Resenha da obra “Botija: em busca de um Tesouro” de A. F. Soaress

Aviso de gatilho: gordofobia e rromafobia (Rroma, povos “ciganos”).

“Em Poção de Pedra, na Tapera da Baixa. Vai lá. A botija te espera. No último quarto. Cuidado com o ‘bicho feio’, De fora, na porta, o guarda não pode deixar ninguém entrar; de dentro, não olhe pra canto nenhum, só pra botija. Se não, carvão se é.”

Narrado em primeira pessoa, o livro nos mostra Ramiro lembrando como conheceu o amigo Déo, a aventura que tiveram em busca de um tesouro, os perrengues que enfrentaram e as assombrações que surgiram pelo caminho. A leitura é bem rápida e não param de surgir coisas ao longo da história.

Logo de cara, nos deparamos com Ramiro chegando de mala e cuia em Mangueiral – que é baseada em Altos, cidade onde nasceu o autor, e que é considerada a Capital da Manga (daí, Mangueiral). Como o personagem veio da capital para uma cidade mais humilde, ele acha o povo “burro” ou “não muito intelectuais”.  “Ele só quer ser”.

Mas Ramiro acaba por fazer uma amizade com Déo (Deocleciano), que é um rapaz “humilhado como um porco só por ser gordo” por quase toda a cidade, razão pela qual recebe o apelido de “Pança”. No entanto, ele também sofre outros tipos de preconceito. Os pais de Déo, por exemplo, eram “ciganos”, vistos como “um incômodo pra cidade”, que “viviam pedindo esmola a um e outro” e que abandonaram o filho quando ele tinha cinco anos.

E é essa dupla (Ramiro e Déo) que se depara com a visagem de um velho caminhando em uma estrada. Ao passar por eles, o homem some, deixando para trás as mais terríveis dúvidas. Ramiro busca qualquer coisa que explique o que aconteceu, aquilo não era possível. Então, o velho reaparece em sonho para indicar onde enterrou um tesouro – a botija do título, que é uma espécie de vasilhame de barro com gargalo fino e asa. O caminho é longo, e não é nada fácil. Eles precisam passar por uma cidade mal-assombrada, ver luzes estranhas no meio da noite e dar de cara com várias outras assombrações até chegarem ao desafio final. Isso tudo para, como diz na sinopse, “descobrirem que suas maiores jornadas, aventuras e os duelos com os piores demônios acontecem dentro de si mesmo”.

A experiência de leitura foi bem interessante, o autor nos guia pela história principal da busca pela botija enquanto nos coloca quase como personagens de vários daqueles causos de fantasmas e outras assombrações que escutávamos na infância ou até já contamos, o que enriquece bastante o livro.

Os tesouros enterrados

O mito de fortunas enterradas é algo bem popular não só no Nordeste, mas também fora do Brasil, como, por exemplo, no Paraguai, onde, devido à Guerra, as pessoas escondiam o que tivessem de valor.

No geral, as lendas contam que a missão de desenterrar um tesouro não é uma tarefa simples; primeiro, porque ele “é encontrado unicamente por quem o recebeu em sonhos. Mesmo que dê todas as indicações, o outro companheiro não o verᔹ.

Além disso, há uma série de regras para cumprir, quase como uma cerimônia: “trabalhar de noite, ir sozinho, em silêncio, (…) se conseguir arrancar o ouro, deixar uma moeda. Jamais carregar tudo”², ir sem cobiça, não olhar para os lados, encarar as inúmeras visagens que surgirão para defender o tesouro, às vezes, lutar com o próprio diabo. Caso falhe em alguma dessas exigências, o ouro vira carvão.

Algo interessante que o livro retrata sobre as lendas de tesouro enterrado é a presença de uma luz ou fogo azul para demarcar o local da botija: “reza a lenda, nos locais onde há um tesouro-encantado enterrado, sempre sobe uma luzinha de cor azul. Quando a pessoa escolhida para o desenterrar falha, a luzinha sai voando pelo céu e vai pousar noutro lugar, o qual se torna o novo paradeiro do tesouro”.

Autor e obra

A. F. Soaress nasceu na comunidade São Bento, município de Altos-PI. É formado em Letras-Português pela UFPI e funcionário público da Prefeitura de Timon. Está trabalhando em sua série de livros com elementos fantásticos, chamada Adamageia, e em um romance de época numa realidade alternativa e de cunho fantástico e regionalista, com o título de Homini Lupus.

“Eu achei essas histórias da minha infância bem mais mágicas porque elas faziam parte da minha realidade e achei que elas deveriam ser contadas também. Então, fui juntando memória, informações, experiências pessoais e coisas criadas na inspiração da botija para escrever o livro.” (Trecho da entrevista ao Causos Assustadores do Piauí)

Ainda sobre as referências de Botija:

“O Lobo do Mar, de Jack London, O Profeta, de Gibran Khalil, o Alquimista, de Paulo Coelho, entre outras, essa última me influenciou muito em certos elementos da narrativa, como a busca por algum tesouro, o sentido figurado da procura e da jornada… Tudo isso fizeram com que nascesse Ramiro e Pança, aos quais atribuí muito também da minha formação religiosa e dos valores que adquiri no percurso de minha própria jornada” (entrevista dada ao Geleia Total para a elaboração deste texto).

Livro físico: Loja Uiclap

E-book: Amazon

Referências:

¹, ² Dicionário do folclore brasileiro – Câmara Cascudo

Botija, em busca de um tesouro – A. F. Soaress (2ª edição, 2021)

Entrevista ao Causos Assustadores do Piauí (aqui)

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