Para todas as pessoas brancas, por Victor Martins

Esse texto tem um único objetivo: causar um enorme desconforto. Se você estiver lendo e sentir incômodo, irei ficar satisfeito sabendo que meu objetivo foi alcançado.
Antes de mais nada, quero te propor um momento de reflexão: se eu pedisse pra você pensar em um artista, em qual artista você pensaria? E, se agora eu pedisse pra pensar em um artista negro, seria o mesmo artista que você pensou com a pergunta anterior?

Como eu falei no início, esse texto tem o intuito de gerar desconforto. Um desconforto específico e a um grupo específico. Com esse texto, quero mexer com a zona de extremo conforto da branquitude.

Quando propus a você pensar em um artista e, depois, em um artista negro, sei que é muito provável que na primeira opção veio uma pessoa branca. E sabe o motivo? Porque nós, pessoas brancas, só racializamos os outros. Para a branquitude, os artistas brancos são os únicos que que merecem estudos, são os únicos que quebram as regras. A prova disso tá em todo lugar: Picasso, Salvador Dalí, Van Gogh, Caetano Veloso, Raul Seixas, Torquato Neto…

Sei que muita gente viu as manifestações de BLM que surgiram no mundo e se perguntou como poderia, sendo uma pessoa branca, pautar e iniciar uma luta antirracista. Te digo que você vai precisar sentir incômodo e pensar sobre o seu privilégio, se não, nem adianta ficar postando nas redes sociais que apoia só pra sair de legal com os seguidores.

Quantas vezes você foi a uma exposição de arte numa galeria branca de elite e viu uma exposição só com artistas negras? Quantas vezes você abriu um livro de arte e leu um estudo completo sobre as vanguardas europeias e se perguntou aonde estavam os artistas negros da época?

Quais as suas referências na arte?

A elite da arte caminha lado a lado com o privilégio branco. Sobre o abraço quentinho de um governo fascista que descontrola nosso país, a branquitude passeia tranquilamente sem se dar conta de como os seus privilégios oprimiram e oprimem todos os dias as pessoas não brancas. Na verdade, uma parcela dessa branquitude sabe que esse privilégio branco é uma forma de oprimir, e usa ela da pior forma possível.

Quando proponho que você reflita sobre isso, não quero receber os parabéns por estar propondo isso. Tô fazendo o mínimo e você também tem que fazer. É a nossa obrigação. Já passou do momento de nós, pessoas brancas, discutir isso na família, no trabalho, nos relacionamentos, na arte… Viver é um ato político. Enquanto pessoas demoram anos para conseguir uma galeria para expor um trabalho, um homem branco, que, muitas vezes, tem trabalhos artísticos limitados, expõe e vende seus trabalhos por preços exorbitantes. Recentemente, vi uma postagem de convocatória para uma exposição para artistas sem galeria. Ideia legal, porém, você tinha que pagar 150 reais na inscrição. Que artista independente tem 150 pra dar numa inscrição sem ter a certeza de que vai expor? Na nossa atual conjuntura, com 150 reais, você compra 15 kg de arroz que vai durar só metade do mês.

A luta antirracista e o pensar no seu privilégio branco devem acontecer todos os dias, e não apenas quando você se sentir confortável. Porque, enquanto você vive envolvido confortavelmente entorpecido pela redoma de vidro da sua branquitude e do seu privilégio branco, pessoas negras são mortas sufocadas pelo joelho de um policial branco ou têm os seus carros alvejados por 80 tiros.

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