Lunático é o Sol, por Shara Lopes

Andressa é minha graça e vim em nome de várias. O meu nome eu sei, acho. Inventei de ser poeta aos cinquenta (alguns dirão tardiamente), logo depois de misturar ácido e balas de café em minha boca e regá-los a noturnos de Chopin, num carnaval desértico que fritou minha cabeça, desajustou minhas todinhas sinapses e me impulsionou a compartilhar contigo o episódio.

Dessa tragicômica experiência, a que após tantas amigáveis insistências me entreguei, é que desabrochou um lado adormecido e enorme que se mantinha acomodado, se não me falha o tato alterado, entre o fígado e a vesícula biliar. Lugar de onde também irradiava uma dor de costas tremenda que já me tinha corroído a alma inteira. Óbvio que a experiência se deu numa madrugada de céu estrelado dessas de outubro seco no interior do Piauí, esse fim de mundo. Ou no meu tempo interior. Já não sei mais.

Do fim, fez-se o início da extensão temporal. Seguindo os rastros deixados pelas teclas do dramático polonês, meu pensamento se esfarelou miudinho até ser só areia. Mas não qualquer areia. Aquela que pisavam os pés de João Batista, enquanto bradava a gloriosa vinda do pobre Messias. O ser grão me esgotou a tal ponto que precisei conferir o céu e beliscar minhas tolas amigas uma a uma, e olha que eram da casa dos milhares.

Testada e confirmada a realidade, resolvi que era hora de segunda vez me aventurar pelos becos da imaginação. (Aqui te minto descaradamente, leitora! Foram os becos e seus tentáculos que não tão gentis me guiaram). Num piscar de olhos, me senti sobre uma nuvem, toda eu açúcar, observando atenta o sol rodopiar em torno de gordas e curvas estrelas lambidas. Com a companheira gata de olhos tediosos averiguei: “Que te parece o astro-rei? Tão lunático quanto o percebe daqui minha vista?” A felina, num ímpeto, se agigantou até espocar e me vestir dos pés às cabeças de poeira celeste. (Sim, leste bem: nesse momento eu exibia, com toda a classe de que dispunha, duas colossais cabeças).

Retornei novamente à roda das amigas, em que, por essa altura, já se estava discutindo filosofia bem baratinha, daquelas de se encontrar aos baldes em boteco com caça-níqueis e um monte de pinga 51. Bradei inquieta: “Será possível que ninguém vai virar o disco?”. A psicanálise me explicaria, trinta e seis horas depois, que aquele rompante tinha razão de ser, que era aquele lado recém-animado que exigia sua medida na linguagem produzida por mim. Exigia que Andressa, já introduzida, se fizesse a poeta que tanto quis ser sem nunca saber.

Sobre a autora

Shara Lopes nasceu em Valença do Piauí. É professora de Língua Portuguesa do IFPI e doutora em Linguística pela UNICAMP. Coordena o projeto Clube de Leitura Literalize-se e gerencia o perfil do instagram @mulheresescritoras.
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