepção é dura, porque daí se escreve mais livremente, às vezes até preferindo escrever o que se vive, mesmo as coisas que são pouco interessantes para muitos, porque a vida como ela é (boa ou não) deve ser bem insuficiente pra quem só se preocupa em como ela deveria ser, né não? Porém, pra dar uma contribuída com a alma e o corpo do texto, vamo dando umas enfeitadas aqui e alí, com umas referências legais e tal, porque, assim, mesmo se a gente for condenado no tribunal justo da interlocução, tamo em terreno conhecido, naquele campo minado citado anteriormente, mas com a vantagem de saber por onde andar mais ou menos. Daí, a réplica pode ser treplicada sem deselegância.

Dizendo assim parece que tô a fim, quando escrevo, de incomodar no sentido negativo do termo, e nem é. A última coisa que quero, nesse mundo que anda cada vez mais doido e doído, é causar desconforto sem propósito que sirva pra alguma coisa. Tô sempre na intenção de fazer nascer algo novo em mim e no outro, a partir do que digo, do que quem lê entende e de como a gente vai trabalhar isto sem “cristais quebrados”. Ou seja, na dialética do discurso (pra ficar mais bonito), porque tudo muda. A realidade e a razão se entrelaçam num movimento constante de superação e, dessa forma, se constroem o real e suas transformações que não param (OLIVEIRA; QUINTANEIRO, 2002).

Acredito até que a gente precise muito de gente que tenha esse tato, compreende? A crítica te consome quando não tem mais o que corroer – alguém disse isto, não lembro bem quem –  e crítico tem de todo tipo: de cinema, de música, literário, de moda, de bunda e por aí vai. Não tô bem nesse rol da criticidade. Na verdade, quando escrevo com liberdade, o faço pra me esvaziar do que tá incomodando e fazer com que quem leia, também sinta esse efeito de despejar alguma coisa pesada e poder dar espaço pra algo diferente, melhor, maior.

Como diria Frei Betto:

Escrevo, enfim, para extravasar meu “sentimento de mundo”, na expressão do escritor Carlos Drummond de Andrade. Tentar dizer o indizível, descrever o mistério e exercer, como artista, minha vocação de clone de Deus. Só sei dizer o mundo através das palavras. Só sei apreender este peixe sutil e indomável – o real – através da escrita. É minha forma de oração (BETTO, 1997, p. 21).

Meu pai costuma dizer que é poeta porque presta atenção nas coisas. Não somente o que leu ou o que aprendeu em sala de aula, mas o que escuta nas músicas, nas conversas, observa em volta, no trabalho. E, se a gente olhar direitinho, as coisas estão a todo momento se mostrando pra gente, parecendo exibicionista, mostra até – ou principalmente – o que a gente não quer ver. Fazem rir, fazem estranhar, às vezes dá náusea, às vezes faz chorar, ou só lacrimejar. Mas aprender que as coisas falam é um caminho sem volta. Tu sai pra comprar um bolo de caroço pra lanchar e tá vendo que a vida se comunica contigo a todo momento, dizendo umas coisas úteis e meio inúteis que talvez só a escrita solta, despretensiosa, sem muita vaidade, possa mostrar. Como diria o rapper Froid,

você não sabe a metade do que eu sigo

Eu não sigo nem a metade do que eu vejo

Eu vejo tanto que chega a doer de medo

Sabe a verdade? Eu compartilho esse castigo

(Froid – A Culpa É Das Igrejas / Sinais).

Mas não é desqualificando a leitura, não! É qualificando o que a gente às vezes esquece que também dá lição. Como conselho de mãe, prosa de vizinho, mensagem de texto no direct, de áudio no whatsapp, papo de elevador, papo de ponto de busão, papo de busão, ideia trocada de irmão e de irmã, playlist aleatória no spotify “0800” e todo resto. E a fala e a escrita, tanto quanto cumade e cumpade, conversam bastante, presta atenção:

Segundo Koch e Oesterreicher (1994, 1990 e 1985), os termos fala e escrita são empregados em dois sentidos: num, denominam meios distintos de realização textual, correspondendo fala à manifestação fônica e escrita à manifestação gráfica; noutro, referem maneiras distintas de concepção de um texto. Um discurso acadêmico, por exemplo, embora seja um texto falado do ponto de vista de sua realização fônica, é, conceptualmente, um texto escrito. Já uma carta pessoal para um amigo íntimo, ainda que se realize por escrito, aproxima-se, conceptualmente, de um texto falado. A noção de concepção, nesta abordagem, é definida com base (a) nas condições de comunicação do texto e (b) nas estratégias adotadas para sua formulação (PRETI, 2000, p. 19).

Quem bem se aventura a escrever sabe: chega um momento em que só se tem descanso depois de investir um tempo, às vezes longo, transformando alguns sentimentos em palavras escritas. E tua criatividade é como criança recém-nascida, sem hora pra dormir e pra acordar. Tu pensa ”vou dormir cedo hoje”, daí, junto com o sono, chega um bocado de memória de hoje mais cedo, de ontem, de dois anos atrás, então, é o jeito organizar os “inbox” do pensamento de alguma forma. Pra quem escreve, essa forma, e fórmula, são as palavras. Parece mágica, mas é só faxina no quarto de dentro chamado cabeça.

As insônias, que pra uns vêm como riacho tranquilo, podem vir pra outros como maré alta. O quase silêncio da madrugada ensurdece os “escrevedores”: barulho do ventilador, dos poucos carros lá fora cruzando a avenida, a respiração do cachorro, os grilos, a música que tu pôs pra amenizar a inquietação, os pensamentos de apreensão e medo… Exigir destes, textos que massageiem os egos é, além de irreal, injusto, porque escrever é confessar, até quando – ou principalmente – se quer esconder algo.

Referência Bibliográfica

 

BIANCHETTI, Lucídio (org). Trama & Texto: leitura crítica – escrita criativa, vol. II, São Paulo: SP, Plexus Editora Ltda. Co-edição Ediupf, 1997, p18-22.)

PRETI, Dino (org). Fala e Escrita em Questão.- São Paulo: Humanitas / FFLCH / USP, 2000. 258 p. (Projetos Paralelos – NURC/SP, 4)

QUINTANEIRO, Tânia(org). Um Toque de Clássicos: Marx, Durkheim, Weber. Tânia Quintaneiro, Maria Ligia de Oliveira Barbosa, Márcia Gardênia de Oliveira. – 2. ed. rev. amp. – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

 

 

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