Somos mesmo corpo e mesma vivência, por Ayra Dias

Da esquerda para a direita: Elza Lobão, Claudio, Jovanna Baby (primeiro plano), Beatriz Senegal (segundo plano) e Monique Du Bavieur. Fundadoras do Movimento Nacional de Travestis e do ENTLAIDS
O título desta coluna é uma resposta de Jovanna Cardoso da Silva, conhecida nacionalmente como Jovanna Baby quando eu a agradeci por me apoiar em um projeto. Suas palavras ressoaram em mim de maneira bastante significativa, pois em virtude de uma sociedade transfóbica que insiste em invisibilizar, desvalorizar e matar travestis diariamente eu estava fragilizada, emocional, psicológica e espiritualmente.
Jovanna é uma das fundadoras do movimento travesti no Brasil, responsável pela criação da primeira associação exclusivamente de travestis do mundo, a ASTRAL, atual presidente do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros – FONATRANS –, o qual me convidou e honrosamente faço parte, é também responsável pela publicação do primeiro dicionário de bajubá, o idioma travesti, que, de acordo com a pesquisadora Shayra Brotero, pode ser entendido enquanto tática de guerrilha.
Em coluna publicada no portal Ceará Crioulo, intitulada Travestis e Transexuais Negras: reverência às raízes fortes, a travesti e parceira de luta Yara Canta, faz um resgaste histórico e potente acerca da vida daquelas que construíram e constroem o movimento travesti no Brasil garantindo que a nova geração possa acessar universidades, postos de trabalho e até mesmo a possibilidade de serem colunistas, como eu e minha irmã.
Ventura Profana diz em uma de suas músicas que Deises são as Yabás falando ao pé do meu ouvido. Dialogando com o pensamento de Linn da Quebrada, em entrevista para o programa Conversa com o Bial, poderia dizer que Deise é a representação de um Deus feito de eus, seres que possuem mesmo corpo e mesma vivência, que venceram a inquisição assim como a primeira travesti brasileira documentada, Xica Manicongo.
No estado do Piauí, a baluarte do movimento travesti Monique dos Santos foi totalmente invisibilizada pela cisbranquitude da sociedade mafrense. No entanto, sua luta e sua história não serão apagadas, pois somos corpas travestis, símbolo da resistência e luta pelo direito de existir.
Conforme pode ser verificado no instagram @profissionaisnegrospi, Monique foi uma das fundadoras do Grupo Matizes, atual organizador da parada LGBT de Teresina e um dos mais influentes do estado, foi uma das 27 travestis a protagonizar a campanha Travesti e Respeito que culminou na escolha do dia 29 de janeiro como o dia da visibilidade trans, data tão importante para a luta antitransfóbica, fundadora e atual presidente da primeira associação de travestis do Piauí, a ATRAPI.
Katia Tapety, que também é piauiense, foi a primeira travesti a ser eleita para um cargo público no Brasil, esteve no programa do Jô, é atualmente vice-prefeita da cidade de Colônia do Piauí, uma das mais importantes contribuintes para a discussão da inserção de travestis na política.
A Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA –, um dos principais canais de denúncia, pesquisa e discussão de políticas públicas, é presidido atualmente por Keila Simpson, outra travesti negra que tem um currículo extenso de militância e criação de possibilidades de vida.
Sou Ayra Cristina Sousa Dias, primeira travesti negra a ser colunista no estado do Piauí, atualmente, sou Mãe da Casa di Monique, movimento de cultura ballroom que foi construído historicamente por travestis negras da periferia dos Estados Unidos e funciona como fomentador do afeto como ferramenta de revolução. Resistimos e continuaremos a (re)existir pela compreensão daquilo que foi cirurgicamente ensinado a mim por Jovanna: Somos mesmo corpo e mesma história.
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