Era 13 o dia, e o sol já se desaquecia no oeste. Corria o suor no entremeio da coluna, desenhava um rio inteiro a desaguar naquele mar de gente: eram, por força da natureza, piauienses. E os olhos a percorrer encontros-dos-rios e os lábios a entornar saliva a dentro o rastro de um beijo pré-histórico e os pés, que falhos, sobretudo, insistiam. Parou por alguns instantes no meio daquela procissão, como quem pudesse ser um sei-lá-o-quê divino e contemplasse aquela gente toda. Orgulhosa, deixa-se a sacralidade de lado, lembra-se de que faz parte daquela gente toda, era aquela gente toda ela também e se comovia. De tempos em tempos, a comoção é um direito fundamental do qual não se pode abrir mão, a insensibilidade nunca foi fértil nestas terras. Às vezes, diziam ser. Vendiam como se assim fossem, inférteis, porque a desesperança sussurra mesmo de volta essa quentura acumulada no asfalto. Mas ali estava, parada, no meio de gente que sobre o mesmo asfalto entoava Esperança a plenos pulmões. Ria e pensava: diacho de povo resistente! E poderia ser outra coisa? Fidié meteu-lhe o pé em desembestada carreira, a tropeçar sobre os grossos cascos das baleias que aqui embaixo dormem profundamente. Facão piauiense não enverga, corta. Está entremeado no sangue que aqui já escorreu por justiça, que aqui a gente tenta estancar, manter dentro do corpo, vivo, pulsante, quente, Filha do Sol do Equador. Este pôr do sol vermelho, insistente e democrático. Um sol para cada um carregar sobre a cabeça. E a gente a levantar a bandeira no alto, no centro do pós-apocalíptico brasileiro, cantarolando revolucionário e gentil nos dezenoves-de-outubro: e vendo a pátria pedir liberdade, o primeiro que luta é o PIAUÍ.
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Texto por: Elara A. Moretz-Sohn
Revisão por: Paulo Narley
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Lutemos sempre.
Elara lida com a palavra com muita maestria, trazendo para a prosa o lirismo dos poetas.
texto belíssimo, entremeado de poesia e realidade.
Poetizar a nossa história de lutas entremeada pelos beijos que marcam nossa pre-existência com versos leves, só mesmo a iluminada Elara
Orgulho da nossa terra e nossa história!
Que texto incrível!!