A corporalidade, sob engrenagens dispostas a se entranhar perceptualmente, atingindo alteridades e o mundo, como afirma Merleau-Ponty, na “Fenomenologia da Percepção”, age capaz de apreender fenômenos e sensações habitualmente encravadas na vida diária, como receptor e realizador da realidade que o cerca. Não um mero aqueduto biológico, mas movimento constante.
A infância é espaço de completa entrega às matizes fenomenológicas, com total abertura às sensorialidades que o corpo abarca. A racionalização das passadas humanas, próprias da idade adulta, compreende uma dinâmica de interação mais apegada ao sistema e suas imposições reacionárias.
A apreensão do modus operandi europeu já era notória prática trazida pelos hábitos monárquicos do século XIX, no Brasil, aprisionando existências às falácias e ditames da cultura importada das terras desenvolvidas. As audições artísticas também eram tomadas pelas insígnias e costumes estrangeiros, atingindo pequena parcela populacional, dada a desigualdade social vigente.
É nesse contexto que emerge a figura de Maria Baderna. Bailarina atuante, em meados de 1848, chega ao Rio de Janeiro, quente. O contraste local ainda salientava algo mais grosseiro: não havia liberdade plena. Se, por um lado, os corpos aprisionados dos negros, impedidos de tomar seus ritmos e pensamentos para si, por causa da cultura escravagista, ainda emanavam movimento; por outro, os corpos da branquitude, esfalecidos pelo calor intenso, tentando reproduzir o status quo europeu, permaneciam sob entraves e recalques infindos. A prisão era costume geral! Uma peça de vestimenta literal, imposta ou não.
Diante das “medidas do ser” tropicais, Maria Baderna observa, enquanto mantém seu ballet costumeiro, trazido da terra natal italiana, a malemolência dos corpos negros, mesmo sob as agruras escravagistas. No Brasil, a bailarina e o pai buscam refúgio da guerra. Aqui encontram plena desigualdade. Mas há, no povo brasileiro, uma fortaleza de caráter incrustada. Ela viu isso na dança: no lundu. Viu um potencial, anteriormente usurpado do seu lugar poético, carregado de regras reacionárias, resistindo e dando continuidade ao ritmo local, agregando um compasso robusto ao ballet europeu e atribuindo ao seu sobrenome a alcunha pejorativa de subversão do patriarcado e da cultura escravagista, sendo apenas um corpo feminino em libertação.
A dança e seus atravessamentos permeiam a história da humanidade. Dependem, exclusivamente, de um corpo e suas pluralidades, encontrando similaridades ritualísticas no próprio movimento de criação do universo. Restringir o legado e as apreensões dos tentáculos ágeis do movimento corpóreo é típico do sistema econômico e social em que estamos inseridos. Há limitações talhadas em pedra perene.
O movimento de resistência é manter a dança no imaginário e nas manifestações folclóricas e culturais da sociedade. Em Amarante-PI, a persistência das danças, como o pagode típico da região, encontra revérberos pontuais, mas vívidos. Na Festa do Divino Espírito Santo da cidade, em 2007, a tia Mariquinha já trazia o pagode, por meio das danças infantis, em apresentações culturais no último dia dos festejos. A tradição não persistiu, por motivos desconhecidos, mas é sinal de desbravamento e incursão da tradição local.
A baderna começa onde sopra o lastro de vitalidade humana. É respiração ofegante. É pura vida!
A tia Mariquinha Pereira era filha de Cazé Oleiro, cujas moringas eram utensílios indispensáveis aos amarantinos do início do século XX; jamais pisou no interior das residências dos abastados moradores da avenida principal, que solicitavam costumeiramente seus serviços. Os mosaicos incrustados na cerâmica que revestia o piso do interior das nobres casas, não conheceriam os passos do artesão! As relações comerciais com tais clientes não passavam da “porta da rua”.
Entretanto, certamente, o fruto de seu trabalho era bastante apreciado. A prova de tal afirmativa se encontra no Museu de Amarante. Alguns exemplares assinados pelo artesão estão expostos no museu e ficarão para a posteridade.
E o que seria isso? Baderna viva!

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Texto por: Ana Cândida Carvalho
Revisão por: Paulo Narley
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