Bem-Vindos ao Bairro Cajueiro

Foto: Leticia Gonzaga

A rua Treze de Maio, no pequeno trecho que interliga as avenidas José dos Santos e Silva e Joaquim Ribeiro, é como uma espécie de artéria que cruza ao meio o peito do antigo bairro Cajueiro (hoje conhecido apenas pela referência “Centro-Sul”). Em tempos passados, o coração do lugar – por assim dizer – chamava-se Mercado Cajueiro, localizado no prédio onde atualmente funciona o Palácio da Música, no cruzamento das ruas Treze de Maio e Santa Luzia. Cresci dentro desse pequeno universo, com sua atmosfera típica de bairro residencial, de pessoas sentadas nas calçadas a conversar no fim da tarde, como uma espécie de antítese paralela, coexistente com o vizinho e agitado Centro Comercial, de carros, lojas e pedestres apressados.

Lembro-me bem de acordar aos domingos com o som da agitação que vinha da rua, dos mais velhos pondo a conversa em dia enquanto tomavam o caminho do mercado para a costumeira feira de domingo. Minha avó era uma dessas pessoas, que cumpria religiosamente o rito de ir ao mercado nas manhãs de domingo para comprar verduras e a carne de porco do almoço. Meu pai e meus tios costumavam fazer o mesmo itinerário, mas com o propósito de jogar conversa fora enquanto tomavam umas doses de cachaça com os amigos de infância que, como eles, cresceram no entorno do mercado.

Em certo ponto de minha adolescência, me peguei acompanhando meu pai e minha avó nessa rotina dominical, e a partir de então comecei a internalizar os aromas da feira, das frutas nos caixotes, das hortaliças nas bancas, do vapor do caldo de carne vindo das panelas da cantina e do bolo frito, das carnes e das tripas de boi expostas no balcão do magarefe, além da profusão de vozes do “converseiro” ambiente.

Mais tarde, já em casa, via minha avó, minha mãe e meu pai prepararem o almoço, no pilão pimenta-do-reino, o cominho e o alho, a juntá-los à carne e refogá-la em seguida no azeite de coco babaçu, a preparar o baião de dois com o feijão recém debulhado e temperado com bastante cheiro-verde e pimenta de cheiro, a escaldar as tripas e em seguida temperá-las para a “panelada”. Enquanto o almoço aprontava, minha mãe, meus tios e amigos da família se acomodavam no quintal da casa e jogavam conversa fora ao som de muito samba, enquanto eu, meus irmãos, primos e amigos vizinhos jogávamos bola na rua ou, quando não, videogame na sala.

Com o tempo, tais momentos me mostraram quão enriquecedores e aproximativos são os encontros que se consolidam em torno do hábito de cozinhar e saborear uma boa comida, especialmente se os ingredientes estiverem impregnados com as experiências daqueles que se reúnem em torno da refeição. Panelada, mão de vaca, sarapatel, peixada, cozidão, Maria Isabel, arroz com pequi, torresmo, bolo frito, pão cheio (receita da minha avó), dentre outros pratos de nosso cotidiano familiar inevitavelmente se tornaram condutores do meu percurso pelo mundo da gastronomia, iniciado em 2016 e em permanente (trans)formação.

O bairro Cajueiro, com toda sua identidade cultural, hoje se encontra presente na memória e na oralidade dos moradores que ainda residem no lugar. Minha avó, Maria de Jesus, e meu Pai, Luiz Gonzaga, são exemplos dessas pessoas que guardam o antigo Cajueiro num espaço muito especial dentro de suas lembranças e corações, assim como eu, que mesmo de pouca idade, ainda vivi para ver a magia do velho mercado em funcionamento. E que proveito posso eu tirar disso? Saio por aí e busco aqueles mesmos aromas em outros mercados, pesquiso novas combinações de sabores, ensino outras pessoas a arte da gastronomia e, claro, sempre que posso, volto para comer a comida de minha avó.

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  1. Que texto impregnado de sabor, de lembranças, e quiçá de muita felicidade. Alegria poder ter a oportunidade de crescer em meio as experiências culinárias da família. Deliberar com os exemplos felizes de domingos de pura interação da culinária típica do Piauí. Química entre sabores e amores, superado apenas por mais outros almoços em família.

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