A cena audiovisual piauiense ganha uma nova produção voltada à história, memória, ancestralidade, cultura e resistência dos povos originários. Dirigido e roteirizado por AJosé Fontinelle, o média-metragem de ficção Revolução Aruana acompanha a trajetória de uma jovem indígena e aborda questões como racismo, identidade, pertencimento, educação e luta pela terra.

Com 45 minutos de duração, a narrativa acompanha Aruana, uma jovem indígena Tapuio Tabajara-Itamaraty da comunidade Nazaré, em Lagoa de São Francisco (PI), aprovada no Enem para o curso de Direito em Teresina. Ao deixar sua comunidade para ingressar na universidade, ela passa a enfrentar o preconceito, o racismo e os desafios da vida urbana, enquanto fortalece sua identidade e sua atuação em defesa dos direitos dos povos indígenas.
Classificado como livre para todos os públicos, o filme também aborda o acesso à educação, ações afirmativas, discriminação, grilagem de terras, desmatamento e violações de direitos. A obra busca valorizar a cultura dos povos originários e destacar sua contribuição para a formação da identidade brasileira, articulando entretenimento e reflexão em uma narrativa de resistência, pertencimento e transformação social.

A proposta do filme parte de uma perspectiva marcada pelo território piauiense. Para o diretor e roteirista AJosé Fontinelle, a produção nasceu do desejo de contar uma história vinculada à realidade local e dar visibilidade a narrativas que nem sempre encontram espaço na literatura, no teatro e no cinema.
“Eu sempre tive esse desejo de olhar para o nosso território, perceber as histórias que existem aqui. Quando escrevi a história de Aruana, a ideia não era contar apenas a história de uma jovem indígena, mas falar sobre identidade, pertencimento, memória, resistência e sobre a relação de um povo com seu território e sua própria história. Sempre quis que essa história fosse contada a partir do Piauí”, afirma.
Segundo o diretor, a construção da obra também buscou garantir a participação da própria comunidade indígena de Nazaré. A intenção, explica, era evitar que uma história sobre os povos originários do Piauí fosse construída exclusivamente por profissionais externos ao território.


A comunidade participou do processo de construção do filme, com contribuições relacionadas aos saberes e às experiências locais. Indígenas também integram o elenco principal, o elenco de apoio e a figuração. Para Fontinelle, essa participação foi fundamental para preservar a verossimilhança da narrativa e evitar representações estereotipadas.
“O cinema pode contar as próprias histórias. Quando conseguimos colocar uma história como essa na tela, não estamos falando apenas de Aruana ou de uma comunidade indígena, mas de memória, identidade e de uma parte importante da história do próprio Piauí”, destaca.
O diretor ressalta ainda a importância da consultoria realizada por representantes ligados à comunidade e à cultura indígena durante a produção. Segundo ele, a participação da Cacica Gardênia, de Margé Lusinete e de Elayne, coordenadora do Museu do Piauí, foi fundamental para contribuir com a construção de uma narrativa verossímil e evitar caricaturas ou estereótipos.

Incentivo à produção audiovisual piauiense
A realização de Revolução Aruana também está relacionada às políticas de incentivo à cultura. O filme é realizado por meio da Lei Rouanet Nordeste, com patrocínio do Banco do Nordeste.
Para Fontinelle, os mecanismos de fomento são fundamentais para viabilizar produções realizadas fora dos grandes centros, especialmente quando abordam histórias e personagens que nem sempre encontram recursos para chegar ao cinema.
“Essas políticas de incentivo são verdadeiras pontes. Elas permitem que uma ideia, uma história ou uma manifestação cultural que muitas vezes está distante dos grandes mercados consiga se transformar em uma produção profissional e chegar ao público”, afirma.

O diretor também relaciona o financiamento à possibilidade de fortalecer a produção realizada no próprio estado, com profissionais locais e participação da comunidade. Para ele, o investimento em cultura ultrapassa o financiamento de uma obra específica e contribui para ampliar as possibilidades de produção e representação.
“Fomentar o cinema regional não é apenas financiar um filme. É criar condições para que diferentes vozes possam contar suas próprias histórias e para que o Brasil possa conhecer a diversidade cultural que existe dentro do próprio país”
Representatividade Indígena no Audiovisual
Ao abordar a trajetória de Aruana entre a comunidade indígena e a capital piauiense, o filme também propõe uma reflexão sobre a presença dos povos originários na sociedade contemporânea.
A escolha de Teresina como um dos cenários reforça essa perspectiva. De acordo com Fontinelle, a presença indígena não deve ser associada apenas a espaços distantes dos centros urbanos, já que os povos originários também vivem nas cidades e continuam enfrentando desafios relacionados à preservação da identidade, da memória e dos territórios.
“Revolução Aruana contribui para o audiovisual piauiense justamente porque coloca na tela uma história que nasce do nosso território e fala de questões que ainda estão muito presentes na nossa sociedade, como racismo, luta pela terra, identidade e resgate da ancestralidade”, afirma.

Para o diretor, a produção também demonstra a capacidade do cinema piauiense de desenvolver narrativas com identidade própria e capazes de dialogar com questões de alcance nacional.
“O Piauí não precisa ser apenas cenário de histórias contadas por outras pessoas. Nós também podemos contar as nossas próprias histórias”, ressalta.
Na narrativa, a chegada de Aruana a Teresina para estudar Direito na Universidade Federal do Piauí funciona como ponto de partida para discutir a condição dos povos indígenas na contemporaneidade. A personagem passa a vivenciar os contrastes entre sua comunidade e a realidade urbana, enquanto mantém a relação com sua ancestralidade e sua identidade.

A experiência de participar do filme também ganhou significado particular para a atriz Monise Borges, que integra o elenco. Para ela, retornar ao Museu e à comunidade Nazaré, em Lagoa de São Francisco, desta vez interpretando a mãe de uma jovem que deixa a comunidade em busca dos próprios sonhos, tornou a experiência especialmente significativa.
“Foi muito especial e significativo fazer parte dessa produção. Estar junto de pessoas queridas do povo Tabajara Tapuio Itamaraty, vivendo esse filme e ajudando a contar essa história, trouxe uma dimensão ainda mais profunda para a experiência”, relata.
Monise destaca que a trajetória de Aruana ultrapassa a ficção ao dialogar com experiências vivenciadas por jovens e comunidades indígenas. Para a atriz, a presença de indígenas e descendentes na produção amplia o sentido da representação.
“Quando uma narrativa sobre povos indígenas é construída com a presença de indígenas e descendentes em cena, há algo que ultrapassa a representação. Não estamos apenas contando uma história sobre alguém: de alguma maneira, estamos reconhecendo e contando partes das nossas próprias histórias.”
A relação com a trajetória da personagem também se aproxima da experiência pessoal da atriz. Enquanto Aruana deixa sua comunidade consciente de sua origem e identidade, Monise conta ter vivido um percurso diferente, iniciado com a saída de Picos para estudar na Universidade Federal do Piauí.
“Eu saio de Picos e entro na Universidade Federal do Piauí sem ter consciência da minha própria história. É justamente dentro da universidade que essa busca começa, quando passo a me perguntar sobre a minha origem, sobre de onde venho e sobre as histórias que me constituem”, explica.



Segundo ela, esse processo de busca pela ancestralidade foi se intensificando à medida que novas experiências ampliaram sua percepção sobre a própria trajetória. Ao recordar sua chegada à universidade, Monise também menciona situações de preconceito relacionadas à forma como seu corpo era percebido socialmente.
Ao estabelecer esse paralelo, a atriz afirma que Revolução Aruana dialoga diretamente com questões de pertencimento, identidade e reconhecimento.
“Talvez seja aí que Aruana dialogue tão profundamente comigo. Ela parte sabendo quem é e eu precisei partir para começar a descobrir quem sou”, afirma.
Para Monise, a trajetória da personagem evidencia a importância de narrativas que discutem o direito ao pertencimento e à ocupação de espaços sem que isso represente o abandono das próprias origens.
“Ela não fala apenas sobre sair de uma comunidade e chegar à cidade ou à universidade. Fala sobre pertencimento, racismo, identidade e sobre o direito de ocupar espaços, saber quem somos sem precisar abandonar de onde viemos”, conclui.

A construção visual do filme também acompanha as mudanças vivenciadas pela personagem. O Diretor de Fotografia, Montagem e Edição, Ícaro Uther, explica que a linguagem visual foi pensada para aproximar o público da perspectiva de Aruana.
“A comunidade é viva, vibrante, colorida, enquanto sua visão de cidade é fria e cinza, refletindo diretamente seu sentimento ao chegar na nova realidade”, explica.
Segundo Ícaro, a fotografia acompanha a jornada de conhecimento e empoderamento da protagonista ao longo de um recorte temporal de quase uma década, contribuindo para apresentar suas transformações. A estrutura narrativa também permite explorar diferentes momentos da trajetória da personagem.
“Enquanto uma produção média-metragem, com um roteiro não linear, conseguimos explorar bastante na tela as aspirações e sentimentos que levam nossa protagonista a tomar determinadas decisões”, destaca.

Com a proposta de unir identidade regional, representatividade indígena e questões sociais contemporâneas, Revolução Aruana amplia o espaço de narrativas produzidas a partir do próprio território piauiense. O projeto prevê ainda exibições gratuitas, ações educativas, participação em festivais e disponibilização da obra em plataforma digital de acesso livre, ampliando as possibilidades de circulação do filme.
A pré-estreia de “Revolução Aruana” acontece nesta quarta-feira 7 de outubro, às 19h, na Comunidade Indígena Nazaré, em Lagoa de São Francisco-PI. Já a estreia em Teresina será no dia 17 de outubro de 2026, às 17h, no Museu da Imagem e do Som (MIS).

Equipe técnica
Direção e roteiro: AJosé Fontinelle
Assistente de direção: Darlysom Almeida
Direção de fotografia: Ícaro Uther e Vini Luz
Direção de arte: Luciano Melo
Direção de elenco: Adalmir Miranda
Produção: Rodolfo Pena
Som direto: Isabela do Kariri, Naira Cibele e Anderson Luiz
Consultoria em cultura indígena: Elayne da Silva Nascimento Música: Monise Borges Trilha sonora original: Iago Guimarães
Iluminação: Paulo Sombra
Maquiagem: Ozânnia Vila
Maquinário: Natanael da Silva e Elias Araújo
Assistência de produção: Rodrigo Alves
Operação de câmera: Ícaro Uther e Vini Luz
Operação de drone: Rodrigo Alves
Fotografia still e making of: Raynara de Castro
Edição: Ícaro Uther
Colorização: Vini Luz
Mixagem e desenho de som: Iago Guimarães
Elenco: Ariel Barroso, Serena Morais, Luise Marry, Monise Borges, Edite Rosa, Atenéia Rodrigues, Joseane Pinto, Luciano Melo e Rhenan Luis.
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Texto por: Luan Rodrigues
Revisão por: Elara A. Moretz-Sohn
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