Eu quero é dançar

Eu quero é dançar

 

Venho há muito tempo querendo escrever sobre uma obra de dança que me deixou muito feliz e suspensa, infelizmente a vida em meio a pandemia tem seus dias piores, aqueles em que as lutas tomam toda a nossa energia.

A minha trajetória na dança se cruzou desde o começo com a de um rapaz de olhar brilhante, carismático, nascido em Barras do Marathaoã em 1980 e que recebeu o nome de João Paulo em homenagem ao Papa João Paulo II, que, por aquela época, visitava Teresina. Veio para a capital em 1994 com sua família onde poderia estudar e mais tarde se formar em Educação Física.

Paulo Beltrão foi o nome escolhido, inspirado em grande atriz do teatro brasileiro, pois foi justamente no teatro que, Paulinho, como os amigos o chamam, iniciou a sua vida artística. Quando ele mesmo fala de sua história, o faz de maneira tão poética que chega a ser difícil não se emocionar.

Fazíamos parte de grupos diferentes, o Balé da Cidade de Teresina e o Balé folclórico de Teresina, ambos apoiados pela prefeitura da capital, e vivemos uma época de competições que acabava por nos afastar. Era até engraçado que existisse uma proibição no grupo dele para que não falassem com os bailarinos do meu grupo… Não funcionou para Paulo, pois ele sempre foi naturalmente cordial.

Paulo fala que quase todas as suas criações individuais têm o mesmo germe: o estudo e vasculhamento da memória, talvez por isso, me sinto tão tocada por sua obra, visto que eu também gosto de pensar na dança como um lugar que toca nosso íntimo e revela nossas emoções.

A pesquisa coreográfica “Eu quero é dançar da forma que me der”, ou, “EQEDDFQMD”, é descrita por Paulo como um mergulho resultante da sua volta ao interior, tentativa de resistir e não se apagar. Essa pesquisa iniciou em março de 2020.

Perguntei ao Paulo como surgiu o projeto e ele me respondeu assim: “iniciou de maneira despretensiosa e inevitável. Despretensiosa porque ele não surgiu com caráter de pesquisa, mas a partir da relação que estabeleci com a localidade Malhadinha – situada no interior do município de Cabeceiras do Piauí, a 120 km da capital, lugar onde moraram meus antepassados e hoje moram meus pais e estou vivendo durante este período de pandemia. E também, inevitável, pois fui estabelecendo conexões com os espaços que transitei durante a minha infância, folheando meu passado com os dedos da memória”.

A pesquisa foi mostrada no formato de vídeo dança numa série de oito vídeos, gravados e editados entre março e junho de 2020 e posteriormente publicada nas redes sociais e plataformas online entre os dias 5 e 12 de julho de 2020. E teve uma segunda fase desenvolvida entre agosto e setembro e compartilhada de 23 a 30 de novembro. Os desdobramentos continuam com a Invasão Coreográfica, estreada em janeiro desse ano, onde artistas convidados desenvolvem danças tendo como ponto de partida a pesquisa SQEDDFQMD.

Esse trabalho é repleto de poesia, suas imagens tocam na alma. Senti desde a primeira vez a necessidade de me conectar ainda mais com minhas raízes e de também trazer para a minha dança todas as minhas referências. Essa dança é histórica, se faz lembrança de muitos, apesar de ser um solo ela carrega o mundo. As imagens são delicadas e a trilha sonora, recheada de música popular brasileira, de uma sensibilidade incrível. Paulo Beltrão nesse trabalho fez uma dança poética em meio ao caos da pandemia, nos deu de presente as suas memórias e nos fez reconectar as nossas.

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