O Salão das Oralidades do Piauí (SOL) acontece no dia 22 de setembro, em Teresina, com uma programação gratuita dedicada à literatura, à poesia falada e às diferentes formas de expressão da língua. O evento reúne artistas, poetas, pesquisadoras e estudantes para discutir temas como periferia, ancestralidade, oralidades, acessibilidade e produção literária piauiense.

O evento começa pela manhã, das 9h às 12h, no Teatro João Paulo II, com uma programação repleta de boas discussões com Juh Veras e a palestra “Língua, poder e periferia: como produzir nas margens?”; seguida da participação de Mãe Gardene de Oxóssi com “O pretuguês e a oralitura do corpo ancestral no movimento negro”; e finalizando a manhã com Márcia Cristina apresentando “O som e as vibrações das oralidades: a audiodescrição como recurso de acessibilidade comunicacional”.
Já à tarde, das 15h às 17h, o Salão das Oralidades segue com a programação no Colégio da Polícia Militar, com atividades sobre as oralidades na literatura piauiense, escrevivência e performance poética, além de uma discussão sobre a linguagem presente na poesia de rua e no slam. A programação também inclui a apresentação da Antologia SOL, publicação coletiva que reunirá produções relacionadas ao evento.
O encerramento será às 18h, no Teatro João Paulo II, com uma apresentação de poesias de mulheres pretas, confluindo literatura, performance, oralidade e identidade.
Para Lenny Maria, uma das mediadoras do SOL, a realização do evento parte do reconhecimento da diversidade de vozes que compõem a cultura piauiense e do papel da oralidade na preservação e transmissão de conhecimentos.
“A oralidade é uma dessas formas fundamentais de produção e transmissão de conhecimento. Antes mesmo de estar registrada nos livros, muita coisa da nossa memória, da nossa identidade e da nossa cultura foi transmitida pela palavra, pelos versos, pelas histórias, pelas cantigas, pelos cordéis e pelas experiências compartilhadas entre gerações.”
A presença do SOL nas escolas e em territórios periféricos também está relacionada, segundo Lenny, à ampliação do acesso à produção cultural. Para ela, aproximar estudantes da literatura a partir de suas próprias experiências pode contribuir para que eles se reconheçam como produtores de conhecimento.
“Quando um estudante encontra na poesia, na literatura ou na oralidade elementos da sua própria vida, do seu território, da sua família e da sua comunidade, ele pode se reconhecer como sujeito de conhecimento e também como alguém que tem uma história que merece ser narrada.”
A proposta do evento também passa pela escrevivência, entendida como uma forma de aproximar literatura, experiência e corpo. Nesse sentido, a poesia não se limita ao texto escrito, mas também se manifesta naquilo que é vivido, sentido e performado. O corpo, ao ocupar o espaço da apresentação, amplia as possibilidades de criação e de participação de trajetórias historicamente pouco presentes nas narrativas oficiais.
Para o escritor Alisson Carvalho, um dos organizadores do SOL, a criação do salão surgiu da necessidade de escritores que vivem nas periferias terem um espaço para refletir sobre a língua a partir de suas próprias experiências. Segundo ele, o evento também propõe uma discussão sobre a influência de instituições como escola, academia, imprensa e editoras na definição do que é considerado uma forma legítima de expressão.
“A criação do salão foi motivada por um desejo dos escritores, principalmente daqueles que estão nas periferias da cidade, de ter um espaço para pensar a língua a partir das suas vivências. A gente pensa muito na colonização e como, dentro da gramática normativa e das instituições que a sustentam, é imposto um português padrão como forma legítima de expressão.”
Alisson relaciona essa discussão à valorização de diferentes formas de falar e produzir literatura, incluindo manifestações presentes nas periferias, nos terreiros, nos saraus e em outras experiências culturais. Para ele, reconhecer essas expressões também significa ampliar a compreensão sobre o que pode ser considerado literatura e conhecimento.
“A gente pensa em escrever sem pedir licença à academia. Isso é uma forma de ocupar o território, assumindo uma fala da quebrada, uma fala do terreiro, o sarau e o slam como lugares de conhecimento válido, sem esperar a tutela ou a validação de quem historicamente definiu o que é ou não literatura e o que é ou não o cânone.”
– Alisson Carvalho
O organizador também chama atenção para a circulação de produções literárias que permanecem restritas à oralidade e que, muitas vezes, não chegam ao mercado editorial. Nesse sentido, o SOL busca aproximar essas produções da materialização em livros e também de alcançar novos públicos.
“É importante discutir a literatura no campo da oralidade para mostrar que existe um saber produzido nesses espaços que muitas vezes estão fora das academias. Muitas obras periféricas circulam apenas no campo da oralidade, sem serem materializadas em livros. O SOL também quer mostrar que existe uma produção literária nesses territórios que merece ser conhecida.”
A proposta de descentralização também aparece na própria estrutura do evento, que reúne escritores, artistas, pesquisadoras, pedagogas e estudantes de diferentes espaços. Para Alisson, a intenção é ampliar a participação de pessoas que nem sempre conseguem acessar os circuitos tradicionais de literatura.
“Hoje em dia, a gente tem muitos salões de literatura, mas, quando se observa a ocupação desses espaços, muitas vezes eles são frequentados por pessoas que já estão inseridas nesse circuito. A gente quer criar um espaço onde pessoas que vivem fora desses grandes centros consigam dizer o que querem e falar sobre a importância de suas vidas, e sobre como essas experiências definem o que escrevem, o que falam e o que poetizam.”
Essa proposta também se materializa na Antologia SOL, que contará com textos produzidos por participantes do evento, incluindo convidados e estudantes. A publicação, segundo Alisson, busca registrar em livro produções que muitas vezes circulam prioritariamente pela oralidade.
“A antologia reúne diferentes mãos: mulheres, pensadoras, poetas, pedagogas convidadas para o salão e estudantes, tanto das faculdades quanto das escolas. É uma forma de materializar uma escrita que muitas vezes circula apenas no campo da oralidade e à qual essas pessoas nem sempre têm acesso.”

Para o organizador, a relação entre corpo, memória e oralidade é outro eixo central do projeto. A literatura, nesse sentido, não estaria restrita ao papel, mas também seria produzida por meio da performance, da dança, da música, dos rituais e de outras manifestações coletivas.
“O corpo guarda aquilo que o livro não alcança: o suor do tambor, o tempo do passo da dança, a resposta do coro, o improviso e o ritual. Quando a cultura oral é traduzida apenas para o texto escrito, pode perder parte do ritmo, da participação coletiva e da memória viva. O papel registra, mas a oralidade mantém esse conhecimento em movimento.”
A programação também incorpora a discussão sobre acessibilidade, com a presença da audiodescrição como recurso de comunicação. Para Alisson, a proposta é tratar a acessibilidade como parte da própria construção da experiência artística, e não apenas como um recurso complementar.
“A gente traz a acessibilidade para mostrar que a audiodescrição pode transformar a sensibilidade em método. Não deve ser algo extra para incluir, mas parte da forma de perceber e reescrever o mundo, tornando acessível aquilo que a oralidade expõe para pessoas cegas ou com baixa visão.”
A programação reúne nomes como Juh Veras, Lenny Maria, Mãe Gardene de Oxóssi, Márcia Cristina, Elara A. Moretz-Sohn, Psico Afrodite, Allícia Nascimento, Will de Oliveira, Ayra Dias e Sol entre outras pessoas envolvidas com a literatura, a pesquisa e a produção artística.
Para Lenny, a expectativa é de que o SOL contribua para ampliar os espaços de reconhecimento da produção literária no estado.
“Espera-se que o SOL deixe uma marca de diversidade, de pertencimento e de abertura de novos caminhos para a literatura piauiense. Que principalmente os estudantes possam se identificar, inspirar e acreditar que suas histórias e experiências também importam.”
Ao reunir literatura, oralidade, performance, acessibilidade e produção periférica, o SOL propõe ampliar o debate sobre os diferentes modos de produzir e compartilhar conhecimento no Piauí.
“Esperamos que os estudantes e os artistas saiam entendendo que a língua está para além do livro, que a autoria não precisa de licença e que o corpo também é um arquivo literário e vivo”, destaca Alisson.
O SOL é gratuito e aberto ao público. Informações podem ser obtidas pelo telefone (86) 9 9838-8890. Além disso, o evento também oferece certificado de participação para aqueles que desejarem, basta acessar o link e se inscrever!
Clique aqui: Inscrição para obter o certificado
Instagram: @salaodasoralidades
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Texto por: Luan Rodrigues
Revisão por: Elara A. Moretz-Sohn
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